A União Europeia de volta aos lockdowns na 3ª onda da pandemia

Países-membros do bloco adotam novas medidas restritivas rigorosas para tentar conter novo pico de disseminação da covid-19, enquanto vacinação patina

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Os casos de contaminação pela covid-19 nos países da Europa cresceram 12% na última semana de fevereiro de 2021, em comparação com a semana anterior. O crescimento foi maior que os 8% de crescimento registrados na média do restante do mundo no mesmo período, de acordo com a epidemiologista americana Maria Van Kerkhove, do Programa de Emergência da OMS (Organização Mundial da Saúde).

O dado mostra a reversão de uma tendência de melhora no continente. Os casos de covid-19 vinham caindo na Europa no início de 2021, como resultado de uma série de medidas restritivas adotadas anteriormente. Foram seis semanas seguidas de queda, mas a aproximação do mês de março mudou as estatísticas para pior. Como resposta, novas medidas restritivas estão sendo adotadas em vários países europeus.

O crescimento das contaminações e mortes já é chamado de “terceira onda”. O nome corresponde ao desenho da oscilação nos gráficos – onde a linha que corresponde ao registro de novos casos desce quando são adotadas medidas de contenção, como o lockdown, mas volta a subir uma vez que essas medidas são relaxadas.

Picos de novos casos

Gráfico mostra evolução dos casos de contaminação por covid-19 na União Europeia

O movimento de onda é esperado. Medidas muito duras de isolamento, como as adotadas na Europa, têm um alto custo econômico e social. Por isso, não são mantidas indefinidamente. A estratégia de restringir e liberar os movimentos, de maneira alternada, é uma forma de mitigar os piores momentos da pandemia, evitando o colapso do sistema de saúde, enquanto a imunização não deslancha.

Nesta terceira onda, além do relaxamento das medidas de contenção após o fim da segunda onda, há ainda a suspeita de que a disseminação da variante britânica do vírus (chamada B.117), que tem maior poder de contaminação, também esteja ligada ao crescimento entre os países-membros da União Europeia.

Qual a escala de grandeza

Para efeito de comparação, a situação da pandemia na União Europeia, embora seja grave, é, ainda assim, proporcionalmente, melhor que no Brasil.

Os 27 países-membros do bloco registraram média de 31,6 novos casos de covid-19 por 100 mil habitantes em 17 de março de 2021. Na mesma data, o Brasil registrava 34,1 novos casos por grupo de 100 mil habitantes. A data corresponde à última compilação da média móvel de sete dias disponibilizada pela União Europeia.

O Brasil ultrapassou a União Europeia no registro de novos casos diários da doença em 10 de fevereiro e, desde então, essa situação se mantém. Em relação às novas mortes diárias, a desvantagem do Brasil é ainda maior, quando comparados os dados em relação a grupos de 100 mil habitantes.

Até 21 de março, a União Europeia acumulava um total de 132,2 mortes por grupo de 100 mil habitantes, enquanto, no Brasil, na mesma data, eram 139,3 mortes acumuladas por cem mil habitantes.

Os 27 países-membros da União Europeia somam uma população de 447 milhões de pessoas. O Brasil tem menos da metade disso – são quase 212 milhões de habitantes. Em relação ao número absoluto de mortos, o Brasil soma mais de 295 mil, contra mais de 500 mil mortos na União Europeia no mesmo período.

A fase ‘mais perigosa’ da pandemia

França, Alemanha, Espanha e Itália estão entre as grandes economias do bloco que se viram forçadas a adotar novas medidas restritivas diante do novo aumento dos casos de contaminação e morte.

A chanceler alemã, Angela Merkel, descreveu a situação em seu país como “muito séria”. De acordo com ela, a transmissão do vírus está crescendo exponencialmente e pode ficar fora de controle se a população não entrar em lockdown novamente.

O governador da região alemã da Bavária, Markus Söder, disse ter a impressão de que seu país viverá só agora “a fase mais perigosa da pandemia”, daí a necessidade de impor novo lockdown.

A palavra lockdown se refere às formas mais estritas de quarentena, nas quais a circulação das pessoas é reduzida ao mínimo indispensável e todo comércio não essencial (que não seja ligado à venda de comidas, remédios e combustível) fica fechado. As violações a essas normas são punidas com multa em muitos países. No caso da França, reincidentes podem ser condenados até mesmo à prisão.

