Quais variantes brasileiras preocupam mais os pesquisadores

Nova cepa em Belo Horizonte apresenta 18 mutações desconhecidas e tem semelhanças com variantes mais contagiosas de Manaus, da África do Sul e do Reino Unido

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A transmissão desenfreada do novo coronavírus no Brasil tem sido responsável pelo aparecimento de novas cepas com potencial de serem mais contagiosas. Por isso, pesquisadores têm se referido ao país como um “celeiro de novas variantes”. Elas podem ter contribuído para a alta de casos, hospitalizações e mortes por covid-19 no começo de 2021, quando o Brasil atravessa seu pior momento na pandemia.

No começo de abril, 20 das 27 unidades da federação e 21 capitais tinham taxa de ocupação de UTIs (Unidades de Terapia Intensiva) acima dos 90%. Ao menos 1.068 municípios, o que representa cerca de um quinto das cidades brasileiras, relataram risco de desabastecimento de oxigênio, segundo um levantamento do Conasems (Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde).

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mortes em 24 horas por covid-19 foram registradas na quinta-feira (8) no Brasil, recorde desde o início da pandemia, segundo o Ministério da Saúde

Em fevereiro, o neurocientista Miguel Nicolelis escreveu em suas redes sociais que o país havia se tornado o “maior laboratório a céu aberto” para a observação da dinâmica natural do coronavírus.

“Todo o mundo vai testemunhar a devastação épica que o Sars-CoV-2 [vírus que causa a covid-19] pode causar quando nada é feito de verdade para contê-lo”

Miguel Nicolelis

neurocientista e ex-coordenador do comitê científico de combate à covid-19 do Consórcio Nordeste

O que são as variantes

As mutações são falhas durante o processo de replicação do vírus no organismo. Comuns e esperadas, elas acontecem toda vez que o vírus passa por uma pessoa. Quanto mais o coronavírus circula de forma descontrolada maiores as chances de surgirem variantes com vantagens evolutivas.

“A quantidade de linhagens que têm aparecido se deve a isso: a quantidade de contatos que estão acontecendo [entre as pessoas]”, afirmou ao Nexo, em janeiro, o doutor em medicina tropical Joaquín Carvajal, que é pesquisador da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) Amazônia.

“Nesse processo evolutivo, são selecionados os que conseguem se adaptar mais e que se espalham melhor entre a população. As mutações do novo coronavírus ainda acontecem de forma mais lenta do que outros vírus, mas esse processo depende das pessoas. Se elas continuam saindo ou não aderindo às medidas de contenção, essa taxa de mutação acelera”

Joaquín Carvajal

pesquisador da Fiocruz Amazônia

No final de 2020, uma variante surgida em Manaus passou a preocupar autoridades sanitárias do Brasil e do mundo devido ao seu maior potencial de contágio. Chamada de P.1, ela foi associada ao segundo colapso do sistema de saúde do Amazonas, ocorrido entre dezembro e janeiro. A mutação se espalhou pelo país, forçou cidades como Araraquara, no interior paulista, a decretar o fechamento do comércio não essencial, e já tem predominado em alguns países da América Latina. A variante também colocou o governo britânico em alerta.

Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), a P.1 é classificada como uma VOC (“variants of concern”, na sigla em inglês, ou variantes preocupantes, devido sua alta prevalência). Além dela, existiam outras quatro até o começo de abril: B.1.1.7 (Reino Unido), B.1.351 (África do Sul), B.1.427 e B.1.429 (Estados Unidos). Muitas outras entram na categoria VOI (“variants of interest”, ou variantes de interesse, que tem um menor potencial de contágio). É o caso da P.2, identificada no Rio de Janeiro.

Por que são mais transmissíveis

A maior capacidade de transmissão das variantes, segundo os pesquisadores, se deve às mutações na proteína S (ou Spike), que tem forma de espinhos e reveste o coronavírus. É essa proteína que faz o vírus grudar nas células humanas. As proteínas são formadas por aminoácidos, e as mutações fazem os aminoácidos trocarem de posição.

Na proteína S da P.1, por exemplo, dez aminoácidos sofreram mutações em comparação com a linhagem que lhe deu origem (B.1.1.28). Mas três dessas mutações são mais importantes, porque elas se ligam com mais força nos receptores presentes nas células humanas que facilitam a entrada do vírus no organismo. Essas três mutações também aparecem na variante B.1.351, surgida na África do Sul. Uma delas foi igualmente identificada na variante britânica. Todas são mais transmissíveis.

Em março e abril, com o aumento no número de casos de infecção no Brasil, novas variantes de interesse passaram a ser identificadas, também com capacidade de maior contágio.

