Por que tanta gente ignora regras no pior momento da pandemia

Apesar de medidas decretadas por governantes para tentar frear a transmissão da covid, parcela da população ignora restrições. O ‘Nexo’ falou com psicólogos sobre o que move esse comportamento 

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Apesar de o Brasil ter atingido em março de 2021 números recordes de mortes e casos de covid-19, uma quantidade significativa de pessoas continua a adotar comportamentos contrários às recomendações sanitárias de prevenção e às determinações de autoridades.

Em 24 de março, o país cruzou a marca das 300 mil mortes pela doença causada pelo novo coronavírus. Na semana anterior, em 17 de março, a média diária dos óbitos diários ultrapassou os 2 mil casos pela primeira vez, e seguiu batendo recordes diários. Na segunda-feira (29), chegou a 2.655. Por todo o país, UTIs estão lotadas e hospitais em colapso, com relatos de pessoas morrendo em corredores ou sem tratamento adequado.

A situação é agravada pelo aumento do alcance da variante P.1, potencialmente mais transmissível, que já se espalhou por todo o país. No início de março, ela se tornou a principal cepa em circulação na Grande São Paulo. O percentual de óbitos de pessoas entre 18 e 45 anos triplicou nos últimos meses no país, segundo levantamento feito em 1.593 UTIs públicas e privadas do país pela Amib (Associação de Medicina Intensiva Brasileira), comparando o período entre setembro e novembro de 2020, com a janela entre 1º de fevereiro e 26 de março.

Para muitos cidadãos, a vontade de festejar ou frequentar praias não foi desencorajada pela piora do cenário nem pelas proibições de autoridades. A decretação da fase emergencial pelo governo do estado de São Paulo, que inclui restrições a atividades não essenciais e toque de recolher à noite, desde 15 de março, não foi suficiente para tirar as pessoas das ruas na capital. Além disso, o isolamento médio na capital ficou estável nos primeiros dias de feriado antecipado pela prefeitura, que vai durar de 26 de março a 4 de abril. Foi de 45% no sábado (27), em comparação com 46% no mesmo dia na semana anterior e 45% duas semanas antes. No domingo, ficou em torno de 50%, similar a domingos anteriores.

Praias e festas

No domingo (28), dezenas de pessoas desrespeitavam a proibição de banho de sol e mar até 4 de abril imposta pela prefeitura do Rio de Janeiro como medida de contenção da covid-19. A situação foi vista nas praias do Leblon, Ipanema e Copacabana.

Dois dias depois de pedir à população que não fizesse festas, o governador em exercício do estado, Claudio Castro (PSC), fez no domingo um evento de aniversário em Itaipava que, segundo convidados, teve aglomeração e convidados sem máscaras. Ele depois pediu desculpas.

Em 12 de março, uma reportagem da TV Globo flagrou grupos fazendo festas em barcos no rio Capibaribe, em frente ao Marco Zero do Recife. Esse tipo de evento está proibido pelas autoridades locais. Na mesma data, as UTIs públicas da cidade registravam ocupação de 95%.

Na cidade de São Paulo, a manobra do prefeito Bruno Covas (PSDB) de antecipar feriados para frear a propagação do vírus foi criticada por servir de estímulo à movimentação de pessoas para fora da cidade. Apesar de uma redução de 27% no trânsito das principais rodovias que ligam a capital ao interior ou litoral, na comparação com o dia 19 de fevereiro, segundo dados da Artesp (Agência de Transporte do Estado de São Paulo), ainda assim houve fluxo considerável de carros para municípios do litoral paulista.

A cidade de São Sebastião instalou barreiras sanitárias com testagem de covid-19 para turistas. Pessoas com resultado positivo eram obrigadas a dar meia volta na estrada. Os fiscais foram agredidos verbalmente por cidadãos vindos da capital repetidas vezes. “As pessoas acham que, por ter poder aquisitivo alto, podem fazer o que quiser”, lamentou a diretora de Vigilância em Saúde Fernanda Paluri, à Folha de S.Paulo.

“Não vai ser uma gripe qualquer que vai assustar a gente. Essa história de tanta gente morrendo de covid é um exagero. Eles inflam os números, trocam a causa da morte para ganhar uma grana. Meu médico já disse que só morre quem é velho e doente”, afirmou Renato Sousa, técnico em tecnologia da informação ao UOL.

