As previsões da pandemia que apontam para um abril sombrio

Segundo projeção de instituto americano, Brasil pode ter mais 100 mil mortos. Diretor do Instituto Butantan prevê ‘mês dramático’

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. A maior parte dos nossos conteúdos são exclusivos para assinantes. Aproveite para experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

Em meio ao pior momento da pandemia do novo coronavírus no Brasil, cientistas brasileiros e estrangeiros têm apontado que a crise sanitária no país pode chegar a uma situação ainda mais dramática em abril de 2021. No sábado (3), uma projeção feita por pesquisadores de um centro de estudos ligado à Universidade de Washington, nos Estados Unidos, apontou que o Brasil pode ter mais 100 mil mortes por covid-19 no período.

Caso a estimativa se confirme, o país poderá chegar a 400 mil mortes em 24 de abril, apenas um mês depois de registrar 300 mil mortes, o que revela uma rápida aceleração da pandemia. Dos 200 mil, em 7 de janeiro, aos 300 mil, em 24 de março, o Brasil levou 76 dias. A marca de 400 mil seria alcançada em menos da metade desse tempo.

O Instituto de Métricas e Avaliação em Saúde (IHME, na sigla em inglês), ligado à universidade americana, ainda estima que o Brasil ultrapasse a marca de 562 mil óbitos até 1º de julho.

Na segunda-feira (5), o Ministério da Saúde registrava oficialmente mais de 332 mil vítimas da doença. O Brasil estava atrás apenas dos Estados Unidos, com 555 mil mortes. Segundo as projeções do instituto, essas posições podem se inverter em agosto.

Com políticas de fechamento descoordenadas nos estados e municípios, o país enfrenta um agravamento da pandemia desde o final de 2020, com uma piora considerável dos números em março.

Cientistas defendem o lockdown (bloqueio rígido das atividades impedindo a circulação sem justificativa das pessoas), o que poucas cidades chegaram a fazer. A falta de medidas restritivas que sejam fiscalizadas tem colaborado para o aumento da transmissão do vírus, que foi potencializada durante as aglomerações no fim do ano e no Carnaval.

O aparecimento no final de 2020 de uma nova variante mais transmissível em Manaus, que já se espalhou por todo o país, também é apontado como fator para a alta de casos e mortes pela doença.

Os cenários

Otimista

O cenário mais positivo prevê que a mobilidade da população e a vacinação continuarão no mesmo padrão, que apenas 25% de quem já foi vacinado voltará a se deslocar, que as variantes vão se espalhar no ritmo já observado no Reino Unido e que 95% da população irá aderir ao uso das máscaras (o que teria enorme potencial para frear a transmissão do vírus). O número de mortes até 1º julho seria de 507,7 mil. Nesse caso, o uso das máscaras, que pode impedir o contágio, poderia salvar 55 mil vidas em comparação com o cenário mais provável. A taxa de adesão ao item de proteção necessária para que isso aconteça, porém, está distante da realidade brasileira. O instituto estima que apenas 69% da população aderiu ao item no começo de abril.

Provável

No cenário mais provável traçado pelo IHME, o Brasil atingirá a marca de 562,8 mil mortos pela covid-19 até 1º de julho. Para chegar ao resultado, o instituto leva em consideração que a mobilidade seguirá o mesmo padrão já observado, que apenas 25% de quem já foi vacinado voltará a se deslocar, que as vacinas em distribuição não irão atrasar e os casos de infecção entre os vacinados nos últimos 90 dias irão diminuir, que medidas restritivas serão adotadas ao longo de seis semanas a partir do momento em que o país ultrapassar determinado patamar de mortes diárias e que os vacinados só deixarão de usar máscaras três meses após tomar a segunda dose da vacina.

Pessimista

Num cenário pessimista, que considera a circulação de pessoas não vacinadas mantida no mesmo padrão, a volta da circulação de todos os vacinados no mesmo modo observado antes da pandemia, o espalhamento de variantes mais contagiosas para áreas ainda não atingidas, o abandono do uso de máscara por pessoas vacinadas um mês após a segunda dose e uma menor eficiência da vacinação devido às variantes, o número de mortes chegaria a 597,7 mil até 1º de julho.

O que é o IHME

Ligado à Universidade de Washington, o instituto é um dos mais influentes na área de análises de dados em saúde. Nos últimos anos, tornou-se uma das fontes mais citadas em estudos científicos. O IHME já recebeu financiamento de US$ 600 milhões da Fundação Bill & Melinda Gates, do fundador e ex-presidente da Microsoft Bill Gates.

