A pressão sobre o governo no Brasil de 3.251 mortos num dia

Num cenário que só se agrava, cobranças do Congresso e de empresários aumentam. Em pronunciamento na TV, Bolsonaro mente e distorce informações sobre sua atitude na pandemia

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Os dados oficiais saíram à noite: o Brasil bateu mais uma vez o recorde diário de mortes por covid-19 na terça-feira (23). Pela primeira vez desde o início da pandemia, o número superou a casa dos 3.000 óbitos em 24 horas. Foram 3.251 vítimas segundo os dados oficiais do Ministério da Saúde. Foram 3.158 segundo o consórcio de veículos de imprensa, que também realiza a contagem.

Momentos depois, o presidente Jair Bolsonaro estava em rede nacional de rádio e TV. Sob panelaços em diversas capitais, o presidente tentou colar a própria imagem na vacinação. Num discurso de poucos minutos, disse que sempre foi favorável à compra de qualquer imunizante desde que aprovado pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), o que não é verdade. Destacou que o país é o 5º no mundo que mais aplicou vacina, mas omitiu que, no cálculo proporcional à população, está dezenas de posições atrás. Ressaltou a compra e a produção de novas doses, mas não comentou a lentidão da vacinação.

6,04%

era a porcentagem dos brasileiros que receberam ao menos uma das duas doses de vacina contra covid-19, segundo dados do consórcio de imprensa de 23 de março, sendo que apenas 2,05% haviam recebido as duas

O presidente não citou as medidas adotadas por governadores e prefeitos para reduzir a circulação da população. Horas antes, o ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal, havia negado o pedido do governo federal para derrubar os decretos de três estados que vem adotando o isolamento social como forma de conter a disseminação do novo coronavírus.

“Quero tranquilizar o povo brasileiro e afirmar que as vacinas estão garantidas. Ao final do ano, teremos alcançado mais de 500 milhões de doses para vacinar toda a população. Muito em breve retomaremos nossa vida normal. Solidarizo-me com todos aqueles quem teve perdas em suas famílias”

Jair Bolsonaro

presidente da República, durante pronunciamento em 23 de março

Ao defender a vacinação e ignorar as quarentenas, Bolsonaro buscou atenuar uma imagem construída ao longo de ano de crise sanitária, durante o qual minimizou e desdenhou a gravidade da pandemia, aglomerou pessoas em eventos oficiais pelo Brasil, sabotou o isolamento em prol da economia, questionou sem base científica o uso de máscaras, defendeu e financiou medicamentos sem eficácia, desestimulou e atrasou a vacinação da população e até incentivou a invasão de hospitais sob a falsa alegação de que eles estariam vazios.

A pressão sobre Bolsonaro vem crescendo na segunda metade de março de 2021, mês em que o Brasil se tornou o epicentro mundial da doença, com recordes seguidos nos números de casos e mortes. O país vive a maior crise sanitária da história. Quase todos os estados registram situação crítica de ocupação de UTIs. Há registro de mortes de pacientes na fila por leitos, num cenário de iminente crise humanitária que inclui escassez de remédios para intubar pacientes.

Na manhã da terça (23), Bolsonaro empossou o médico Marcelo Queiroga como o novo ministro da Saúde, o quarto desde o início da pandemia, em cerimônia fechada e sem divulgação para a imprensa. A saída do antecessor, o general Eduardo Pazuello, investigado pela crise de falta de oxigênio em Manaus no início do ano, foi vista também como um movimento para tentar evitar mais cobranças.

Nesta quarta-feira (24), o presidente fez uma reunião com os presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG) e do Supremo, Luiz Fux, que definiu a criação de um comitê para coordenar o combate à covid, junto com governadores e o Congresso. A medida tenta responder à pressão que vem do Congresso, de economistas, empresários e banqueiros e da própria população, cuja rejeição à gestão federal na pandemia bateu recorde: 54% dos brasileiros reprovam a maneira como Bolsonaro conduz a crise, segundo o Datafolha.

A pressão dos aliados no Congresso

As pressões sobre o governo no Congresso aumentaram devido à atuação de Pazuello. O general da ativa se desgastou no cargo devido a falhas na condução da crise sanitária em Manaus, que registrou mortes de pacientes por falta de oxigênio, e pela demora na compra de vacinas contra a covid-19.

Políticos do bloco do centrão, que dá sustentação ao governo, passaram a defender o nome da também cardiologista Ludhmila Hajjar para substituí-lo. O presidente da Câmara escreveu em seu Twitter que ela tinha “capacidade técnica e de diálogo político com os inúmeros entes federativos e instâncias técnicas”.

