As respostas de Bolsonaro diante de 5 recordes da covid em 2021

Reação do presidente a marcas negativas da pandemia segue o mesmo padrão de atacar restrições e imprensa e de defender medicamentos ineficazes 

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. A maior parte dos nossos conteúdos são exclusivos para assinantes. Aproveite para experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

O Brasil vive em 2021 um agravamento da pandemia de covid-19, com recordes consecutivos de casos e mortes pela doença. Em março, o país ultrapassou os 300 mil mortos, apenas dois meses e meio após chegar aos 200 mil. Com a aceleração da transmissão, a marca de 4.000 óbitos por dia foi superada na terça-feira (6), apenas 14 dias depois do recorde de 3.000 vidas perdidas em 24 horas, que por sua vez foi alcançado apenas 13 dias após as 2.000 mortes num único dia.

O presidente Jair Bolsonaro, que desde o início da pandemia tenta minimizar a gravidade da infecção e já desdenhou das mortes, tem seguido um mesmo padrão ao reagir aos números negativos no pior momento da doença. Suas manifestações incluem:

  • Ataques ao isolamento social, medidas que seriam responsáveis por causar depressão, suicídio, fome e desemprego.
  • Culpabilização da imprensa por gerar “pânico”, supostamente motivada por cortes de publicidade oficial.
  • Defesa de um falso tratamento precoce e da liberdade do médico de receitar remédios que já se mostraram ineficazes.
  • Distorção de dados sobre vacinação na tentativa de exaltar o desempenho do país (que só imunizou 2,8% com duas doses).
  • Divulgação de acordos para a compra de vacinas, sem citar a recusa de ofertas em 2020 e críticas passadas à vacinação.

Ao menos duas vezes, o governo tentou usar pronunciamentos oficiais em cadeia nacional de rádio e televisão para tentar responder à gravidade da pandemia. Bolsonaro também usa as redes sociais, lives e encontros com apoiadores na entrada do Palácio do Alvorada, em Brasília, para se posicionar. A seguir, o Nexo lembra como o presidente reagiu a cinco momentos em que a pandemia se agravou no país.

7 de janeiro de 2021: 200 mil mortes

Quando o país chegou à marca de 200 mil mortes por covid-19, em 7 de janeiro, quem foi escalado para falar sobre a situação em cadeia nacional foi o então ministro da Saúde, Eduardo Pazuello. O general fez um pronunciamento para se solidarizar com os familiares das vítimas, agradecer aos profissionais de saúde e exaltar o número de recuperados da doença no país.

Na época, o governo tinha fracassado na tentativa de compra de seringas e agulhas. O ministro disse que o país tinha um estoque de 60 milhões desses itens distribuídos pelos estados e municípios, o que seria suficiente para dar início à campanha de vacinação. Também assegurou que 354 milhões de vacinas estavam garantidas, graças ao Instituto Butantan e à Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), e que o ministério tentava resolver pendências para a compra de vacinas da Pfizer.

Naquele dia, Bolsonaro se reuniu com ministros e o embaixador de Israel. Em suas redes sociais, publicou que o governo tinha zerado impostos para a importação de seringas e agulhas.

Mais tarde, durante uma transmissão ao vivo em suas redes sociais ao lado de Pazuello, Bolsonaro atacou a imprensa por ter noticiado que ele havia causado aglomerações no litoral de São Paulo no primeiro dia do ano. Acusou os jornais de causar pânico na população, e afirmou que o fechamento da economia, classificado por ele como uma “irresponsabilidade”, iria causar depressão e suicídio.

Afirmou ainda que o país estava havia dois anos “sem corrupção” e que, por isso, apanhava da imprensa. Segundo ele, o auxílio emergencial pago em 2020 (aprovado após mobilização do Congresso) salvou empregos.

Bolsonaro voltou a defender o tratamento precoce, com remédios como hidroxicloroquina e ivermectina, que são ineficazes contra o vírus. Pazuello disse não haver “outra saída” para salvar as pessoas: iniciar o tratamento precoce o mais rápido possível.

