Os riscos de contágio da covid-19 na peregrinação a Meca

Governo da Arábia Saudita tenta implementar ‘passaporte vacinal’ para receber fiéis em cidade sagrada muçulmana

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Autoridades da Arábia Saudita vão exigir comprovante de imunização contra a covid-19 para liberar o acesso à cidade sagrada de Meca, numa tentativa de evitar uma explosão nos casos da covid-19 durante o Ramadã, o mês sagrado dos muçulmanos.

Todos os anos, aproximadamente 3 milhões de fiéis fazem a peregrinação a Meca, muitas delas durante o Ramadã, que, em 2021, vai de 13 de abril a 12 de maio. O período do Ramadã varia a cada ano, pois está atrelado ao nono mês do calendário lunar, seguido pelos muçulmanos.

O Ramadã corresponde ao momento em que os fiéis da religião acreditam que Alá teria feito a primeira revelação das escrituras sagradas do Corão ao profeta Maomé (570-632). Nesse período, os muçulmanos alternam jejum e refeições em família. Muitos escolhem essa época do ano para viajar a Meca, embora a viagem não seja obrigatória exatamente neste período.

1,8 bilhão

é o número estimado de muçulmanos no mundo

3 milhões

é o número de pessoas que visitam Meca todos os anos

Na peregrinação, os fiéis participam de celebrações coletivas, como as que são realizadas na Grande Mesquita, localizada num grande pátio a céu aberto. Milhares de pessoas podem se reunir ali de uma única vez. Embora ambientes ao ar livre ofereçam menos risco de contaminação do que lugares fechados, aglomerações favorecem a propagação do vírus. Além disso, a presença dos viajantes não fica restrita aos locais de culto, pois eles utilizam hospedagem, locais de alimentação, de compras e de circulação em geral.

Até esta sexta-feira (9), a covid já havia deixado 2,9 milhões de mortos em todo o mundo, sendo 6.700 na Arábia Saudita. O país soma 19,26 mortes por 100 mil. A proporção é menor que a de vizinhos como Iraque, Kuait, Jordânia e Omã, mas maior que o dos Emirados Árabes Unidos, Qatar e Bahrein.

As autoridades sauditas temem que a circulação de pessoas deixe a pandemia fora de controle no país e ajude a espalhar o vírus pelo mundo, à medida que os fiéis regressem a seus locais de origem.

Adaptações do Ramadã

O Ramadã de 2021 é o segundo que os muçulmanos passam na pandemia. Em 2020, o período foi de 24 de abril a 23 de maio, quando o número de infectados no mundo todo era de apenas 3 milhões e o número de mortos era de 200 mil.

Observar os rituais e orações do Ramadã é um dos cinco pilares do Islã, juntamente com as obrigações de aceitar o credo, realizar as orações diárias, praticar a caridade e peregrinar à cidade sagrada de Meca pelo menos uma vez na vida.

No mês sagrado, os muçulmanos alternam jejuns (saum) com reuniões familiares e orações comunitárias marcadas pelo desjejum (itfar), nas quais a confraternização e o contato físico são uma tradição milenar e um compromisso.

Com a pandemia, os rituais foram adaptados. Xeiques passaram a comandar cerimônias de forma remota, com uso da internet. Nas mesquitas que permanecem abertas, foi imposto o distanciamento social entre os fiéis, que precisam usar máscaras. Em cada país, as mesquitas estão sujeitas a regras sanitárias próprias, ditadas pelo governo local.

As regras em Meca

O governo saudita anunciou que considerará três categorias de pessoas “imunizadas”: as que tenham tomado duas doses de vacina, as que tenham tomado a primeira dose até 14 dias antes da chegada a Meca e as que já tenham contraído a doença alguma vez antes. As regras valem tanto para a peregrinação a Meca quanto para as visitas à cidade sagrada de Medina.

Em comunicado, o governo disse que os visitantes terão de usar aplicativos de celular como o Umrah, para reservar o horário de acesso aos locais de culto, e o Tawakulna, para demonstrar as informações solicitadas sobre imunização – este último é muito usado na Arábia Saudita, e já vinha sendo exigido para a entrada em estabelecimentos comerciais.

34,8 milhões

é a população total da Arábia Saudita

5 milhões

é o número de sauditas que tinham recebido pelo menos uma dose de vacina até abril de 2021

Há dois tipos de peregrinações a Meca, exigida pela religião para todo fiel que tenha condições físicas e econômicas de fazê-lo. A primeira, chamada haje, é feita no último mês do calendário muçulmano, e não coincide com o Ramadã. A segunda, chamada Umra, pode ser feita em qualquer época do ano, inclusive no Ramadã.

Na haje de julho de 2020, o governo saudita restringiu o acesso a apenas 10 mil residentes. Não está claro se haverá alguma cota semelhante em 2021, com o estabelecimento das novas exigências de imunização.

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