A falta de dados sobre o uso da proxalutamida contra a covid-19

Redes bolsonaristas propagam remédio chinês testado inicialmente para câncer de próstata. Estudo sobre efeito contra o novo coronavírus ainda não foi publicado

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Apoiadores do presidente Jair Bolsonaro vêm divulgando nas redes sociais uma nova cura milagrosa” contra a covid-19 sem que haja testes conclusivos sobre a medicação. É a proxalutamida, um antiandrogênico (bloqueador de testosterona) pela farmacêutica chinesa Kintor que vinha sendo testado inicialmente para tratamento contra o câncer de próstata.

Um vídeo publicado em 11 de março no canal de YouTube do Grupo Samel, operadora de planos de saúde do estado de Amazonas, afirma que um estudo clínico mostrou alta eficácia do remédio na prevenção de mortes em pacientes graves em comparação a indivíduos que haviam ingerido placebo.

A pesquisa é uma parceria entre o Grupo Samel e a empresa americana de biotecnologia Applied Biology, especializada em medicamentos contra doenças capilares. No entanto, ela ainda não foi disponibilizada como artigo em nenhuma publicação científica nem foi revisada por cientistas independentes, passos importantes do método científico.

De acordo com a CNN Brasil, a aprovação do uso emergencial do remédio foi assunto em um almoço no Palácio do Planalto promovido por Bolsonaro para tratar da sucessão no Ministério da Saúde: o general Eduardo Pazuello está de saída para dar lugar ao médico Marcelo Queiroga. Na mesa também estava o presidente da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), Antônio Barra Torres. Segundo a apuração de bastidores da CNN Brasil, técnicos da agência devem se reunir com os fabricantes do medicamento em breve.

Dois dos autores do estudo, Flávio Cadegiani e Ricardo Zimerman, já apoiaram o “tratamento precoce” defendido pelo governo Bolsonaro, tratamento que não tem eficácia contra a covid-19. Zimerman chegou a viralizar com um vídeo em que recomendava remédios como a ivermectina, nitazoxanida e bromexina. Nenhum deles funciona contra a doença que já matou quase 300 mil brasileiros.

A falta de informações sobre o estudo

Como o estudo ainda não foi publicado, o que existe até agora de informação foi extraído de slides apresentados no vídeo do lançamento do trabalho. Não há detalhes, por exemplo, sobre a metodologia aplicada.

“Toda pesquisa para descobrir tratamento contra a covid-19 é válida, entretanto ela precisa ser publicada numa revista de alto impacto científico para que seus dados sejam analisados pelos pares e se verifique sua eficácia”, afirmou ao Nexo Julival Ribeiro, da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia).

Pesquisadores observam que, sem ter acesso à íntegra do estudo, dados importantes permanecem desconhecidos. “Não dá para saber qual foi o tratamento base, isso é, se além da proxalutamida, os pacientes receberam corticóide, qual foi o tipo de uso do oxigênio ou qualquer outro tipo de intervenção. Sem saber o que os participantes de cada grupo receberam nos 12 hospitais diferentes, é impossível analisar se o efeito de fato foi pelo uso da proxalutamida", avaliou Alexandre Naime, infectologista e professor da Unesp (Universidade Estadual Paulista), ao UOL.

Segundo as informações da apresentação exibida, o ensaio clínico que embasa o estudo contou com 590 participantes em 12 hospitais de 9 municípios do estado do Amazonas. Desse total, 294 pessoas teriam sido tratadas com proxalutamida e 296 teriam recebido um placebo. Entre as pessoas envolvidas na pesquisa, de acordo com o vídeo, 96% e 97% “precisavam de oxigênio continuamente”.

Outro slide informa que foi obtida uma redução de 92% na mortalidade dos pacientes que ingeriram a proxalutamida. Entre as conclusões divulgadas pelos autores do estudo está que o medicamento reduziu significativamente o tempo de internação hospitalar e freou a progressão da covid-19.

Ao jornal O Estado de S. Paulo um dos autores do estudo disse que o remédio inibe a produção da enzima TMPRSS2, facilitadora da entrada do vírus na célula humana. Sem essa ajuda, as chances de infecção ficariam reduzidas, de acordo com Carlos Wambier, professor assistente do Departamento de Dermatologia da Universidade de Brown, nos EUA.

Wambier, no entanto, ressaltou que os responsáveis pelo estudo em nenhum momento confirmam que a proxalutamida seja uma “cura” para a covid-19, conforme alardeado em publicações nas redes sociais de perfis bolsonaristas. O pesquisador também defendeu mais investigações com o medicamento para que sua ação seja verificada em grupos populacionais diversos e com relação a variantes da covid-19. Ele afirmou que o grupo pretende submeter o trabalho ao New England Journal of Medicine, prestigiosa publicação científica americana.

A lista de remédio sem comprovação

O remédio se junta a uma longa lista de soluções contra a covid-19 disseminadas por Bolsonaro e seus apoiadores. Os mais conhecidos são a cloroquina e a hidroxicloroquina, substâncias usadas para o tratamento de doenças como malária e lúpus.

Desde que o presidente começou a defender esses medicamentos, em março de 2020, pelo menos dez ensaios clínicos em diferentes países demonstraram que os remédios não melhoram o quadro da pessoa infectada com covid-19 nem servem como tratamento preventivo contra a doença.

Bolsonaro não desiste. Na sexta-feira (19), em uma entrevista ao vivo a uma rádio de Camaquã (RS), o presidente defendeu a “nebulização da hidroxicloroquina” como procedimento contra a covid-19.

A ideia de que existe um tratamento precoce contra a covid-19, adotada oficialmente pelo Ministério da Saúde em julho de 2020, não tem qualquer respaldo científico. A OMS (Organização Mundial da Saúde) não reconhece qualquer tipo de medida profilática contra a covid-19.

O receituário bolsonarista anticovid inclui ainda a ivermectina, um vermífugo, e a azitromicina, desenvolvido para tratar de infecções bacterianas. Ambos costumam fazer parte do kit do tratamento precoce, mas até agora nenhum estudo conseguiu comprovar qualquer eficácia das substâncias contra a covid-19.

Mais recentemente, bolsonaristas passaram a defender um spray nasal desenvolvido em Israel. Chamado EXO-CD24, o medicamento foi originalmente criado para tratamento contra o câncer de ovário. Em um primeiro teste com 30 pessoas, o spray mostrou potencial de frear o processo inflamatório intenso que acontece no pulmão devido a uma resposta desregulada do sistema imunológico à invasão do vírus.

No domingo (21), Israel e Nova Zelândia autorizaram a venda de um spray nasal contra a covid-19 fabricado pela SanOtize. Não é o mesmo produto almejado por Bolsonaro. O governo de vocês está negociando o tratamento errado. [O spray da] SaNOtize é diferente, muito mais avançado [no desenvolvimento] e com resultados mais fortes que o EXO-CD, afirmou à CNN brasileira a assessoria da fabricante SaNOtize.

Até agora, o único procedimento com ação comprovada contra o novo coronavírus tem sido a vacina. Em dois meses e meio de campanha de imunização, 5,5% da população havia tomado uma das duas doses necessárias e apenas 2% haviam recebido as duas doses, segundo dados de domingo (21) levantados pelo consórcio de veículos de imprensa.

Ao Nexo Julival Ribeiro, da SBI, lembrou que é preciso evidências científicas para prescrever um remédio novo para qualquer doença. Além disso, é necessário que ele tenha sido aprovado pela Anvisa para esse fim. “Qualquer medicamento pode ter efeitos colaterais, ainda mais se ele não é para a doença para qual foi desenvolvido”, alertou.

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