“É isso que salva vidas, é isso que evita que as pessoas piorem e tenham que ir para a UTI e ser intubadas”, afirmou. Para o presidente, pessoas que “estão com verme” sempre tomaram ivermectina. “Por coincidência, isso passou a reduzir a carga viral [do novo coronavírus]. É uma constatação de dezenas de milhares de médicos”, disse, acrescentando que ele próprio tomou o remédio e “deu certo”.

“A gente lamenta hoje, estamos batendo 200 mil mortes. Muitas dessas mortes com covid, outras de covid, não temos uma linha de corte no tocante a isso aí. Mas a vida continua. A gente lamenta profundamente, estou preocupado com minha mãe que tem 93 anos de idade. Se contrair o vírus, vai ter dificuldade pela sua idade, mas temos que enfrentar isso aí”

Jair Bolsonaro

presidente da República, ao comentar marca de 200 mil mortes na pandemia

10 de março: 2.349 mortes diárias

Quando o país superou pela primeira vez a marca de 2.000 mortos por covid-19 num único dia, Bolsonaro publicou uma notícia do portal R7 dizendo que o abuso de crianças havia aumentado 12 vezes em São Paulo durante a pandemia.

Naquele dia, ele sancionou um projeto de lei que possibilitava a compra das vacinas da Pfizer e da Janssen (farmacêutica da Johnson & Johnson). Durante a cerimônia, numa mudança de atitude, ele e os ministros usaram máscaras. No mesmo dia, o governo havia sido atacado pela condução da crise sanitária pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que fez seu primeiro pronunciamento após a anulação de suas condenações na Lava Jato.

Bolsonaro afirmou que o governo não havia poupado esforços nem economizado recursos “para atender a todos os estados e municípios”. No dia seguinte, porém, ao participar de uma audiência virtual com pequenos e microempresários, ao lado do ministro da Economia, Paulo Guedes, voltou a atacar governadores e prefeitos que adotaram medidas restritivas.

“Até quando nossa economia vai resistir? Que se colapsar, vai ser uma desgraça. O que poderemos ter brevemente? Invasão a supermercado, fogo em ônibus, greves, piquetes, paralisações. Onde vamos chegar?”

Jair Bolsonaro

presidente da República, em evento com empresário, um dia depois de o país ultrapassar a marca de 2.000 mortes por dia

23 de março: 3.158 mortes diárias

Quando o Brasil superou a marca de 3.000 mortes diárias por covid-19, em 23 de março, Bolsonaro sofreu uma derrota no Supremo Tribunal Federal. Ele havia entrado com um pedido para que as medidas restritivas nos estados fossem suspensas, o que foi negado pelo ministro Marco Aurélio Mello.

Na parte da manhã, deu posse ao novo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, em cerimônia fechada e fora da agenda. À noite, Bolsonaro fez um pronunciamento em cadeia nacional em que mentiu sobre ações do governo na pandemia e afirmou que 2021 será o “ano da vacinação dos brasileiros”. Houve panelaço em várias capitais do país.

“Quero tranquilizar o povo brasileiro e afirmar que as vacinas estão garantidas. Ao final do ano, teremos alcançado mais de 500 milhões de doses para vacinar toda a população. Muito em breve retomaremos nossa vida normal. Solidarizo-me com todos aqueles quem teve perdas em suas famílias”

Jair Bolsonaro

presidente da República, durante pronunciamento em 23 de março

O presidente disse que em “nenhum momento, deixou de tomar medidas importantes tanto para combater o coronavírus como para combater o caos na economia, que poderia gerar desemprego e fome”.

