Como estão hoje os primeiros países que lidaram com a covid-19

Com diferentes estratégias de enfrentamento à pandemia, 11 lugares da Ásia e da Oceania registraram cerca de 220 mil mortes até o fim de março de 2021, em torno de 100 mil a menos que o Brasil

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A Ásia e a Oceania foram os primeiros focos do novo coronavírus, antes que o surto da doença fosse declarado uma pandemia pela OMS (Organização Mundial de Saúde), em 11 de março de 2020.

O primeiro epicentro da covid-19 foi a China, onde a doença surgiu ainda no fim de 2019. Em janeiro de 2020, países do Leste Asiático, como Coreia do Sul e Japão, registraram os primeiros casos de contágio. Em fevereiro de 2020, foi a vez da Nova Zelândia.

Ao longo de 2020 países da Ásia e da Oceania se tornaram modelos para muitas das estratégias de enfrentamento à pandemia. Passaram por ondas de intensidades diversas e adotaram abordagens diferentes, mas conseguiram controlar o número de infecções e de mortes, se comparados a Europa e Américas.

Um relatório de janeiro de 2021 do Lowy Institute, centro de estudos de Sydney, na Austrália, analisou 98 países a partir de critérios como casos e mortes por milhão de habitantes para avaliar a gestão pública ao longo da pandemia. Entre os que tiveram as melhores ações para conter a doença estão Nova Zelândia, Vietnã, Tailândia e Taiwan. O Brasil, que em abril de 2021 é o epicentro da covid-19 no mundo, foi o pior.

Por região, as melhores gestões governamentais seriam, em ordem, a Ásia-Pacífico (com 61,1 pontos em uma escala de 100, segundo os critérios do levantamento), Oriente Médio e África (49,0), Europa (46,1) e Américas (29,7).

O status da pandemia na Ásia e na Oceania

Em março de 2021, o Brasil registrou mais que o dobro de mortes diárias por covid-19 do que a Ásia, o continente mais populoso do mundo. No gráfico abaixo, o Nexo destaca dados de 11 países – se somados os números de óbitos por covid-19 registrados neles, foram cerca de 220 mil mortes desde o início da pandemia, cerca de 100 mil a menos que o Brasil.

Os dados são da Universidade Johns Hopkins, atualizados até 31 de março de 2021. Os registros das doses administradas de vacinas na Coreia do Sul e Taiwan são do site Our World in Data, pois até dia 31 essas informações dos dois países não estavam atualizadas no banco da universidade.

Um ano depois

Dados que constam na tabela: China

- População: 1,4 bilhão

- Casos: 101 mil

- Mortes: 4.841

- Vacinas administradas: 110 milhões



Coreia do Sul

- População: 51 milhões

- Casos: 102 mil

- Mortes: 1.729

- Vacinas administradas: 828 mil



Japão

- População: 125 milhões

- Casos: 469 mil

- Mortes: 9.079

- Vacinas administradas: 890 mil



Taiwan

- População: 23 milhões

- Casos: 1 mil

- Mortes: 10

- Vacinas administradas: 9,4 mil



Tailândia

- População: 66 milhões

- Casos: 28 mil

- Mortes: 94

- Vacinas administradas: 102 mil



Vietnã

- População: 96 milhões

- Casos: 2,5 mil

- Mortes: 35

- Vacinas administradas: 44 mil



Índia

- População:

- Casos: 12 milhões

- Mortes: 162.114

- Vacinas administradas: 61 milhões



Indonésia

- População: 266 milhões

- Casos: 1,5 milhão

- Mortes: 40.581

- Vacinas administradas: 10 milhões



Singapura

- População: 5,7 milhões

- Casos: 60 mil

- Mortes: 30

- Vacinas administradas: 1,1 milhão



Austrália

- População: 25 milhões

- Casos: 29 mil

- Mortes: 909

- Vacinas administradas: 541 mil



Nova Zelândia

- População: 4,9 milhões

- Casos: 2,4 mil

- Mortes: 26

- Vacinas administradas: 41 mil

Quais medidas os países adotaram

Alvo de críticas por ter ocultado informações no início do surto, a China controlou a epidemia em maio de 2020, com ações como confinamento rigoroso, programa de testagem e rastreamento de casos. Na cidade chinesa de Wuhan, primeiro foco do vírus, “tudo está praticamente normal”, definiu o brasileiro Kenyiti Shindo, em entrevista à BBC News Brasil, em 22 de dezembro de 2020.

Após oito meses sem registrar mortes por covid-19, o país teve dois óbitos em janeiro de 2021. A vacinação avança sem pressa na China, que produz e exporta imunizantes.

Distanciamento social, uso de máscaras, restrições a viagens e um pujante programa de testagem e rastreamento de casos também foram parte da estratégia da Coreia do Sul. Vietnã, Tailândia, Taiwan e Singapura adotaram ações semelhantes, em uma abordagem “covid zero”.

