Como o desabafo de um prefeito confronta a lógica anti-isolamento

Político de Mongaguá diz que gostaria de ouvir do pai e do irmão a queixa de que o comércio deles ‘quebrou’. Mas não pode porque os dois foram mortos pela covid-19

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Um pronunciamento do prefeito de Mongaguá, Márcio Melo Gomes (Republicanos), em que ele se emociona ao falar da morte do pai e do irmão por covid-19, viralizou nas redes sociais nesta quarta-feira (31). Gomes fez o desabafo durante uma live transmitida no dia anterior em que ele explicou a necessidade de manter as restrições de circulação no município, localizado no litoral sul do estado de São Paulo.

“Como eu queria hoje sair dessa live e escutar do meu pai e do meu irmão: ‘Eu quebrei, o meu comércio quebrou’ […]. Eu não ouvi isso deles mais. Porque infelizmente, por essa doença, eles perderam a vida. E não existe nada mais precioso que a vida de vocês”

Márcio Melo Gomes

prefeito de Mongaguá

Entre os argumentos de que quem é contra o isolamento social, está o de que as medidas de restrição acabam sendo mais maléficas do que a própria pandemia, ao atingir em cheio a economia. É um argumento usado, por exemplo, pelo presidente Jair Bolsonaro. O discurso emocionado do prefeito confrontou essa ideia.

Em 22 de março, o prefeito da cidade de 57,6 mil habitantes perdeu o pai para a covid-19. No dia 28 de março, foi a vez de seu irmão Givaldo Melo Gomes Júnior, de 33 anos.

“O intuito da live era sensibilizar os cidadãos para ficar em casa por 14 dias. Era para ser um pronunciamento normal, mas eu perdi o controle emocional”, disse Gomes ao Nexo. “Eu já quebrei, meu pai quebrou, 90% dos brasileiros já passaram por situações difíceis e depois se reergueram. Esse foi meu recado, nada é mais importante que a vida”, afirmou o prefeito.

Perguntado sobre o que acha do posicionamento de Bolsonaro contrário ao isolamento, Gomes criticou a “cultura política baseada em fanatismos, que tanto pode vir do presidente, pode vir do governador”. Para o prefeito de Mongaguá, “não é mais uma questão individual, precisamos ter um direcionamento nacional, uma fala só”.

A situação da cidade do litoral paulista

As nove cidades que compõem a região metropolitana da Baixada Santista decretaram medidas de isolamento entre 23 de março e 4 de abril. A medida foi uma reação à antecipação de feriados decretada pelo prefeito da capital paulista, Bruno Covas (PSDB). Para Gomes, a iniciativa foi “irresponsável” pois levou pessoas a irem para o litoral.

Em Mongaguá, os supermercados podem funcionar apenas durante a semana, até as 20h, e hotéis, pensões e imóveis de temporada não podem receber hóspedes. Trabalhos de construção civil estão vedados, exceto os de caráter emergencial e essencial. As praias estão fechadas.

A UPA (Unidade de Pronto Atendimento) Mongaguá, voltada apenas para doentes de covid-19, está com ocupação de 100%, segundo um vídeo divulgado pela prefeitura junto com o pronunciamento do prefeito. “Está sendo muito difícil. Mais de 100 funcionários trabalhando todos os dias, de dia e de noite”, afirma na peça a enfermeira-chefe da UPA.

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