O sucesso dos cientistas influencers no Twitter em 2021

Aumento do engajamento de perfis durante agravamento da pandemia revela a importância da informação fundamentada

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. Este conteúdo é exclusivo para nossos assinantes e está com acesso livre como uma cortesia para você experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Apoie nosso jornalismo. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

Enquanto o presidente divulgava informações falsas, minimizava a pandemia e brigava com gestores municipais e estaduais por causa do isolamento social, confundindo a população com a falta de unidade dos discursos, os cientistas brasileiros abraçavam a responsabilidade de divulgar e analisar em seus perfis nas redes sociais evidências científicas para combater a pandemia de covid-19.

Com profissionais como médicos, biólogos e cientistas de dados criando conteúdo a partir da tradução de temas que antes pareciam inacessíveis, a divulgação científica teve um boom de valorização em 2020 e transformou alguns desses especialistas em influenciadores digitais. Uma análise publicada pelo Núcleo Jornalismo em 11 de março mostrou o alcance e o engajamento desses profissionais no Twitter durante a pandemia.

Dados monitorados pela ferramenta Science Pulse revelaram que os principais perfis científicos nas redes mais do que dobraram seu engajamento (taxa de interação dos usuários nos posts) até a semana de 4 de março, a última a ser analisada.

Influenciadores de ciência

O excesso de divergência dos governantes e as dúvidas sobre a gravidade da nova doença ajudaram a impulsionar os perfis de cientistas nas redes. Alguns desses profissionais já atuavam contra a desinformação antes da pandemia, mas conseguiram atingir um público mais amplo após março de 2020, quando a OMS (Organização Mundial da Saúde) reconheceu a gravidade do novo coronavírus.

Os seguidores desses influenciadores buscam explicações sobre como ocorre a transmissão do novo coronavírus, qual a importância da vacina, como elas são feitas e como se proteger do contágio.

A análise do Núcleo Jornalismo revelou que, apesar de os 12 principais perfis de cientistas terem apresentando um crescimento consistente no número de seguidores em 2020, os picos de engajamento ocorreram com o agravamento da pandemia no Brasil, de fevereiro a março de 2021.

Esses 12 influenciadores foram identificados em um estudo da Science Pulse em parceria com o Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados em dezembro. Para elencar os mais relevantes da área, foram analisadas as redes de interações entre 1.200 perfis no Twitter.

O cardiologista e professor Marcio Bittencourt é um dos 12, ao criar um perfil voltado para profissionais como ele. “Agora ele acabou migrando [para o público em geral] porque eu comecei a comentar algumas coisas mais amplas”, afirmou ao Nexo. “Eu não tinha expectativa, as coisas foram acontecendo. Eu fui comentando coisas que eu achei importantes e aumentou o público que acompanha a conta.”

Benefícios bilaterais

De acordo com o estudo da Science Pulse, “as vozes mais influentes sobre covid-19 no Twitter são profissionais que usam a rede com o objetivo claro de divulgação científica”.

Entre os nomes que compõem a lista dos 12 perfis mais influentes estão o do biólogo Atila Iamarino, o da editora de Ciências do Jornal da USP, Luiza Caires, o do médico epidemiologista Otavio Ranzani e o da biomédica Mellanie Fontes-Dutra.

A plataforma não remunera os profissionais, mas o levantamento da Science Pulse mostra que “quase todos os principais influenciadores utilizam também outros espaços para compartilhar conteúdo sobre ciência (site, blog, youtube etc.)”, que permitem a monetização do trabalho.

Um guia criado em 2019 pela Universidade de São Paulo para ajudar pesquisadores a se comunicar com um público maior afirma que “cientistas que usam bem a mídia e estão presentes nos meios de comunicação conquistam bons resultados para eles próprios, para seus projetos e para suas organizações”.

Assim, as redes sociais e o contato com outros meios de comunicação podem ser benéficos não só para os seguidores desses profissionais, mas podem servir como “uma estratégia, ainda que nem sempre garantida, de chegar até financiadores de pesquisa, administradores públicos e também outros acadêmicos”, segundo o guia.

A exceção da pesquisa analisada pelo Núcleo Jornalismo é o perfil do biólogo Atila Iamarino, que teve uma queda nas interações nas últimas cinco semanas. Isso não significou, no entanto, que ele passou a ser irrelevante, mas que houve uma distribuição de influência e engajamento.

O biólogo foi o primeiro a virar uma celebridade na internet após ser um dos primeiros a publicar uma sequência de tweets sobre o vírus e um vídeo em seu canal no Youtube que falavam sobre a gravidade da pandemia. Depois disso, foi convidado a participar do programa Roda Viva e ganhou centenas de milhares de seguidores, que se somaram ao público que o acompanhava desde 2017.

Segundo a análise, “a resposta que explica essa queda passa pela pluralização e fortalecimento de vozes”. “Essa distribuição é muitas vezes estimulada pelo próprio Atila, que divulga e retuíta outros divulgadores, e também organizada por eles próprios. Porém ele é, indiscutivelmente, o principal divulgador do grupo, responsável por 19 dos 20 maiores engajamentos semanais”, escreveram os responsáveis pelo levantamento.

Além do trabalho de divulgação científica nas redes sociais, o biólogo também faz lives, que são patrocinadas pelo Instituto Serrapilheira, a primeira instituição privada de fomento à ciência no Brasil. O Serrapilheira já apoiou 124 projetos de pesquisa e 46 projetos de divulgação científica do país, incluindo conteúdos publicados pelo Nexo.

O instituto e outros canais digitais, como blogs e sites, são alguns dos meios encontrados pelos cientistas para continuar com o trabalho apesar das constantes cortes orçamentários e ameaças sofridas pelas universidades brasileiras, principal canal de disponibilização de recursos para pesquisas e formação de cientistas no Brasil.

Mudança nas regras

Em 2020, o Twitter passou a reconhecer a importância dos divulgadores científicos na plataforma. Em dezembro, a empresa informou que quem trabalha com divulgação científica pode pedir a verificação da conta por meio da categoria “ativistas, organizadores e outros indivíduos influentes”.

A análise do Núcleo Jornalismo mostrou que, do total de divulgadores de ciência, 21,5% (ou 190) são verificados pelo Twitter. O selo azul de verificação informa a autenticidade de uma conta de interesse público.

A plataforma também passou a remover conteúdos que tentam difundir notícias falsas sobre o novo coronavírus e atentam contra a saúde pública, o que aconteceu com dois posts do presidente Jair Bolsonaro.

No dia 1º de março de 2021, a empresa divulgou uma nova regra que busca punir quem publica informações falsas sobre as vacinas contra a covid-19. O usuário que compartilhar conteúdos enganosos sobre o assunto pode perder a conta.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.