A prefeitura de São Sebastião também colocou tapumes para impedir o acesso dos turistas às praias. Várias dessas barreiras acabaram vandalizadas por pessoas que tentaram desrespeitar a restrição. A cidade registra falta de medicamentos necessários para a intubação, fazendo com que novos pacientes não possam ser admitidos na UTI respiratória local.

Na capital, o Comitê de Blitze de São Paulo, que reúne agentes das forças policiais e da Vigilância Sanitária, afirmou ter dispersado 352 pontos de aglomeração na cidade na noite de sábado (27). Entre eles, duas festas realizadas na região do Brás.

O que move quem ignora restrições

Para psicólogos ouvidos pelo Nexo, a explicação para comportamentos que desrespeitam regras e consensos sanitários é complexa e pode variar conforme o indivíduo.

“Temos uma certa dificuldade em imaginar que as coisas não vão acontecer com a gente”, avalia Vera Iaconelli, psicanalista, mestra e doutora em psicologia pela USP (Universidade de São Paulo) e diretora do Instituto Gerar de Psicanálise. “A gente acha que todo mundo pode ser atropelado, mas se acontece conosco dizemos ‘mas por que comigo?’ O que revela que imaginamos que estamos fora do registro comum, da estatística.”

Para Denise Pará Diniz, coordenadora do Setor de Gerenciamento de Estresse e Qualidade de Vida da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), a pandemia funciona como um elemento estressor externo, contra o qual somos impotentes. De acordo com especialistas, diante de uma situação assim, podemos nos adaptar, fugir ou confrontar. “O que observamos é que as pessoas estão escolhendo o confronto com a situação, optando por quebrar as regras que estão sendo colocadas”, afirmou.

Na opinião de Helio Deliberador, do Departamento de Psicologia Social da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), o comportamento “individualista crônico” é reflexo de um contexto social maior de individualismo e niilismo.

Iaconelli se alinha a essa ideia, ponderando que a sociedade brasileira “tem uma visão muito empobrecida” do que é o coletivo e o público. “Para nossa cultura hoje o coletivo não é um valor. O que vale é a lógica neoliberal da competitividade, de se fazer. Isso cobra seu preço nesse momento em que você precisaria abrir mão de seu prazer para ajudar um outro que você nem sabe quem é”, disse ao Nexo.

Na visão de Diniz, trata-se de um individualismo tão agudo que acaba prejudicando até o próprio indivíduo, não apenas aos entes queridos ou à sociedade. Segundo ela, não é mais possível justificar certos comportamentos como sendo pelo bem da sua saúde mental e não observar as consequências do próprio comportamento no estágio atual da pandemia, onde falta até oxigênio.

Há também, para muitos, uma sensação de "não querer ser trouxa”, de acordo com Iaconelli. “Está todo mundo indo, por que eu não vou? Aí entra o auto engano de achar que você pode ir porque não vai acontecer com você, mas com o outro. Tem certo caráter de jogador, de apostador”, afirmou.

Para Deliberador, não se pode ignorar a influência de figuras públicas de autoridades negacionistas. “Sem dúvida, elas têm grande interferência nesse comportamento. São os tais líderes que politizam e ideologizam a questão”, afirmou. Desde o começo da pandemia, o presidente Jair Bolsonaro critica medidas de isolamento social, indo contra os governadores que adotaram restrições.

Segundo Iaconelli, o presidente americano Joe Biden fornece um exemplo de como uma liderança positiva pode movimentar a sociedade na direção certa. “Chegando junto, sendo exemplo, fazendo todo mundo se sentir valorizado, se sentir parte de um esforço comum, como numa torcida de futebol. Mas quando isso não se mostra, em nome de que vou fazer esse esforço? É ideia do mutirão. Se só está você lá, a chance de abrir mão é muito grande”, conclui.

Ao mesmo tempo, a psicanalista ressalta que os brasileiros não são apenas vítimas, mas também responsáveis. “É uma escolha que estamos fazendo coletivamente porque, se olharmos para outros países, não precisamos ficar à mercê disso”, afirmou ao Nexo.

ESTAVA ERRADO: Na primeira versão deste texto, o nome da psicóloga Denise Pará Diniz saiu como Débora Pará Diniz. A correção foi feita às 9h36 de 30/3/2021.

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