A revisão que pode fazer saltar as mortes por covid no México

Diante de subnotificações, Ministério da Saúde local recalcula os dados a partir do aumento de óbitos em geral no país. Registros ainda não foram incorporados aos balanços internacionais

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. Este conteúdo é exclusivo para nossos assinantes e está com acesso livre como uma cortesia para você experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Apoie nosso jornalismo. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

O número de mortos pela covid-19 no México pode ser pelo menos 62% maior do que se presumia inicialmente. A revisão dos dados, feita pelo Ministério da Saúde local, mas ainda não oficializada por órgãos internacionais, colocaria o país no segundo lugar no ranking mundial de mortos pela pandemia.

A revisão teve como base a suspeita de subnotificações massivas, produzidas pela falta de diagnósticos e pelo fato de muitos pacientes estarem morrendo de covid-19 fora do sistema hospitalar mexicano. A conclusão partiu de uma análise do que o Ministério da Saúde classificou como “mortes excessivas” registradas no país, na comparação com o padrão histórico de anos anteriores.

O primeiro relatório publicado pelo governo após a revisão desses dados fez o número total de mortos pela pandemia no México saltar de 182.301 para 294.287, na contagem até 14 de fevereiro. Desde então, esse número continuou subindo. Nesta segunda-feira (29), a contagem revisada de mortos pela covid-19 no México era de 321.253 – o que faz o país ultrapassar o Brasil (312 mil mortos) e ficar atrás apenas dos EUA (529 mil).

Metodologia por aproximação

A revisão dos casos foi feita com base na releitura dos atestados de óbito das “mortes excessivas”. O Ministério da Saúde explicou que o campo de preenchimento da causa de morte do paciente é impreciso. Esse campo comporta um “texto livre, no qual são registradas as causas do falecimento sem detalhe nem ordem”.

O órgão disse que aplicou nesses atestados “um algoritmo de busca de termos relacionados à covid-19, Sars-Cov-2, coronavírus, entre outros” e aferiu, com “um índice de concordância de 95%” que a pandemia teve papel preponderante nessas mortes, mesmo que outros fatores estivessem relacionados.

Entretanto, apesar da revisão dos dados, feita dentro do México, os dois principais sites que disponibilizam informações sobre contaminados e mortos pela covid-19 no mundo – o da OMS (Organização Mundial da Saúde) e da Universidade Johns Hopkins – continuavam dando número menor, de 201.623 mortos até a manhã de segunda-feira (29). Não está claro como e quando ocorrerá essa equalização na contagem oficial nas plataformas internacionais.

O papel de Obrador

O presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, adotou desde o início da pandemia, ainda em 2020, uma abordagem contraditória, na qual misturou comportamentos imprudentes com mensagens de apoio às orientações médicas.

A estratégia sanitária mexicana foi de apenas recomendar trabalho remoto e distanciamento, sem a adoção de medidas estritas de confinamento, como ocorreu em países europeus nos quais os números de mortos foram muitos menores que os do México. A postura de AMLO, como é conhecido o presidente, foi classificada como negacionista muitas vezes.

Quando os casos ainda eram baixos, o presidente mexicano aconselhou a população a “seguir a vida normalmente”, mesmo com o exemplo da China mostrando que o distanciamento seria importante para cortar a circulação do vírus nos meses seguintes.

O próprio presidente foi contaminado pelo vírus em janeiro de 2021, e ficou fora de circulação, embora sem complicações. Ainda assim, ele não é um entusiasta do uso de máscara.

A lentidão na vacinação

Apesar de um acordo feito com o presidente da Argentina, Alberto Fernández, para coordenar o programa da vacina de Oxford, produzida pelo laboratório AstraZeneca, nos dois países, o ritmo de imunização entre os mexicanos é baixo.

Até domingo (28), 5,31 doses de vacina tinham sido aplicadas a cada grupo de 100 pessoas no México, enquanto na Argentina esse número era de 8,02, e no Brasil era de 8,33.

O México espera receber dos EUA 2,5 milhões de doses da vacina de Oxford que fazem parte de um lote de 30 milhões que o governo americano adquiriu mas não pretende usar. Outro 1,5 milhão iria para o Canadá e o restante para o consórcio Covax Facility.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.