O que há no relatório da OMS sobre a origem da covid

Documento ainda não é conclusivo, mas aponta evidências a respeito de como a transmissão começou. Países acusam China de limitar acesso de cientistas a dados 

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. Este conteúdo é exclusivo para nossos assinantes e está com acesso livre como uma cortesia para você experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Apoie nosso jornalismo. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

A covid-19 muito provavelmente chegou aos seres humanos por meio de um animal, de acordo com um relatório da OMS (Organização Mundial da Saúde) publicado na terça-feira (30). A possibilidade do vírus ter escapado de um laboratório, hipótese que tem grande aceitação nas redes sociais, foi considerada a menos provável.

O documento defende que mais estudos são necessários para se chegar a uma resposta conclusiva. “Este relatório é um começo muito importante, mas não é o fim. Ainda não localizamos a origem do vírus, devemos continuar a seguir a ciência e investigar todas as possibilidades", afirmou em comunicado o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus.

O levantamento elencou quatro possíveis fontes do vírus Sars-CoV-2, nome dado ao novo coronavírus. O caminho “possível e muito provável” é ele ter se originado nos morcegos, passado por um hospedeiro intermediário, onde pode ter sofrido mutações, até chegar nas pessoas. Já o transbordamento direto, do morcego direto para o humano, é uma hipótese “possível e provável”.

Segundo o estudo, as hipóteses mais remotas são a passagem do vírus para humanos por meio de produtos alimentícios. Essa hipótese é considerada apenas “possível”. Já a possibilidade de o vírus ter escapado acidentalmente do Instituto de Virologia de Wuhan é classificada de “extremamente improvável”.

De acordo com a pesquisa, a covid-19 começou a se disseminar entre seres humanos entre um ou dois meses antes da primeira vez em que a doença foi identificada em Wuhan, China, em dezembro de 2019.

Os caminhos do estudo e ausência de dados

O estudo foi preparado por uma equipe multidisciplinar que reuniu 17 especialistas internacionais e 17 especialistas chineses. Além da OMS, participaram do esforço a Goarn (Rede Global de Alerta e Resposta a Surtos) e a OIE (Organização Mundial para Saúde Animal).

O diretor-geral da OMS reforçou que a equipe não teve acesso total às informações biológicas, por isso o estudo é inconclusivo. "Em minhas discussões com a equipe, eles expressaram as dificuldades que encontraram para acessar os dados brutos. Espero que estudos colaborativos futuros incluam um compartilhamento de dados mais oportuno e abrangente", disse Tedros em nota.

Treze países, incluindo Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, Austrália, Japão e Coreia do Sul, criticaram as limitações enfrentadas pelo relatório, impedindo que ele tivesse “acesso aos dados e amostras originais e completos”.

No domingo (28), o secretário de Estado americano, Antony J. Blinken, afirmou que os EUA "têm reais preocupações a respeito da metodologia e processo de elaboração do relatório, incluindo o fato de que o governo de Pequim aparentemente ajudou a escrevê-lo”.

Em resposta às declarações do diretor da OMS, o governo chinês pediu que a organização respeitasse o parecer dos especialistas sobre as origens da covid-19. Hua Chunying, porta-voz da chancelaria chinesa, acusou os países que criticaram o estudo de querer “espalhar boatos e impulsionar sua agenda política”.

O epidemiologista chinês Liang Wannian, um dos coordenadores da equipe que realizou o estudo, declarou que não procedem as acusações de que o acesso aos dados foi limitado pelas autoridades. “Claro que alguns dados não podem ser retirados ou fotografados, mas, quando todos analisamos as informações em Wuhan, todos podiam ver o banco de dados, os materiais”, disse à imprensa.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.