O caminho da tocha olímpica até Tóquio nos jogos da pandemia

A 120 dias do início do evento esportivo, organizadores precisam definir detalhes sobre quarentena de atletas estrangeiros e presença de torcedores japoneses nos estádios

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    O primeiro passo rumo à realização da Olimpíada de Tóquio foi dado nesta quinta-feira (25): iniciou-se o revezamento da tocha olímpica, o que marca a contagem regressiva para a abertura dos jogos, programada para o fim de julho. Ao longo dos próximos 120 dias, a chama cruzará as 47 províncias japonesas até chegar ao Estádio Nacional de Tóquio.

    A tocha partiu do centro esportivo J-Village, na província de Fukushima, no nordeste do arquipélago, um endereço escolhido por simbolizar a reconstrução do país após a sequência de desastres de 2011, quando a área foi duramente atingida por terremoto, tsunami e acidente nuclear. Com o lema “esperança ilumina nosso caminho”, a chama simbolizaria uma “luz no fim do túnel” para um futuro pós-pandemia.

    Foi devido à pandemia de covid-19 que a Olimpíada foi adiada de 2020. No calendário original, os jogos deveriam acontecer entre 24 de julho a 9 de agosto daquele ano. Agora, estão marcados para 23 de julho a 8 de agosto de 2021.

    O comitê organizador declarou diversas vezes que a Olimpíada ocorrerá em 2021, mas ainda há uma série de percalços e adaptações no caminho até Tóquio.

    A cerimônia da tocha, por exemplo, foi simplificada e realizada a portas fechadas e transmitida via internet. Nos trechos seguintes do trajeto, o público não foi proibido, mas foram definidas regras rígidas para quem quiser acompanhar presencialmente o revezamento: espectadores devem usar máscaras e não podem se aglomerar, gritar ou torcer alto.

    Qual o trajeto da tocha olímpica

    Dez mil pessoas vão carregar a chama olímpica, que passará por cerca de 98% do território do Japão. Em março, a tocha passará por cidades de Fukushima, Tochigi e Gunma. Em abril, será a vez de províncias como Nagano, Gifu, Aichi e Mie (onde vivem muitos brasileiros).

    Em maio, o percurso inclui marcos como Quioto (antiga capital do Japão), Hiroshima e Nagasaki (alvos das bombas atômicas na Segunda Guerra Mundial) e o extremo sul (Okinawa). Em junho, viajará ao extremo norte (Hokkaido). Ao longo de julho, passará pela ilha Ogassawara e outras cidades até se instalar em Tóquio.

    Incertezas da pandemia ainda rondam a realização da Olimpíada, o que levou personalidades japonesas a desistirem de participar do revezamento da tocha olímpica. Foi o caso de condutores convidados como os artistas Tori Watanabe, Takako Tokiwa, Takumi Saito e Hiroshi Itsuki.

    Em 3 de fevereiro, o Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Tóquio-2020, o COI (Comitê Olímpico Internacional) e o IPC (Comitê Paralímpico Internacional) lançaram um tipo de código de conduta para garantir a segurança e a saúde de atletas, delegações, jornalistas e demais envolvidos no evento como um todo. Espera-se que o manual seja atualizado em abril e em junho.

    Os organizadores definiram as seguintes recomendações para o revezamento:

    • evitar os “3C”: closed spaces (lugares fechados), crowded places (lugares lotados) e close-contact settings (contatos próximos)
    • usar máscara e manter distanciamento social (não foi definida a metragem de distância)
    • testagem regular e monitoramento diário da temperatura das equipes envolvidas
    • informar espectadores para não irem às ruas se estiverem se sentindo mal
    • informar espectadores para não gritar ou torcer
    • pedir a condutores da tocha para evitar atividades que envolvem risco de contágio de covid-19 durante duas semanas antes de sua participação e notificar centros caso se sintam mal ou suspeitem de infecção
    • pedir a condutores da tocha que residem em áreas sob estado de emergência para realizar testes PCR 72 horas antes de sua participação
    • medir a temperatura de condutores da tocha e recomendar que desinfetem as mãos e usem máscara

    “Estamos tomando medidas para descobrir como vamos superar essa barreira [a pandemia]. Com a cooperação de muitas pessoas, estamos conseguindo ter progresso em assegurar as instalações, em simplificar os Jogos e nas medidas contra a covid-19. Acreditamos que podemos entregar Olimpíadas seguras”, disse Toshiro Muto, CEO da Tóquio-2020.

    As dúvidas em torno da realização da Olimpíada

    Os organizadores não consideram a possibilidade de adiar a Olimpíada mais uma vez. Pesquisas realizadas por agências japonesas, entretanto, indicam que a maioria da população do país não gostaria que os Jogos acontecessem agora. Segundo uma das enquetes mais recentes, realizada pela NHK, cerca de 80% dos japoneses defendem adiar ou cancelar a edição do evento de vez.

    Dentro do Japão, a campanha de vacinação começou a passos lentos e, atualmente, está na casa de 80 mil vacinados por dia. Em 21 de março, o governo japonês suspendeu o estado de emergência de Tóquio e outras regiões.

    Em 20 de março, os organizadores divulgaram a decisão de proibir a entrada de turistas estrangeiros no país durante as competições, a fim de evitar contágios pelo novo coronavírus. Isso quer dizer que apenas torcedores japoneses e residentes estrangeiros poderão acompanhar ao vivo as disputas nos estádios – até agora, não foram divulgados detalhes sobre as regras de entrada nas arenas (como a quantidade permitida de espectadores nas arquibancadas).

    Pré-pandemia, foram vendidos quase 4,5 milhões de ingressos. Cerca de 600 mil ingressos vendidos no exterior serão reembolsados. Dos 8 mil voluntários estrangeiros inicialmente previstos, o país considera a possibilidade de permitir a entrada especial de 500.

    Fora do Japão, há outros percalços. Mais de 11 mil atletas de cerca de 200 países são esperados para as competições – e estar vacinado não será pré-requisito para participar delas, decidiu o comitê organizador. A imunização é encorajada, mas não obrigatória.

    Atletas e delegações estrangeiras deverão portar um teste PCR negativo 72 horas antes do embarque para o Japão. A depender do país de origem, os viajantes precisarão realizar um segundo teste ao desembarcar no arquipélago. Todos deverão ficar em quarentena por 14 dias (cujos detalhes ainda não foram divulgados) e devem apresentar exame negativo para covid-19 antes de entrar na Vila Olímpica.

    Atletas de determinados países enfrentam entraves na realização de torneios classificatórios. É o caso da delegação brasileira, dado que muitos países estão proibindo a entrada de brasileiros devido à crise instalada no país, o que afeta a participação e o planejamento das equipes, reportou o jornal Folha de S.Paulo.

    Desde o início da pandemia até 24 de março, o Japão contabiliza 460 mil casos e cerca de 9 mil mortes por covid-19. O Brasil, que atravessa um dos piores momentos da crise, conta 12 milhões de casos e 300 mil mortes.

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