Ao defender a vacinação e poupar as medidas restritivas de ataques em sua fala, Bolsonaro buscou atenuar uma imagem construída ao longo de ano de crise sanitária, durante o qual minimizou e desdenhou a gravidade da pandemia, aglomerou pessoas em eventos oficiais pelo Brasil, sabotou o isolamento em prol da economia, questionou sem base científica o uso de máscaras, defendeu e financiou medicamentos sem eficácia, desestimulou e atrasou a vacinação da população e até incentivou a invasão de hospitais sob a falsa alegação de que eles estariam vazios.

24 de março: 300 mil mortes no país

Quando o Brasil atingiu a marca de 300 mil mortes, mais de um ano após o início da pandemia, Bolsonaro anunciou a formação de um comitê contra a covid-19 formado pelo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, e os presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL) e do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG).

No anúncio, o presidente afirmou que o comitê tratou também “da possibilidade de tratamento precoce”. “Isso fica a cargo do ministro da Saúde, que respeita o direito e o dever do médico de tratar infectados ‘off label’ [possibilidade do médico de receitar um medicamento para doenças não previstas na bula]”, afirmou.

“Nossa união, nosso esforço entre os três poderes da República, ao nos direcionarmos para aquilo que realmente interessa, sem que haja qualquer conflito, qualquer politização da solução do problema, creio que seja, realmente, o caminho para o Brasil sair dessa situação bastante complicada que se encontra”

Jair Bolsonaro

presidente da República, ao anunciar a formação de um comitê contra a covid-19

Em suas redes sociais, Bolsonaro fez sete publicações sobre ações na pandemia, como a previsão de chegada da China do insumo necessário para a produção da vacina pela Fiocruz.

No dia seguinte, ao realizar sua tradicional transmissão nas redes sociais, ele ressaltou a aprovação de um novo auxílio emergencial (que só começou a ser pago em abril), voltou a atacar o lockdown, distorceu informações sobre a suspensão do fechamento das atividades na Alemanha, disse que vários países passavam por dificuldades em obter vacinas e voltou a defender o atendimento precoce, que passou a chamar de “tratamento imediato”.

6 de abril: 4.211 mortes diárias

Quando o país ultrapassou a marca dos 4.000 mortos por dia, em 6 de abril, Bolsonaro foi questionado por apoiadores em frente ao Palácio do Alvorada, em Brasília, sobre o número.

“Eu resolvo o problema do vírus em poucos minutos. É só pagar o que os governos pagavam no passado para a Globo, Folha, Estado de S. Paulo. Esse dinheiro não é para a imprensa, esse dinheiro é para outra coisa”, respondeu, sugerindo que a culpa era da mídia.

Na quarta-feira (7), o presidente viajou a Chapecó (SC), para participar de um evento ao lado do prefeito João Rodrigues (PSD), de quem é amigo. Rodrigues viralizou em fevereiro usando informações distorcidas para dizer que a cidade que governa reduziu os casos de covid-19 com um suposto tratamento precoce.

Durante o evento, Bolsonaro voltou a defender os medicamentos ineficazes e a busca por alternativas pelos médicos. Também criticou mais uma vez as restrições ao comércio e disse que não haverá lockdown nacional e que o Exército não irá à rua “para manter pessoas em casa”. Mais tarde, ele participou da cerimônia de posse do novo diretor-geral de Itaipu, general João Francisco Ferreira, e à noite foi a São Paulo jantar com empresários.

“Não vamos aceitar a política do fica em casa, do feche tudo, do lockdown. O vírus não vai embora. Esse vírus, como outros, veio para ficar. E vai ficar a vida toda. É praticamente impossível erradicá-lo. E até lá, vamos fazer o quê? Ver o nosso país empobrecer?”

Jair Bolsonaro

presidente da República, durante evento em Chapecó

Cientistas e gestores públicos, como os secretários estaduais de saúde, têm feito uma campanha para o fechamento das atividades por até três semanas em abril com o objetivo de evitar mais mortes. Algumas projeções indicam que o país poderá chegar a 5.000 óbitos por dia e a 400 mil mortes acumuladas ainda em abril.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.