Contrária à prescrição de medicamentos ineficazes contra a covid-19 e favorável a medidas de distanciamento social, a médica foi atacada por apoiadores do presidente nas redes sociais. Ela se reuniu duas vezes com Bolsonaro e disse não ter aceitado as condições impostas.

O presidente escolheu Queiroga, que apoiou sua campanha à presidência. Após ser anunciado, o médico participou de eventos ao lado de Pazuello e indicou apoio à política do governo. Disse que o lockdown é uma medida restrita a situações extremas, evitou se posicionar sobre o uso de remédios ineficazes, defendendo a autonomia de médicos para prescrever medicamentos fora do que diz a bula, e afirmou que daria continuidade às ações de seu antecessor.

“A política é do governo Bolsonaro. A política não é do ministro da Saúde. O ministro da Saúde executa a política do governo”

Marcelo Queiroga

ministro da Saúde, depois de ter sido anunciado para o cargo

Lira não gostou da escolha. Segundo o jornal Folha de S.Paulo, devido à demora na posse — demorou uma semana entre o anúncio e a efetivação —, o centrão chegou a sugerir que a nomeação fosse reconsiderada e indicou para o cargo os deputados federais Luiz Antonio Teixeira Jr. (PP-RJ), o Doutor Luizinho, e Ricardo Barros (PP-PR).

Na manhã de segunda-feira (22), o presidente do Senado, que vem sendo pressionado a abrir uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) para investigar as ações do governo na pandemia, criticou o negacionismo, que segundo ele “passou a ser uma brincadeira de mau gosto, macabra e medieval”.

“Não será uma minoria desordeira e negacionista que fará pautar o povo brasileiro e o Brasil nesse momento que nós precisamos de união”, afirmou Pacheco, sem citar diretamente Bolsonaro.

Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo na segunda-feira (22), o senador Ciro Nogueira (PP-PI), um dos líderes do centrão, disse que Bolsonaro “perdeu a narrativa da vacina” e criticou a demora para a posse do novo ministro, mas disse que seu partido estará com o presidente em 2022 e que ele deverá se beneficiar politicamente da vacinação.

A pressão de economistas e banqueiros

Bolsonaro também passou a sofrer pressão de economistas, empresários e banqueiros, muitos dos quais apoiam a política econômica do ministro Paulo Guedes. No domingo (21), mais de 500 pessoas que atuam na área divulgaram uma carta aberta cobrando do governo medidas para combater a pandemia.

O documento faz um apelo por ações guiadas por evidências científicas. Ao longo de segunda-feira (22), a carta continuou a receber assinaturas e superou 1.500 nomes.

Em entrevista à jornalista Renata Lo Prete, que foi ao ar na terça-feira (23), no podcast “O Assunto”, do G1, Pérsio Arida, ex-presidente do BNDES, ex-presidente do Banco Central e um dos signatários do documento, disse que a sensação do grupo é de “desespero diante da inércia governamental”. “É desesperador ver imagens de pessoas morrendo por falta de oxigênio, por falta de atendimento. Poderia ter sido perfeitamente evitado se não fosse a postura desse governo”, afirmou.

Para ele, negar a gravidade da pandemia é o pior que pode acontecer do ponto de vista humanitário e econômico. Arida classificou o governo como incompetente na tentativa de gerenciar a crise e disse que, se ela persistir, sem uma mudança de rumo, além do colapso econômico e da “mortalidade sem precendentes”, o governo deverá perder legitimidade política.

“Se esse governo fosse racional, deveria fazer uma ‘meia volta volver’: reconhecer sua culpa e passar a agir como recomendado pela ciência para preservar vidas e estimular a atividade econômica. Evitaria também perder legitimidade política, que vai perder se seguir nesse caminho”

Pérsio Arida

economista, em entrevista ao podcast ‘O Assunto’, do G1

A pressão dos políticos de oposição

Bolsonaro tem dado sinais de mudança em seu comportamento em relação à pandemia depois que o ministro Edson Fachin, do Supremo, anulou no começo de março todas as condenações do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, algo que abriu caminho para que o petista possa se candidatar ao Palácio do Planalto em 2022

Em 10 de março, Lula fez um discurso criticando o governo federal em relação à pandemia e dizendo que a população deveria ignorar o presidente. No mesmo dia, Bolsonaro apareceu num evento usando máscara, algo raro até então, e seus filhos passaram a divulgar imagens que diziam que a “arma” do governo contra o coronavírus é a vacina.

Pesquisas de intenção de voto também começaram a mostrar que Lula supera Bolsonaro em potencial de votos, num cálculo que leva em conta em quem o eleitor votaria com certeza e em que poderia votar. O petista também tem uma rejeição menor que a do presidente.

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