Durante a pandemia, porém, muitas das projeções do instituto foram contestadas. No início da crise, por estimar um surto de covid-19 nos Estados Unidos menos grave do que o previsto por outros modelos, o então presidente Donald Trump, que negava os riscos da doença, usou oficialmente os dados do instituto como base das políticas da Casa Branca. Alguns pesquisadores criticaram o IHME por fazer as pessoas acreditarem que a pandemia acabaria em junho de 2020 e por incentivar os estados americanos a reabrir as atividades antes da hora.

Muitos cientistas criticam o instituto pela falta de transparência, o que tornaria impossível de replicar e verificar suas estimativas. A instituição, porém, nega e diz que publica seus trabalhos com intervalos de confiança estatística e que informa às pessoas as limitações dos estudos.

As mortes diárias

Para o instituto americano, o pico de mortes diárias por covid-19 no Brasil deverá acontecer em 24 de abril. Ele poderá ser de 3.930 óbitos. A partir dessa data, os números começariam a cair, mas ainda se manteriam altos — com mais de mil mortes por dia.

Em entrevista ao jornal Valor Econômico, publicada na segunda-feira (5), o diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, afirmou que abril será um “mês dramático” para o Brasil, especialmente nos primeiros 15 dias. Segundo ele, é provável que o país atinja no período a marca de 5.000 mortos pela doença num período de 24 horas.

O motivo disso, segundo Covas, é que o país continua com a transmissão do vírus em velocidade ainda muito alta. Para ele, a solução para frear a circulação do vírus seria a adoção de medidas mais rigorosas de distanciamento e isolamento social.

“É urgente neste momento combater a epidemia. A vacina é um recurso adicional, mas o combate direto à epidemia se faz com a diminuição da transmissão. E a transmissão será diminuída com a tomada de medidas amargas de afastamento social”

Dimas Covas

diretor do Butantan, em entrevista ao jornal Valor Econômico, na segunda-feira (5)

Para Covas, o desafio dos gestores públicos é justamente conseguir manter as pessoas dentro de casa, o que muitas autoridades logo descartam por considerarem as medidas impossíveis de serem colocadas em prática. “Se é impossível, não tem que fazer e vamos ter que continuar com o número de mortes que estamos vendo hoje”, afirmou.

O diretor do Butantan disse ainda que, no ritmo atual da campanha de imunização, o país deve vacinar a população maior de 60 anos até o meio de 2021, quando poderia avançar na faixa dos 50 anos. “É isso que nós vamos ter até o meio do ano. Estamos falando de 40 ou 50 milhões de pessoas. E 100 milhões de doses de vacinas”, disse.

9%

da população brasileira recebeu ao menos uma dose da vacina contra a covid-19 até a segunda-feira (5), segundo levantamento do consórcio de veículos da imprensa; apenas 2,52% receberam as duas doses

Lockdown para salvar vidas

No começo de abril, uma campanha da Impulso Gov (organização não governamental que tem como objetivo ajudar estados e municípios a coletar e a analisar dados dos serviços de saúde), apoiada pela Vital Strategies (organização formada por especialistas e pesquisadores que também trabalha com governos para desenvolver soluções para a saúde), conseguiu a adesão de entidades, cientistas e pesquisadores para cobrar, por meio de uma carta aberta, o presidente, os governadores e os prefeitos a adotar um lockdown de três semanas.

A iniciativa, intitulada Abril pela Vida, defende que o fechamento das atividades em todo o país poderá evitar ao menos mais 22 mil mortes no mês. “A inação, além de causar impactos severos sobre o nosso sistema de saúde, exigirá medidas restritivas por mais tempo, e trará impactos econômicos ainda mais severos”, diz a carta.

A campanha propõe, entre outras medidas, o fechamento de bares, restaurantes, praias, além de outras atividades não essenciais, toque de recolher das 20h às 6h, medidas para reduzir superlotação no transporte público e barreiras sanitárias nacionais e internacionais, inclusive com o fechamento de aeroportos.

Para que isso possa acontecer, o documento cobra o pagamento de auxílio emergencial para desempregados e informais e socorro a micro e pequenas empresas.

Apesar das cobranças, o governo federal dá sinais de que não irá coordenar uma política nacional que inclua o fechamento das atividades econômicas. No sábado (3), o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, afirmou que a pasta trabalha na elaboração de protocolos para orientar a população, sobretudo no uso do transporte público, “a fim de evitar o fechamento da economia”.

“Precisamos nos organizar para que evitemos medidas extremas e consigamos garantir que pessoas continuem trabalhando e ganhando seu salário, deixando situações extremas para outro caso. Então, evitar lockdown é a ordem, mas temos que fazer nosso dever de casa, e o dever não é só do governo federal, estadual ou municípios. É de cada um dos cidadãos”, afirmou.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.