A possível evolução da P.1

No começo de abril, pesquisadores da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) identificaram uma nova variante em Belo Horizonte que tem uma combinação inédita de 18 mutações. Algumas delas são semelhantes às observadas na P.1 e P.2, B.1.1.351 (África do Sul) e B.1.1.7 (Reino Unido).

A nova variante (que pode vir a se chamar de P.4) possivelmente teve a mesma origem que a P.1 e a P.2, segundo Renato Santana, que coordenou o estudo sobre as mutações na UFMG, em entrevista ao jornal O Globo, na quarta-feira (7).

Segundo os pesquisadores, a versão mineira parece uma espécie de evolução da P.1, com quem se parece, mas com acréscimos nas mutações. Ela também tem mutações na proteína S, que envolve o vírus, e ao menos uma delas pode aumentar o risco de mortalidade no infectado, de acordo com algumas pesquisas.

Para identificar a variante, os pesquisadores sequenciaram 85 genomas de coronavírus a partir de amostras clínicas coletadas da região metropolitana da capital mineira. Os resultados ainda apontam para a prevalência da P.1 e da P.2 — que responderam por 83% dos casos.

As variantes do Maranhão

Um trabalho de vigilância genômica no Maranhão também identificou quatro variantes em circulação no estado. Além da P.1, que é preocupante, três são de interesse: a P.2, a N.9 e a N.10.

Descoberta em fevereiro, a N.10 foi identificada no Maranhão, e já há registros de que tenha se espalhado pelo Amapá. Das 73 amostras analisadas pelo Lacen (Laboratório Central de Saúde Pública) do Maranhão em parceria com a Fiocruz, a N.10 estava presente em 19,4% dos casos.

A N.9 e a N.10 tiveram a mesma origem na variante chamada B.1.1.33 e também apresentam mutações na proteína S que reveste o vírus. Essas mutações são preocupantes porque podem fazer o vírus escapar da resposta imunológica. Com isso, pessoas que já foram infectadas com outra cepa do novo coronavírus (ou vacinadas) e criaram, portanto, um mecanismo de defesa, correm o risco de reinfecção, embora isso ainda precise ser esclarecido com mais estudos.

A variante sul-africana no Brasil

No começo de abril, pesquisadores de um projeto coordenado pelo Instituto Butantan com participação da USP (Universidade de São Paulo) e de outras instituições identificaram pela primeira vez no Brasil a variante sul-africana, B.1.351, numa amostra coletada em Sorocaba, no interior de São Paulo.

Eles sequenciaram 217 genomas do vírus a partir da coleta de amostras de cidades no interior do estado, como Araçatuba, Marília, Taubaté, Campinas e Ribeirão Preto, além de municípios na Grande São Paulo e na Baixada Santista. A P.1 estava presente em 64% das amostras.

Segundo os pesquisadores, é difícil saber como a cepa sul-africana chegou a Sorocaba. “A hipótese mais segura nesse instante é que seja uma cepa importada, pois Sorocaba é uma área de indústrias com alto fluxo de pessoas”, afirmou ao Jornal da USP, na terça-feira (6), o pesquisador Rafael dos Santos Bezerra, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP. Ele é um dos autores do trabalho que identificou a variante.

Há indícios, porém, de que a variantes sul-africana já esteja em circulação na região, já que a infectada com o vírus é uma mulher de 34 anos que não saiu da cidade e não teve contato com estrangeiros.

As vacinas contra as variantes

Uma das preocupações em relação às variantes é a capacidade de as mutações escaparem da proteção gerada pelas vacinas. Um estudo feito em Manaus, cujos resultados preliminares foram apresentados em abril, mostrou que a Coronavac, principal vacina contra covid-19 usada no Brasil, funcionava contra a P.1.

Pesquisadores acompanharam 67.718 trabalhadores de saúde de Manaus que receberam o imunizante. A vacina foi capaz de prevenir o adoecimento após 14 dias da primeira dose em 50% dos casos, segundo o estudo.

Ao jornal Folha de S.Paulo, o infectologista Julio Croda, que coordenou a pesquisa, disse que os resultados são “encorajadores”. “Eles mostram que a Coronavac segue sendo efetiva para a nova variante do Brasil e poderá ser usada no mundo todo para preveni-la”, afirmou. Os dados ainda continuam sendo coletados.

Em março, um estudo feito em laboratório por pesquisadores da Universidade do Texas, nos Estados Unidos, mostrou que a vacina desenvolvida pela Pfizer em parceria com a alemã BioNTech conseguiu neutralizar a variante brasileira.

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