As ameaças contra governantes que adotam o isolamento

Autoridades denunciam intimidações de grupos contrários a medidas restritivas. Em Palmas, prédio de prefeita é atacado com paus e pedras

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No pior momento da pandemia do país, a divergência de uma parte minoritária da população em relação à decretação de restrições à circulação de pessoas tem se transformado em ameaças aos prefeitos e governadores responsáveis pelo freio à disseminação viral.

Pesquisa do Instituto Datafolha feita em meados de março revela que, para quase 60% da população, o mais importante é que as pessoas permaneçam em casa, mesmo que isso tenha efeitos negativos sobre a economia do país. A defesa das medidas restritivas aparece de forma semelhante em todos os grupos, divididos por escolaridade, renda e idade. Ainda segundo o levantamento, 71% da população defendem restrições ao horário de funcionamento de comércios e de serviços em geral.

59%

da população defendem o fechamento de lojas, bares e restaurantes, segundo Datafolha de março de 2021

De outro lado, cerca de 30% da população defendem que é preciso acabar com as medidas de isolamento para estimular a economia. O discurso é estimulado pelo presidente Jair Bolsonaro, que vem fazendo ameaças contra governadores que decretem algum tipo de paralisação. Em reunião ministerial divulgada em abril de 2020, o presidente chegou a defender que a população pudesse se armar para impedir medidas restritivas dos governos locais, e desde então abriu conflitos em todas as frentes possíveis (Judiciário, Congresso, estados, municípios) em prol do funcionamento irrestrito do comércio.

Segundo epidemiologistas, na situação de esgotamento dos leitos hospitalares em que o Brasil está, não há outra medida senão a decretação do isolamento social para que se retome o controle da pandemia no país. A vacinação em massa, que seria outra forma de contenção da covid-19 e permitiria a retomada econômica, está sofrendo constantes atrasos, pela falta de doses no Programa Nacional de Imunizações, do governo federal.

O discurso belicista contra medidas sanitárias encontra eco na população. Em reunião da Frente Nacional de Prefeitos, diversos governantes relataram as resistências que sofrem em seus municípios contra a imposição de medidas restritivas. Eles têm sido alvo de protestos e processos judiciais. Para Jonas Donizette (PSB), presidente da frente e ex-prefeito de Campinas, o movimento é “inflamado por uma figura que é o nosso líder maior, que é o presidente”. “Parece que nós somos os vilões da história”, disse ele.

Além de manifestações e ações na Justiça, autoridades de diversas regiões do país começaram a ter sua integridade física ameaçada. Mesmo pessoas de fora da política sofreram com a defesa de medidas restritivas. Em Olímpia, interior de São Paulo, o jornal Folha da Região chegou a ser incendiado por endossar as políticas de isolamento social. O Nexo lista algumas das ameaças que governantes têm sofrido por sua conduta no combate à pandemia.

Governador do Ceará

No Ceará, sob isolamento social rígido desde meados de março, a Polícia Civil investiga ameaças contra o governador Camilo Santana (PT) feitas num grupo de WhatsApp chamado Ceará Contra o Lockdown. Em um áudio, um integrante afirma que “tem um bocado de menino bom aí doido para pegar ele, pra comer a cabeça dele”. É grana, viu? E eu estou dentro”, continuou.

A Secretaria da Segurança Pública interrogou um suspeito, que teve o celular apreendido. As ameaças não são inéditas. Em julho de 2020, dois homens foram detidos por ameaçarem jogar bombas artesanais incendiárias na residência oficial de Santana. Eles integravam um grupo de WhatsApp de educadores físicos que protestavam pela reabertura de academias, que estavam à época também sob a quarentena do estado.

Governador de São Paulo

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), registrou queixa na polícia no início de março após receber ameaças de morte e de sequestro, contra ele e sua família, por meio de ligações e mensagens em seu celular. Uma investigação foi aberta para identificar os autores das ameaças.

No final de março, Doria anunciou que se mudaria temporariamente para o Palácio dos Bandeirantes para resguardar sua segurança a de sua família. Um dos maiores adversários políticos de Jair Bolsonaro atualmente, Doria relatou que vem sofrendo ameaças pelas medidas restritivas implementadas no estado.

“Negacionismo na pandemia deixou de ser um delírio das redes sociais, provocado pela paixão política, e está se tornando algo muito mais perigoso para a vida, a ciência e a democracia”

João Doria (PSDB)

governador de São Paulo, em 29 de março de 2021, em comunicado sobre sua mudança para o Palácio dos Bandeirantes

Prefeito de Araraquara (SP)

Edinho Silva (PT), prefeito de Araraquara (SP), decretou lockdown diante do esgotamento dos leitos hospitalares. Foi a primeira vez desde o início da pandemia que uma cidade brasileira adotou um lockdown de verdade. Entre 21 de fevereiro e 2 de março, quando o comércio não essencial já estava fechado, supermercados funcionaram apenas no sistema de delivery, e o transporte público não funcionou.

Depois da medida, os números de casos de infecção e de mortes começaram a cair. No dia 26 de março pela primeira vez a cidade passou 24 horas sem registrar novas mortes. Desde então, a situação dos hospitais melhorou, e as restrições têm sido flexibilizadas.

Mas o resultado sanitário positivo tem sido acompanhado de ameaças contra o prefeito. Em 28 de março, ele também fez um boletim de ocorrência para registrar ameaças de morte contra ele em redes sociais, feitas por pessoas contrárias ao lockdown. Na internet, além do endereço de Silva, usuários escreveram mensagens atacando o prefeito. “Aqui tem coragem, queria só round com ele primeiro. Depois ia esfaquear de baixo para cima”, escreveu um usuário do Facebook. “Vamos encapuzados”, respondeu outro.

O comerciante Deivid Vieira, um dos autores das postagens, alegou em entrevista à EPTV que fez as publicações num momento de raiva e disse que não concretizaria as ameaças.

Prefeita de Palmas (TO)

Única mulher eleita em 2020 para a prefeitura de uma capital, Cinthia Ribeiro (PSDB) restringiu as atividades não essenciais em Palmas no início de março. O sistema de saúde da cidade começava a colapsar na ocasião, sem leitos de UTI disponíveis para a população. O decreto valia por dez dias e depois foi prorrogado, com o arrocho das medidas. Serviços de entrega de comida também ficaram proibidos.

A partir daí, segundo a prefeita, ela recebeu “inúmeras ameaças de morte” no celular e nas redes sociais. Manifestantes também soltaram fogos de artifícios e jogaram paus e pedras em seu prédio.

Ribeiro passou então a andar com escolta, feita pela Guarda Metropolitana e por seguranças particulares que ela contratou.

“Para trabalhar, hoje tenho que trabalhar com escolta. Minha vida virou um inferno desde que me declarei do lado certo, do lado da ciência, da vida das pessoas. (...) Você vê que é um movimento muito bem construído. É feito por extremistas”

Cinthia Ribeiro (PSDB)

prefeita de Palmas, em entrevista ao jornalista Rubens Valente, colunista do portal Uol

Prefeita de Cáceres (MT)

Na cidade de Cáceres, a 225km de Cuiabá, a prefeita Eliene Liberato (PSDB) também registrou boletim de ocorrência, no dia 30 de março. Ela relata que está sendo ameaçada por empresários após implementar no município as restrições estabelecidas pelo governador do estado, Mauro Mendes (DEM), por 10 dias.

De acordo com a chefe de gabinete de Liberato, áudios de comerciantes começaram a circular em grupos de WhatsApp. Numa das gravações, homens ameaçam arrombar a porta da prefeitura e quebrar a casa da prefeita.

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