Como funciona um pulmão artificial. E quem foi seu inventor

Terapia desenvolvida desde a década de 1970 está sendo usada para pacientes com insuficiência respiratória por complicações da covid-19

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Uma das complicações da covid-19 é a insuficiência respiratória. Ao longo da pandemia, pesquisadores observaram que a infecção pelo vírus Sars-CoV-2 pode provocar lesões nos pulmões, principalmente nos alvéolos. É nessas estruturas, pequenas unidades agrupadas como um cacho de uvas, onde ocorrem as trocas gasosas (de gás carbônico e oxigênio) no interior do pulmão.

Em casos graves, o pulmão não consegue absorver oxigênio e o órgão precisa ser “substituído” por uma alternativa temporária, um tipo de pulmão artificial: a Ecmo, ou oxigenação por membrana extracorpórea (“extracorporeal membrane oxygenation”, no original em inglês).

É um equipamento para levar oxigênio ao paciente a partir de uma membrana fora do corpo. A Ecmo está sendo usada para tratar o ator Paulo Gustavo, de 42 anos, que está internado com covid desde 13 de março.

Durante o tratamento, o paciente fica sedado: uma bomba leva o sangue dele a essa estrutura externa, que, em termos coloquiais, retira gás carbônico, dá oxigênio e devolve o sangue de volta ao corpo do paciente. As trocas de gases são controladas pela máquina.

Segundo especialistas, a ideia da Ecmo é dar um tempo para o pulmão descansar, desinflamar e se recuperar – enquanto isso, permite a oxigenação do organismo. Pode ser utilizada nos casos nos quais o uso de ventiladores mecânicos não é mais suficiente para levar oxigênio ao corpo do paciente.

Na covid-19 existe uma inflamação muito séria no pulmão. Por causa dessa inflamação, o ar não entra e não tem oxigenação. Por isso, o pulmão fica incapaz de manter o corpo oxigenado. A terapia, então, devolve o sangue oxigenado para o corpo”

Fábio Rodrigues,

fisioterapeuta cardiorrespiratório e de terapia intensiva, em entrevista ao portal G1

“A terapia não cura o paciente, esteja ele com covid-19 ou outras doenças, mas permite que o órgão não falhe enquanto o resto do organismo combate o quadro. É uma ponte para a recuperação"

Jarbas da Silva Motta Junior,

médico intensivista, em entrevista ao portal UOL

Quem inventou a Ecmo

O médico americano Robert Bartlett desenvolveu o equipamento ao longo de pesquisas de laboratório desde as décadas de 1960 e 1970. Inicialmente, a tecnologia era voltada para tratar bebês com disfunções cardíacas ou pulmonares.

Em 1976, Bartlett registrou o primeiro caso de sucesso utilizando a técnica. A paciente era a recém-nascida Esperanza Pineda, que tinha lesões nos pulmões devido à Sam (síndrome de aspiração de mecônio, que acontece quando o feto respira material fecal). A bebê ficou três dias nas máquinas (uma estrutura complexa de bombas, cateteres, filtros, monitores e tubos) e se recuperou.

"[A Ecmo] não cura o paciente, mas ganha tempo”, disse Bartlett à rádio Michigan, em abril de 2020. Aos 81 anos, ele é professor emérito da Faculdade de Medicina da Universidade de Michigan.

Bartlett inventou a Ecmo a fim de permitir que pacientes neonatais ficassem longos períodos respirando artificialmente sem comprometer a integridade do corpo, dando ao coração e aos pulmões mais tempo para se recuperar de lesões ou doenças.

Foi o caso de Esperanza, órfã que foi batizada assim pois era chamada de “esperança” pelas enfermeiras que trabalhavam no hospital na Califórnia – a mãe dela, segundo relato do médico, era mexicana e a deixou após autorizar o experimento que tentaria salvá-la. Aos 44 anos, Esperanza trabalha como copeira em um hospital no Missouri.

Ao longo das décadas seguintes, a técnica de Bartlett foi paulatinamente popularizada e passou a atender não só pacientes neonatais, mas todas as faixas etárias.

Em abril de 2020, segundo a reportagem da rádio Michigan, quinhentos pacientes estavam utilizando a Ecmo. Um ano depois, segundo dados na página oficial da Elso (Extracorporeal Life Support Organization), organização sem fins lucrativos especializada em terapias do gênero, 5.865 pacientes no mundo inteiro foram ou estão sendo tratados com a técnica, em ordem: 3.828 nos Estados Unidos, 1.316 na Europa, 421 na Ásia e na África, 248 na América Latina e 71 na Ásia-Pacífico.

Em setembro de 2020, pesquisadores publicaram um estudo na revista científica The Lancet reportando 1.035 casos confirmados de covid-19, de 213 hospitais e 36 países, em que foi utilizada a terapia. Entre eles, 30% tiveram alta e foram para casa ou centros de reabilitação, 10% tiveram alta para centros de cuidado agudo de longo prazo, 17% tiveram alta e foram transferidos para outro hospital e 6% ainda estavam hospitalizados no fim do período do estudo. Trezentos e oitenta pacientes (37%) morreram.

Segundo os autores, os resultados endossam recomendações atuais de que centros com experiência em Ecmo deveriam considerar o uso da terapia em casos de insuficiência respiratória relacionada à covid-19, como forma de dar tempo para os pulmões tentarem se recuperar.

Quem pode utilizar a Ecmo

A Ecmo é uma terapia para pacientes com insuficiência respiratória ou insuficiência cardíaca. Pode ser recomendado por médicos para pacientes de todas as idades, de recém-nascidos a idosos. Entretanto, é considerada uma terapia cara, complexa e com riscos, como embolia, hemorragia e infecções.

Indicações

Segundo artigo publicado por pesquisadores do departamento de medicina intensiva do Hospital Israelita Albert Einstein e do Hospital Dr. Moysés Deutsch de São Paulo e do departamento de anestesiologia da Santa Casa de Santos na Revista Brasileira de Terapia Intensiva de outubro de 2019, as indicações para o uso da terapia incluem quadros de insuficiência respiratória, insuficiência respiratória, choque cardiogênico (infarto agudo) e parada cardíaca.

Contraindicações

De acordo com os autores, a Elso define que não há “contraindicação absoluta” ao uso da Ecmo, mas o risco e o benefício devem ser avaliados para cada paciente. Entretanto, ponderam os autores, é preciso considerar contraindicações como hemorragia ativa não controlada, imunossupressão ou transplante de órgão, disfunção irreversível do sistema nervoso central e falência cardíaca ou respiratória irreversíveis.

No Brasil, outro fator pesa: limitações de acesso à terapia. Segundo reportagem recente do portal UOL, ao todo pode custar cerca de R$ 60 mil e não é coberta por convênios. “É um dispositivo relativamente caro, custa em torno de R$ 30 mil. Não se consegue fazer hoje em alta escala no SUS", disse a cardiologista Ludhmila Hajjar, em entrevista à CNN Brasil.

Além da máquina, a terapia deve contar com equipes multidisciplinares, com médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, técnicos e outros profissionais. “Sempre se pondera muito o custo, a efetividade, o momento que o país está passando e a economia. Hoje, diria que boa parte das vidas que estão sendo salvas no Brasil se devem a esse dispositivo”, disse Hajjar.

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