Qual o papel das mulheres na liderança contra a covid-19

Prefeitas defendem diálogo com outras esferas de governo para garantir vacinas e viabilizar políticas públicas para atender setores mais vulneráveis no âmbito das cidades

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Mulheres estão entre as mais atingidas pela pandemia de covid-19 no mundo inteiro. Índices de sobrecarga de trabalho doméstico, exposição à violência e vulnerabilidade econômica estão entre os impactos que acirraram a desigualdade de gênero. No contexto do isolamento social, cresceram casos de agressão, estupros e feminicídios. No Brasil, nos lares liderados por mulheres negras, agravou-se o risco de insegurança alimentar e fome; na linha de frente, elas são as mais vulneráveis a situações de assédio e abalo psicológico.

“Se mulheres estão imersas nos riscos da pandemia, já passou da hora de elas terem direito de decidir sobre as políticas públicas que impactam nossas vidas”, destacou a cientista social Michelle Ferreti, do Instituto Alziras, organização da sociedade civil que realiza pesquisas e estudos sobre mulheres na política e gestão pública.

“Mais do que nunca, precisamos de mais mulheres nos espaços de poder e tomada de decisão política. E precisamos garantir que as mulheres que já estão nesses espaços possam governar e exercer seus mandatos livres de assédio, ameaças, violência e discriminação”, frisou Ferreti, no webinário “Mulheres na liderança contra a covid-19”, realizado na quarta-feira (31), com mediação de Marina Menezes, do Nexo.

Nas eleições de 2020, 652 mulheres foram eleitas prefeitas, o que representa 12% do total dos governantes municipais. Entre elas, 32% são negras, somando as autodeclaradas pardas (199) e pretas (10). Das 26 capitais em disputa, apenas Palmas (TO) elegeu uma prefeita, Cinthia Ribeiro (PSDB).

“Após um ano de pandemia, nós ainda não conseguimos avançar no alinhamento devido com os outros entes federados [as outras esferas de governo, a União, os estados e o distrito federal]. Isso tem exigido muito mais dos líderes locais. É nos municípios onde tudo acontece. É nas nossas portas que as pessoas batem para dizer que precisam de leitos, kits de higiene, cesta básica, auxílio”, relatou Ribeiro, no seminário digital.

Segundo a prefeita de Palmas, a falta de logística no PNI (Plano Nacional de Imunização) vem afetando diretamente os municípios. Foi nesse contexto que prefeitos de mais de 2.000 cidades decidiram organizar o Conectar, um consórcio nacional para comprar insumos e vacinas – “para reforçar o PNI, não para concorrer; é um esforço conjunto”, definiu. “Governo federal, governos estaduais e prefeituras devem trabalhar em conjunto para garantir ações assertivas, alinhamento e suporte para unidades de saúde.”

Palmas, a cidade mais afetada pelo coronavírus no Tocantins, adotou “lockdown” parcial com a suspensão de atividades não essenciais e está atuando para fiscalizar aglomerações.

“Jamais imaginaria que, dentro de um cenário de guerra, teríamos outras tantas guerras sendo incitadas. [...] Nesses momentos de crise, a população mais vulnerável é a que mais precisa do poder público. E é para isso que o poder público foi constituído”

Cinthia Ribeiro

prefeita de Palmas (TO)

Para a prefeita Moema Gramacho (PT), de Lauro de Freitas (BA), enfrentar a pandemia no âmbito dos municípios está sendo ainda mais difícil diante da crise econômica, retrocessos e restrições orçamentárias para investimento nas áreas de assistência social, saúde e educação.

“Nenhum gestor é contra a economia, a política pública precisa de desenvolvimento econômico. Mas não podemos titubear: entre fazer isolamento social e garantir a economia funcionando, precisamos preferir fazer isolamento social para diminuir a quantidade de mortes.”

Lauro de Freitas teve toque de recolher e “lockdown” parcial, com previsão de reabertura escalonada a partir de 5 de abril, de acordo com a prefeita. Na região metropolitana, contou Gramacho, foi estabelecido um diálogo com outros prefeitos para ter medidas de isolamento social alinhadas entre diferentes cidades.

Segundo a gestora municipal, é preciso valorizar o SUS (Sistema Único de Saúde) e agilizar a vacinação para dar conta da crise. “Se não chegar vacina suficiente, não temos outra saída. Estamos apagando incêndio e enxugando gelo.”

“Perdi minha irmã por covid-19. A gente sente na pele o peso de um retardamento na compra das vacinas no país. 320 mil mortes não é só uma estatística. São vidas que estão sendo perdidas”

Moema Gramacho

prefeita de Lauro de Freitas (BA)

Para a prefeita Renata de Sene (Republicanos), de Francisco Morato (SP), a pandemia deu visibilidade a famílias em situação de risco e mulheres vítimas de violência de diferentes ordens. “A epidemia evidenciou famílias até então invisíveis.”

As prefeitas destacam desafios comuns, como a importância do respeito às diretrizes de isolamento social, a necessidade de leitos e a urgência das vacinas. Também indicam, entre pontos comuns, a importância de ações de acolhimento e cuidado. “Direitos humanos, primeiro. Uma cidade justa é aquela que acolhe a todas as pessoas”, definiu Sene, ao defender estratégias de enfrentamento local ao vírus e a necessidade de financiamento público para as ações.

“Precisamos articular uma agenda rápida e importante, que seja nacional e estadual e que atinja o âmbito local. O que atinge um atinge a todos”

Renata de Sene

prefeita de Francisco Morato (SP)

Recentemente, lideranças municipais de diferentes partidos de Araraquara, Mongaguá e Pirassununga, todos no estado de São Paulo, também se manifestaram em relação à importância do isolamento para contenção do vírus.

A socióloga Nísia Trindade Lima, presidente da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), no Rio de Janeiro, que também participou do webinário, chamou a atenção para o papel de mulheres na política e na ciência para consolidação de modelos de saúde pública. “Não basta que nós, mulheres, ocupemos posições. É importante o desenvolvimento de políticas públicas na agenda de equidade de gênero e raça”, argumentou.

Segundo a socióloga, isso passa por medidas restritivas para conter o número de casos e mortes, respeito às evidências científicas e aos dados e diálogo para promover políticas adequadas a cada momento – o momento atual, frisou, é crítico. “Nós vamos superar essa crise, mas não será num passe de mágica. Isso vai exigir ainda muito de nós”, disse.

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