Por que o quadro de covid na Índia afeta a vacinação no Brasil

Governo indiano é pressionado a ampliar o ritmo da imunização interna, mudando planos de exportação de empresa responsável por produção de doses de Oxford

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O Instituto Serum, laboratório indiano responsável por produzir doses da vacina da Universidade de Oxford e da farmacêutica AstraZeneca importadas pelo Brasil, anunciou que deve atrasar o envio de novos imunizantes para o país. A informação foi divulgada pela agência Reuters e confirmada no domingo (21) pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz).

Os atrasos devem ocorrer por causa da grande demanda por vacinas na Índia, que busca acelerar a imunização de sua população contra a covid-19. Com 1,3 bilhão de habitantes, o país é o terceiro mais afetado pelo novo coronavírus no mundo. A decisão do governo indiano deve também afetar envios de vacinas para Arábia Saudita e Marrocos.

O acordo entre a Índia e o Ministério da Saúde prevê que o Instituto Serum envie ao país 10 milhões de doses da vacina de Oxford, segundo a Fiocruz, que fabrica o imunizante no Brasil. Dois milhões de doses foram entregues ao país no fim de janeiro. Pelo cronograma do governo federal, o restante das remessas deveria chegar a partir de abril.

Em nota, o Ministério da Saúde afirma que o calendário previsto com o laboratório indiano está mantido, mas que pode sofrer alterações, de acordo com a produção dos insumos para vacina. O contrato atual prevê que as oito milhões de doses cheguem em quatro remessas de duas milhões cada até julho de 2021.

A Fiocruz recebeu a informação de que o Instituto Serum atrasaria o envio de vacinas em carta do dia 4 de março. Localizado no Rio de Janeiro, o laboratório é responsável por receber a vacina de Oxford no Brasil e fazer a rotulagem e a etiquetagem das doses importadas antes de distribuí-las pelos estados.

Desde janeiro, a vacina de Oxford tem sido usada na campanha brasileira de vacinação contra a covid-19. Além dela, o país vem usando em maior quantidade a Coronavac, produzida pelo laboratório chinês Sinovac em parceria com o Instituto Butantan. Com apenas dois imunizantes à disposição e problemas com a produção de insumos, o país tem vacinado em ritmo lento.

13,3 milhões

de brasileiros foram vacinados com ao menos a primeira dose da vacina contra a covid-19, segundo consórcio de veículos de imprensa; o número representa 6,3% da população

A importância da Índia para a indústria farmacêutica

A Índia, conhecida como “farmácia do mundo” por sua capacidade de fornecer vacinas e medicamentos genéricos, exporta imunizantes contra a covid-19 desde janeiro. O principal responsável pelo volume de vendas para outros países na pandemia é o Instituto Serum, que produz 1,5 bilhão de doses por ano.

Com o início das campanhas de vacinação contra o novo coronavírus, o país distribuiu imunizantes a nações vizinhas e parceiras, como Bangladesh, Nepal, Butão, Ilhas Seychelles, Maurício e Maldivas, e enviou remessas comerciais de doses para países como o Brasil e o Marrocos.

60%

das vacinas no mundo (não só durante a pandemia) são produzidas pela Índia

A Índia produz hoje a vacina de Oxford, em parceria com a Astrazeneca, e a Covaxin, criada localmente pelo laboratório Bharat Biotech. A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) analisa um pedido do Ministério da Saúde de importação de 20 milhões de doses da Covaxin para o país, mas os dados da vacina estão incompletos.

Para o Brasil, as vacinas importadas pela Índia representam uma parcela relevante da campanha nacional contra a covid-19. Em março de 2021, o país está no pior momento da pandemia, marcado por superlotação de hospitais e recordes de mortes diárias. Além de importar doses, o Brasil fabrica a vacina de Oxford na Fiocruz e a Coronavac no Instituto Butantã.

