O cenário trágico nos hospitais do Brasil que chega a 300 mil mortos

País ultrapassa marca em meio ao descontrole da pandemia. Sobrecarregado, sistema de saúde enfrenta a falta de leitos, medicamentos e profissionais treinados

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A marca de 300 mil mortes pela covid-19 no Brasil, ultrapassada na quarta-feira (24), foi atingida em meio a um cenário de colapso sanitário no país. Pacientes, familiares e trabalhadores da saúde relatam cenas trágicas nos hospitais e preocupação com a escassez de leitos de UTI, profissionais treinados, medicamentos e insumos essenciais para os doentes graves, como oxigênio.

Entre os relatos, há desde pacientes que morrem no chão de hospitais à espera de uma maca a doentes que acordam durante a intubação por falta de sedativo, assustados com o cano que vai da boca até o pulmão.

O contágio no Brasil está acelerado, e a saturação e as carências do sistema de saúde público e privado em todo o país acabam provocando mais mortes. No estado de São Paulo, por exemplo, doentes de covid-19 que estão na UTI estão morrendo mais rapidamente no primeiro trimestre de 2021 na comparação com o trimestre anterior.

Dados do Centro de Contingência do Coronavírus e da Secretaria Estadual de Saúde mostram que o tempo médio de internação de um paciente com covid-19 até sua morte caiu de 14,1 para 10,7 dias. Segundo a Folha de S.Paulo, isso acontece por culpa da demora no acesso à terapia intensiva, causada pela lotação das UTIs.

“Colapso não é morrer na rua. É um hospital que não consegue atender politraumatismos, infartos e agudização de doenças crônicas”

Ligia Bahia

sanitarista da Universidade Federal do Rio de Janeiro ao jornal O Globo.

O Nexo lista abaixo relatos que ilustram os problemas causados pelo agravamento da crise sanitária no país.

Falta de leitos de UTI

As vagas de UTI acabaram em três estados do país e outros 14 registram mais de 90% de ocupação nos hospitais, segundo levantamento do jornal O Globo na quarta-feira (24). Acre, Rondônia e Mato Grosso do Sul têm taxas de ocupação dos leitos superiores a 100%. Com índice acima de 90% estão: Amapá, Ceará, Distrito Federal, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Paraná, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo.

No Paraná, mais de 900 pessoas esperam na fila por um leito de UTI. Em 2021, o estado registrou a morte de 1.110 pessoas com covid-19 que aguardavam por um leito. Na terça-feira (23), 767 pessoas esperavam uma vaga na UTI para covid-19 na região metropolitana de São Paulo.

No dia 13 de março aconteceu a primeira morte de um paciente que aguardava uma vaga na UTI na capital paulista. Renan Cardoso, de 22 anos, morreu em uma Unidade de Pronto Atendimento de São Matheus, zona leste da cidade. Segundo a prima de Renan, sem leito nem maca disponíveis, o jovem esperou em uma cadeira de rodas. Na quarta-feira (24), onze dias depois da morte do filho, o pai de Renan, Valmírio Lopes Cardoso, de 49 anos, também esperava na fila por uma vaga de internação num hospital de São Paulo.

Em Teresina, no Piauí, um paciente morreu no chão de uma unidade de pronto-atendimento. Com problemas respiratórios, ele teve uma parada cardíaca e foi atendido no piso do local, que tinha todas as salas e leitos extras ocupados.

Falta de profissionais treinados

O Piauí também sofre com a falta de intensivistas, segundo a Sociedade de Terapia Intensiva do estado. Sem tempo hábil para a formação desses profissionais, que atuam na linha de frente no combate à pandemia, a entidade prevê um aumento na taxa de mortalidade por covid-19.

Segundo o comunicado da sociedade, sem uma equipe especializada trabalhando nos leitos de emergência, a taxa de mortalidade pode chegar a 80% — quando os profissionais são devidamente treinados, essa taxa varia entre 20% e 40%.

No Distrito Federal, dentistas e anestesistas foram convocados a atender pacientes com covid-19, segundo documento assinado por Petrus Leonardo Barrón Sanchez, secretário-adjunto de Assistência à Saúde, na segunda-feira (22). A escassez de profissionais habilitados para atender os doentes transformou o cenário das unidades de saúde, que têm corpos no chão à espera da remoção.

Falta remédios para UTIs

Medicamentos usados na internação de covid-19 também estão em falta no Distrito Federal. Na quarta-feira, 18 remédios usados na UTI acabaram, segundo a Secretaria de Saúde. São remédios utilizados para a intubação e para o alívio de dores agudas.

Em São Paulo, profissionais de saúde relataram ao UOL que pacientes estão acordando durante intubação por culpa do racionamento de medicamentos. Com menos sedativos, os doentes acordam assustados com a situação e acabam se machucando ao tentar tirar o aparelho do corpo.

No dia 17 de março, Maria Vanda Avelino de Souza morreu na unidade de pronto-atendimento Julio Tupy, na zona leste paulistana, devido à falta de medicamentos. Ela foi internada em 10 de março e entubada no dia 13. A unidade estava sem betabloqueadores, que ajudam na estabilidade do paciente entubado.

O estoque de oxigênio também é alarmante em 13 estados, segundo ofício do Ministério da Saúde à Procuradoria-Geral da República. A situação é “preocupante” em seis estados, outros sete estão em “estado de atenção”.

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