“Mesmo durante uma pandemia, a Coreia é um lugar seguro de morar”, relatou de Seul o brasileiro Kevin Bustamante. “É surreal, parece que estou falando de uma realidade paralela”, disse o brasileiro Thiago Mattos, também radicado na cidade asiática, comparando Brasil e Coreia do Sul, ao jornal Folha de S.Paulo, no fim de dezembro.

A Coreia do Sul atravessou outras ondas (a maior delas em dezembro) e hoje tem uma média móvel de 400 novos casos. A vacinação começou no fim de fevereiro.

Lockdown rigoroso e fechamento de fronteiras, entre outras ações, fizeram da Nova Zelândia um dos maiores exemplos de controle na pandemia, destacou um levantamento global feito pela consultoria inglesa Brand Finance, que ouviu 750 especialistas de vários países.

Desde novembro sem contágio dentro do arquipélago, o país registrou um caso em 24 de janeiro. Depois, decretou confinamento de sete dias na maior cidade, Auckland, após a identificação de um novo caso em 27 de fevereiro.

A Austrália, que também implementou medidas de contenção rigorosas e rápidas, não registra mortes por covid-19 desde dezembro. Com fronteiras fechadas, o país já voltou a realizar shows e jogos reunindo milhares de pessoas.

Quais as críticas às ações na pandemia na região

Alvo de críticas por não realizar muitos testes nos primeiros meses da pandemia, o Japão não teve lockdown, mas estados de emergência: a medida não obriga o fechamento dos negócios, mas permite pedir (não impor) restrições de horários e suspensão de atividades não essenciais.

A campanha do governo se concentrou no slogan “3C”: evitar closed spaces (lugares fechados), crowded places (lugares lotados) e close-contact settings (contatos próximos). “Analisando o número de mortes, pode-se dizer que o Japão foi bem-sucedido, sim. Mas nem os especialistas sabem o porquê”, ponderou Mikihito Tanaka, da Universidade Waseda, à agência Bloomberg.

Entre dezembro de 2020 e janeiro de 2021, o arquipélago atravessou a pior onda de covid, com disparada de casos e falta de leitos hospitalares, o que fez o governo declarar estado de emergência a 10 das 47 províncias. No fim de março, com o controle de casos, o governo decidiu suspender o estado de emergência que estava em vigor em Tóquio e outras regiões. No dia 25 se iniciou o revezamento da tocha olímpica pelo país, rumo aos Jogos Olímpicos de Tóquio, marcados para julho. A passos lentos, também alvo de críticas, a vacinação começou no fim de fevereiro.

Já a Indonésia, que tem o maior número cumulativo de casos de covid-19 no sudeste da Ásia, adotou uma estratégia inusitada de imunização: além dos profissionais de linha de frente, decidiu vacinar jovens antes dos idosos. A ideia, segundo o argumento do governo, é priorizar os trabalhadores, que não estão isolados e podem continuar a disseminar o vírus.

A Índia, um dos países mais afetados do mundo, foi alvo de críticas internamente por distribuir internacionalmente mais doses de vacinas contra a covid-19 do que administra na população. Hoje, busca acelerar a imunização dos seus 1,3 bilhão de habitantes.

O que faz diferença nas respostas à pandemia

Segundo especialistas, fazer comparações internacionais é complicado pois um modelo pode funcionar em um país e em outro não.

Há diferenças demográficas, culturais e socioeconômicas, que podem perpassar desde a eficácia de estratégias (como informações sobre isolamento e importância da vacinação, aderência da população ao uso de máscara) até o número de casos (que pode variar de acordo com a quantidade de testes e a transparência dos dados). Assim, é difícil encontrar fórmulas de sucesso que sejam replicáveis em outros lugares.

Entretanto, responsabilidade dos cidadãos e ações ágeis dos governos estão entre os pontos muitas vezes destacados por autores, de diferentes áreas, ao tratar da situação na Ásia e na Oceania.

Ao escrever no jornal El País sobre o desempenho da Ásia na pandemia em comparação com a Europa, o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han argumentou que o “fator X” para o sucesso seria o civismo, a ação conjunta e a responsabilidade com o próximo.

O acadêmico norte-americano Taggart Murphy, radicado no Japão, por sua vez, destacou a herança das ideias de Confúcio como fator, em artigo publicado na New Left Review. O filósofo chinês Chiu Kung (cujo nome foi europeizado para Confúcio) defendia ética nos governos, onde governantes deveriam ser exemplares e agir em prol da população.

Para Elizabeth King, especialista em saúde global da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, alguns países foram capazes de lidar melhor com a pandemia ao agir rápido. Em entrevista à BBC, King, que é uma das editoras de um estudo que compara respostas à primeira onda de covid-19, destacou que embora as respostas dos governos à pandemia tenham sido moldadas por diversos fatores, a velocidade para sua implementação foi “realmente o que definiu o sucesso”.

Quanto mais um governo demora para agir, maior é o número de óbitos, indicou um estudo com modelos matemáticos liderado pelo físico Giovani Vasconcelos, da UFPR (Universidade Federal do Paraná). “O que os dados mostram é que a inércia, a estratégia de 'não fazer nada' ou fazer o mínimo e esperar o vírus passar, tem um custo humano muito alto”, frisou.

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