Como a ficção científica ilumina a realidade pandêmica

Estratégia de despertar um ‘estranhamento cognitivo’ ajuda leitores a entender e refletir sobre o presente. Busca por livros do gênero aumenta com a crise da covid-19

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    A ficção científica pode ajudar a dar sentido ao mundo real, até mesmo aquele que está tomado por pragas e em um cenário apocalíptico, segundo teóricos do gênero. Talvez isso possa explicar o crescimento no interesse por obras de ficção científica em 2020. Segundo o Google Trends, a busca dos internautas por elas aumentou cerca de 25% após a OMS (Organização Mundial da Saúde) declarar a pandemia do novo coronavírus.

    Muito antes do surgimento da covid-19, livros de ficção científica já mostravam como as pessoas podem responder a crises do tipo. Assim, o interesse por essas narrativas está conectado à busca de esclarecimento sobre o que está acontecendo no mundo — e talvez alguma resposta sobre como as pandemias podem terminar.

    Medo, superstição, acúmulo, egoísmo, heroísmo e tédio já foram descritos pelo gênero em obras que parecem fazer exercícios de futurologia, mas que são simplesmente baseadas nos previsíveis comportamentos e sentimentos humanos observados em outros momentos históricos dominados pela praga.

    “Muita gente pensa que o gênero é sobre o futuro, sobre coisas mirabolantes e impossíveis, mas, na verdade, o gênero é sobre o presente, que acaba sendo cifrado de alguma forma para que possa ser narrado”, afirmou ao Nexo Alysson Oliveira, jornalista e doutor em letras pela USP (Universidade de São Paulo).

    A pandemia via ficção científica

    “Uma pandemia é sempre uma crise planetária que põe em xeque os valores fundamentais da sociedade e do indivíduo”, disse ao Nexo o escritor Braulio Tavares. Para o autor, a ficção científica aborda questões que dizem respeito à humanidade como um todo, e não apenas a alguns grupos de pessoas. Por isso, o gênero tem como um de seus temas recorrentes o contágio de doenças infecciosas.

    Em 2020, Tavares observou o interesse por obras do gênero por meio de um financiamento coletivo realizado para relançar dois livros seus: “A espinha dorsal da memória” (1988) e “Mundo fantasmo” (1996). A campanha, que terminou em novembro, arrecadou R$ 10 mil a mais do que o esperado.

    A boa ficção científica, segundo Oliveira, se vale de uma estratégia chamada “estranhamento cognitivo”. O termo criado pelo iugoslavo Darko Suvin determina que, ao transformar algo que nos é familiar em estranho, o gênero nos dá uma capacidade cognitiva de compreensão do nosso mundo.

    “Por exemplo, quando um romance ‘inventa’ um sistema econômico ‘diferente’ do nosso, nos permite ver mais às claras como é o nosso sistema econômico. Nesse sentido, creio que os romances apocalípticos podem ter muito a dizer sobre o que ou como seria o fim do mundo, obviamente, um fim do mundo com aspas, ou seja, tipo uma pandemia”, disse Oliveira.

    Os retratos pandêmicos

    Um dos primeiros livros modernos de ficção pós-apocalíptica, “A Praga Escarlate” (1912), de Jack London, é ambientado em um país que, 60 anos após uma epidemia, está devastado. O romance mostra que, por ter confiança de que os cientistas “encontrariam uma forma de contornar esse novo germe, assim como já haviam superado outros”, as pessoas ficaram tranquilas quando descobriram os primeiros contaminados pela praga.

    A descrição realista de London do medo causado pela “espantosa rapidez com que esse germe destruía os seres humanos” poderia parecer uma premonição, já que, seis anos após o lançamento do livro, a Gripe Espanhola mataria cerca de 50 milhões de pessoas.

    Essa suposta premonição que pode ser identificada em obras do gênero nada mais é do que um autor que imagina o futuro a partir de uma observação minuciosa da vulnerabilidade do presente.

    Há inúmeros exemplos de obras de ficção científica que retratam assuntos médicos, doenças fantásticas e futuristas criadas em laboratório, segundo Tavares. Entre elas, o autor destaca “O livro do juízo final” (1992), de Connie Willis, que mostra uma estudante de história que viaja no tempo até a Inglaterra medieval.

    “Embora vacinada contra a pandemia, ela vê seus novos amigos medievais morrerem um por um, enquanto na Inglaterra moderna [do futuro a que pertence a estudante] outra pandemia impede que os cientistas a tragam de volta. O retrato de Oxford no ano 2050, mais ou menos, sob quarentena é excelente, mostra que no futuro nossas necessidades e precauções - e nossas imprudências - não vão ser muito diferentes das de hoje”, afirma o escritor.

    Já em “A song for a new day” (uma música para um novo dia, em tradução livre), livro de Sarah Pinsker publicado em 2019, um vírus obriga as pessoas a se isolarem em suas casas e tudo passa a ser à distância: reuniões, aulas, compras, etc. A protagonista é uma jovem que já nasceu num mundo tomado por esse apocalipse, e frequenta apenas concertos em realidade virtual, até descobrir que podem existir concertos clandestinos.

    “Acredito que quem leu o livro antes da pandemia via esses concertos clandestinos de uma maneira, um ato de rebeldia. Ao lermos esse romance agora, esses shows soam como algo egoísta e irresponsável. É muito interessante como o momento histórico influencia a leitura de um romance”, afirmou Oliveira.

    Por que as pessoas recorrem ao gênero

    Leitores estão recorrendo à ficção científica por ela ser a única a retratar o mundo em grande escala e a única que fala da totalidade do presente, segundo Tavares. “A única que procura levar em conta, ao narrar uma história, em que pé está a ciência, em que pé está a política internacional, em que pé está a tecnologia, em que pé estão as lutas sociais.”

    Para Oliveira, a busca por um esclarecimento sobre o presente pode ser tanto acalentadora quanto assustadora. Segundo ele, a frase “é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo”, do crítico americano Fredric Jameson, diz muito sobre o estado das coisas, e os romances do gênero acabam sendo muito sintomáticos sobre isso.

    “Por mais que tentem imaginar um outro tipo de sociedade, um outro modo de produção, todos os escritores e escritoras - de qualquer gênero - esbarram em algo intransponível: nossa organização socioeconômica”, afirmou Oliveira. “Acho que a leitura da ficção científica nos dá, nem que seja momentaneamente, uma outra possibilidade de mundo.”

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