Com exceção do Reino Unido, onde a vacinação avança mais rápido, todos os outros países europeus lidam de alguma forma com novas restrições para tentar conter a terceira onda.

As medidas de contenção

Na Alemanha, as reuniões com mais de cinco adultos estão proibidas entre 1º a 5 de abril, período do feriado de Páscoa. Depois, perduram medidas restritivas para bares, restaurantes e locais culturais, com a manutenção do trabalho remoto até 18 de abril. Só o comércio alimentício ficará aberto nesse período. As igrejas não podem funcionar.

Na França, 16 regiões do país, incluindo a que engloba a capital, Paris, estão em lockdown, com imposição de multa para quem violar a norma, e até pena de prisão. O governo tenta calibrar as medidas de restrição, evitando a todo custo um lockdown nacional.

A Universidade de Oxford desenvolveu uma tabela de classificação para medir a intensidade das medidas restritivas adotadas pelos países, com uma régua que vai de 0 (para nenhuma restrição) a 100 (para lockdown total). Itália, Portugal e Alemanha ficam na faixa entre 75 e 85. França e Espanha, entre 50 e 75.

A lentidão da vacinação

A terceira onda atinge uma Europa que via na vacinação um horizonte próximo de recuperação sanitária, social e econômica. Mas o avanço da imunização foi lento, o que frustrou as expectativas de relaxamento das medidas de contenção.

O caos mais claro é o do Alemanha, onde o governo planejava anunciar o relaxamento das medidas para o feriado de Páscoa, que pega o final de semana de 3 e 4 de abril, mas, ao contrário: Merkel se viu forçada a dar um giro de 180º e anunciar novo confinamento.

“Os países estão se agarrando em qualquer coisa, pensando que vacinar é a ‘a bala de prata’ contra a pandemia. Lamento, mas não é", disse o diretor de emergências da OMS, Michael Ryan, ao reforçar que as medidas de contenção ainda são necessárias.

A campanha de vacinação está atrasada em toda a União Europeia. Isso ocorre por problemas contratuais com a AstraZeneca, responsável pela produção da vacina de Oxford, pela desconfiança do público europeu em relação às vacinas e também por problemas logísticos existentes no interior de cada país, além do fato de autoridades sanitárias de alguns países terem colocado em dúvida a segurança e a eficácia do imunizante, dizendo que ele poderia produzir casos de embolia e trombose.

A União Europeia deve proibir a AstraZeneca de seguir exportando doses da vacina de Oxford produzidas nas fábricas que estão localizadas dentro da União Europeia, enquanto a vacinação entre os países-membros do bloco não avançar.

O recado foi dado pela chefe do órgão executivo da União Europeia, a alemã Ursula von der Leyen: "Essa é uma mensagem à AstraZeneca: vocês cumpram completamente seus contratos com a Europa antes de começar a entregar suas vacinas a outros países."

Os chefes de Estado dos países-membros da União Europeia têm encontro virtual marcado para esta quinta-feira (25), quando é esperado o anúncio de medidas duras para acelerar a vacinação – entre elas o veto à exportação de novos doses para fora da região, o que pode tensionar as relações com o Reino Unido, país que abandonou a União Europeia em janeiro de 2021, e onde a vacinação avança rapidamente, graças a doses da vacina de Oxford que são produzidas em fábricas localizadas na Europa continental e exportadas para os britânicos.

Como mostra o gráfico abaixo, a vacinação na União Europeia é mais lenta do que Israel, Chile, Reino Unido e EUA, mas avança duas vezes mais rápido que no Brasil.

Vacinação

Gráfico compara ritmo da vacinação entre países-membros da União Europeia e outros países

Com a crista da terceira onda se formando e o programa de vacinação patinando, líderes como o presidente da França, Emmanuel Macron, tentam recuperar o tempo perdido. “Não haverá fim de semana, não haverá feriado nessa batalha. Temos de vacinar todos os dias”, disse o presidente francês a profissionais de saúde num posto de vacinação, em vídeo que foi reproduzido em suas redes sociais nesta terça-feira (23).

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