A indústria farmacêutica é uma importante ferramenta da Índia para os empregos locais, o comércio exterior e a diplomacia. Com a pandemia, o país tem se esforçado para fazer parceria com outros países, especialmente os vizinhos, para melhorar sua imagem e reduzir a influência chinesa na região.

Qual o quadro da vacinação na Índia

A Índia vem sendo criticada por sua população por distribuir ou exportar mais doses de vacinas contra a covid-19 do que administra no país. Com uma campanha de imunização considerada lenta, o país vacinou apenas 3,3% dos indianos até esta quarta-feira (24), segundo o site Our World in Data.

Os dados apontam que, até essa data, a Índia havia vacinado com pelo menos uma dose mais de 44 milhões de pessoas. Embora o número seja expressivo, trata-se de uma fração pequena da população indiana — de 1,3 bilhão de habitantes —, que precisa estar amplamente vacinada para haver imunidade coletiva.

85º lugar

é a posição da Índia no ranking de países que mais vacinam sua população contra a covid-19, segundo dados até 24 de março de 2021 do site Our World in Data

A Índia é o terceiro país mais atingido pela pandemia da covid-19. Dados da universidade americana Johns Hopkins mostram que, até a tarde de quinta-feira (25), os indianos haviam registrado cerca de 11,7 milhões de casos da doença. Em número de óbitos, o país fica em quarto, com mais de 160 mil.

Originalmente, o Instituto Serum, o mais produtivo do país, deveria vender imunizantes contra a covid-19 apenas para países de média e baixa renda na Ásia e África. Entretanto, problemas de produção em fábricas da AstraZeneca em outros lugares o levaram a enviar a mais países a pedido da farmacêutica.

A Índia tem o objetivo de vacinar 300 milhões de pessoas até agosto. Segundo a imprensa local, o país teria que acelerar em quase 10 vezes o ritmo de vacinação para atingir essa meta. Com o ritmo de hoje, o governo levaria dois anos até imunizar toda sua população contra a covid-19.

Em março de 2021, a Índia viu os casos de covid-19 subirem em todas as regiões do país, o que levou as autoridades locais a temer uma nova onda da doença. A média móvel diária de novas infecções, que em fevereiro era de cerca de 10 mil, subiu para mais de 18 mil no mês seguinte, representando uma alta de 65%.

O impasse anterior

Em janeiro, o governo brasileiro passou por um constrangimento com a Índia por ter anunciado a importação de doses da vacina de Oxford produzidas pelo Instituto Serum quando o país asiático ainda não havia confirmado que enviaria os imunizantes para o Brasil na data divulgada pelas autoridades locais.

O governo federal chegou a preparar em 13 de janeiro uma operação para buscar doses do imunizante com um avião fretado. Por questões logísticas, o voo não chegou a ir à Índia, mas estava iniciando a viagem dentro do Brasil quando as autoridades indianas negaram que fariam as exportações no momento.

Na época, o governo indiano disse que era “muito cedo” para dar respostas ao Brasil sobre o envio de vacinas, e o país havia se precipitado ao querer enviar um avião. “Parece que o Brasil queimou a largada ao anunciar oficialmente o envio de uma aeronave”, disse na ocasião uma reportagem do jornal indiano Hindustan Times.

As primeiras doses importadas da vacina de Oxford chegaram ao Brasil na semana seguinte, no dia 22 de janeiro. Foram 2 milhões de doses na primeira remessa. Com o envio, o país incorporou o imunizante ao plano nacional de vacinação contra a covid-19, que havia começado alguns dias antes, até então apenas com a Coronavac.

Com a operação com o avião, o governo do presidente Jair Bolsonaro buscava fazer com que a campanha de imunização contra a covid-19 começasse com as doses da AstraZeneca, que foram sua aposta na crise. A Coronavac foi a aposta do governador paulista, João Doria (PSDB), que é adversário político de Bolsonaro.

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