A queda das doações na pandemia. E os caminhos para ajudar

Ritmo caiu com o passar dos meses. No pior momento da crise sanitária no Brasil, ONGs e associações pedem ajuda

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Após o anúncio da pandemia do novo coronavírus pela OMS (Organização Mundial da Saúde) em março de 2020, o Brasil viveu um boom de doações, destinadas ao enfrentamento da crise sanitária e econômica.

No final de maio, o crescimento do volume de dinheiro da filantropia começou a desacelerar e se estagnou desde então, de acordo com dados do Monitor de Doações da Associação Brasileira de Captadores de Recursos. Desde o início da pandemia, empresas, ONGs e a sociedade civil doaram cerca de R$ 6,3 bilhões para causas ligadas à covid-19.

Em 2021, o volume de doações não está acompanhando o avanço da doença no país e seus efeitos socioeconômicos, agravados pelo fim do auxílio emergencial na virada do ano.

O benefício, pago pelo governo federal, deve retornar em abril, mas com um valor reduzido e com um menor número de pessoas contempladas.

Diante de tal cenário, ONGs e associações pedem ajuda, e lançam ou relançam campanhas de doações, tentando fazer aumentar o volume da filantropia no país.

A filantropia no Brasil

No Brasil, a cultura da doação não é tão consolidada quanto em outros países. Um índice montado pela CAF (Charities Aid Foundation, ou Fundação de Ajuda para Caridades) comparou as doações feitas em 126 países, usando como critérios três tipos de ação: ajuda a estranhos, doação de dinheiro e tempo de voluntariado. Foram usados dados de 2010 a 2019.

O Brasil ficou em 74° lugar no índice final, que engloba todos os critérios. Separando as três frentes, o país fica na 63ª posição em ajuda a estranhos, em 67º em doação de dinheiro e em 84º em tempo de voluntariado. Ou seja, o Brasil fica na metade mais baixa do índice em todos os critérios considerados pela organização.

O primeiro lugar geral do ranking é ocupado pelos EUA, seguido de Myanmar e Nova Zelândia. A China é o país com a pior colocação entre os 126.

A cada dois anos, o Gife (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas), uma associação de investidores sociais brasileiros com mais de 150 membros, realiza uma pesquisa com seus filiados para traçar um panorama da quantidade e destinos de doações feitas no país. Participam do Gife empresas, institutos e fundações empresariais, familiares e independentes que alocam dinheiro privado para projetos sociais. Os valores ficam, anualmente, na casa dos bilhões. Os dados mais recentes são de 2018.

O próprio Gife reconhece na publicação do censo de 2018 que as doações sofreram os impactos negativos da recessão brasileira de 2014 a 2016, e também da instabilidade política do país na segunda metade da década de 2010.

Os dados do Gife mostram que a filantropia no Brasil chega a uma parcela muito pequena do PIB (Produto Interno Bruto) – não representa nem 0,5% do indicador. Para efeito de comparação, nos EUA, a filantropia representou 2% do PIB do país. Este dado vai na mesma direção do ranking elaborado pela CAF (Charities Aid Foundation), que mostra que o Brasil ainda está distante dos líderes mundiais de filantropia.

Os dados do Gife mostram que quase três quartos dos recursos totais destinados a investimentos sociais vêm de empresas e fundos filantrópicos (os chamados endowments). O restante vem de grupos familiares, mensalidades de associações e diversas outras fontes. A filantropia institucional, feita pela pessoa jurídica, portanto, é predominante no Brasil.

A educação é o destino prioritário dos recursos entre os que responderam ao censo do Gife de 2018. A área foi mencionada como um dos destinos de interesse em 80% das respostas, seguida por programas de geração de trabalho e renda e pela área de cultura e lazer. A saúde foi a décima área mais mencionada em 2018.

O cenário em 2021

Entre janeiro e fevereiro de 2021, foram doados R$ 19 milhões para causas ligadas à covid-19, segundo a Associação Brasileira de Captadores de Recursos. A quantia representa 0,02% do Produto Interno Bruto do país em 2020.

O volume, relativamente baixo, foi registrado no pior momento da pandemia, quando o Brasil registra recordes diários de novas infecções e mortes, além de uma taxa lenta de vacinação.

Em aspectos socioeconômicos, a pandemia trouxe um alto índice de desemprego – 13,9%, com um aumento de 2,9% em comparação com 2019, fator que deve fazer aumentar o número da população de rua do país.

Um estudo publicado pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) estimava que em março de 2020, o Brasil contava com cerca de 222 mil pessoas vivendo nas ruas.

De acordo com Marco Natalino, pesquisador do Ipea, o número cresceu. “Sabemos que o número está mais alto e vinha crescendo”, afirmou à CNN Brasil em janeiro, sem apresentar os dados, que ainda estão sendo contabilizados.

"É surpreendente ver o quanto está crescendo a população em situação de rua desde 2015, que foi quando eu fiz a primeira estimativa. Eu já tinha a hipótese que a crise econômica, o desemprego e a falta de oportunidade no geral, principalmente nas grandes metrópoles, geraria essa situação de aumento, mas foi além do que eu estava imaginando“, afirmou.

Dados empíricos também apontam um aumento na população de rua em decorrência dos efeitos da pandemia.

"Só no centro de convivência da entidade conveniada na Mooca, onde eu acompanho mais, antes da pandemia, 4.000 pessoas passavam por lá pela primeira vez a cada mês. Durante a pandemia, esse número foi para 8.000”, afirmou, também à CNN, o padre Júlio Lancelotti, responsável por obras de assistência social na capital paulista.

A fila da marmita só tem aumentado”, afirmou ao Estadão em 16 de março o ativista Gilson Rodrigues, um dos líderes da comunidade de Paraisópolis, zona sul de São Paulo.

“Com a falta de doações, alguns dias não tem arroz ou feijão. Não tem carne, só salsicha e ovo. Tem dias que dá até briga na fila. Brigar por comida é uma coisa muito triste. A realidade aqui é muito pior. No home office, as pessoas acham que a fome está distante. Vivemos um momento de pouca solidariedade”, disse.

Caminhos para ajudar

Diante desse cenário, ONGs e associações pedem ajuda para mitigar parcialmente os efeitos da pandemia em quem mais precisa.

O site Bora Doar reúne, em um só local, informações sobre campanhas de diversas partes do país. A plataforma mostra iniciativas de assistência social e de doação para hospitais e entidades ligadas à saúde.

Há algumas campanhas maiores, como o Tem Gente com Fome, idealizada por oito instituições – incluindo a Anistia Internacional e a Coalizão Negra Por Direitos – que busca doar cestas básicas em todo o país.

Os valores de doação vão de R$ 10 a R$ 5.000, e podem ser feitas pelo site da campanha, com o uso de cartão de crédito, boleto bancário, depósito em conta, PayPal ou Pix.

No Instagram, o padre Júlio Lancelotti também promove uma campanha contra a fome. As doações podem ser feitas por Pix e depósito bancário. Os dados estão no site e nas redes sociais do pároco.

Localmente, você pode procurar por associações e grupos de moradores do seu bairro para saber se há alguma campanha nas redondezas.

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