A campanha contra discurso de ódio a asiáticos na pandemia

‘Stop Asian Hate’ foi o mote de manifestações convocadas após massacre de mulheres de origem asiática nos EUA. Ativistas argumentam que caso deve ser analisado no contexto da onda de xenofobia acirrada pela crise sanitária

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Protestos contra discursos de ódio e atos de violência voltados a asiático-americanos marcaram cidades como Atlanta, Nova York e Washington neste sábado (20).

“Stop Asian Hate” (pare o ódio a asiáticos, em tradução literal) foi o mote das manifestações, convocadas após três ataques a tiros que provocaram a morte de mulheres de origem asiática na área metropolitana de Atlanta, no estado norte-americano da Geórgia, na terça-feira (16).

Robert Aaron Long, um homem branco de 21 anos, morador da cidade de Woodstock, foi preso e indiciado pelos ataques. Três casas de massagem foram alvo de tiros. Ao todo, oito pessoas morreram e uma ficou ferida.

A polícia divulgou a identidade das vítimas na sexta-feira (19). Daoyou Feng, Delaina Ashley Yaun, Xiaojie Tan e Paul Andre Michels foram as vítimas da primeira casa de massagem, Young's Asian Massage, no condado de Cherokee; Elcias Hernandez-Ortiz ficou ferido. Hyun Jung Grant, Suncha Kim, Soon Chung Park e Yong Ae Yue foram as vítimas dos dois outros spas, no condado de Fullton.

Tan tinha origem chinesa; Grant, Kim, Park e Yue, origem coreana. A agência britânica BBC sinalizou que Feng teria origem chinesa, mas a informação ainda não foi confirmada pelas autoridades.

Segundo a polícia, Long afirmou que suas ações não tinham “motivação racial” e teria escolhido spas como alvo por simbolizarem tentações de sua suposta “compulsão sexual”.

O contexto dos atentados

Líderes comunitários, ativistas, analistas internacionais e políticos argumentam que o caso deve ser analisado no contexto da onda de xenofobia e violência contra asiáticos, que se acirrou no início da pandemia de covid-19, cujo primeiro epicentro foi a cidade chinesa de Wuhan. De acordo com dados do instituto americano Pew Research de julho de 2020, 73% dos norte-americanos tinham visões negativas sobre os chineses e 51% culpavam a China pela pandemia.

“[Long] tinha uma arma, foi a um empreendimento asiático e matou asiáticos, depois fez de novo. E ainda há a questão se isso foi um crime de ódio? É ultrajante”, criticou o senador John Liu, de Nova York. “Todos nós sabemos o que é ódio”, disse o senador Raphael Warnock, da Geórgia.

Na análise da escritora norte-americana Monica Hesse, colunista de gênero do Washington Post, os ataques às casas de massagem associam raça, gênero e classe. “[Long] escolheu empresas onde os empregados não eram apenas mulheres, mas mulheres asiáticas; e não apenas mulheres asiáticas, mas mulheres asiáticas mal-remuneradas em uma profissão fetichizada”, escreveu.

“Independentemente da motivação desse cara [o atirador], nós sabemos que a maioria das vítimas era asiática. Também sabemos que esse é um problema que vem acontecendo pelo país. É inaceitável, é odioso e precisa parar”, declarou a prefeita de Atlanta, Keisha Lance Bottoms.

Entre 2019 e 2020, crimes de ódio contra asiático-americanos aumentaram 150% em 16 metrópoles norte-americanas, segundo o Center for the Study of Hate and Extremism da California State University.

Entre março de 2020 e fevereiro de 2021, foram registrados 3.795 relatos de discursos racistas e atos violentos contra pessoas de ascendência asiática nos Estados Unidos – 42,2% deles de origem chinesa; 14,8% de origem coreana, segundo levantamento da Stop AAPI Hate, organização sem fins lucrativos que vem documentando ataques contra asiático-americanos e imigrantes da Ásia.

3.795

foi o número de relatos de discursos racistas e atos violentos contra asiáticos registrados entre 19 de março de 2020 e 28 de fevereiro de 2021, segundo a organização Stop AAPI Hate

Principais tipos de discriminação

Gráfico de barras mostra principais tipos de discriminação registrados no levantamento da Stop AAPI Hate:
Assédio verbal – 68,1%
Afastamento/rejeição social – 20,5%
Agressão física – 11,1%
Outros – 8,6%
Online – 6,8%

Onde ocorre a discriminação

Gráfico de barras mostra principais lugares onde ocorreram os casos de discriminação registrados no levantamento da Stop AAPI Hate:
Trabalho 35,4%
Rua 25,3%
Online 10,8%
Parques públicos  9,8%
Transporte público  9,2%

Gênero das vítimas

Gráfico de barras mostra gênero das vítimas de discriminação que responderam à pesquisa da Stop AAPI Hate:
Mulheres 68%
Homens 29%
Trans e não-binários 2%

Por faixa etária

Gráfico de barras mostra idade das vítimas de discriminação que responderam à pesquisa da Stop AAPI Hate

O presidente norte-americano Joe Biden e a vice-presidente Kamala Harris se reuniram com legisladores e líderes da comunidade asiática de Atlanta na sexta-feira (19). Segundo Biden, o ataque integra um contexto de aumento vertiginoso da violência contra asiático-americanos. “Eles foram atacados, culpados, transformados em bodes expiatórios e assediados. Foram agredidos verbalmente, agredidos fisicamente, mortos”, lamentou.

Antecessor de Biden, o ex-presidente norte-americano Donald Trump diversas vezes se referiu ao coronavírus como “vírus chinês” e à covid-19 como “kung flu”.

No Brasil, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) aderiu ao discurso trumpista e culpou a China pela crise. O presidente Jair Bolsonaro, por sua vez, criticou e insinuou que a Coronavac, a vacina desenvolvida pela companhia chinesa Sinovac Biotech e produzida no Brasil pelo Instituto Butantan, não seria segura.

O histórico de discriminações contra asiáticos

Em janeiro, o imigrante tailandês Vichar Ratanapakdee, de 84 anos, morreu após ser atacado na rua em São Francisco. Em fevereiro, o coreano-americano Denny Kim, de 27 anos, foi atacado em Los Angeles. Em março, a imigrante chinesa Xiao Zhen Xie, de 76 anos, também foi agredida em São Francisco.

“Nós fomos invisibilizados e ignorados no nosso país por um século. Estamos sendo atacados violentamente. Foi preciso um homem idoso morrer em São Francisco para termos atenção. Foi preciso seis mulheres asiáticas morrerem em Atlanta para os outros se importarem”, disse o ator Will Lex Ham, em um dos protestos deste fim de semana.

Para a escritora coreano-americana Cathy Park Hong, autora de “Minor Feelings”, que trata da condição de asiático-americanos, casos de discriminação não são novidade, mas estão sendo mais discutidos atualmente. “Se somos invisíveis, o racismo contra nós também é invisível. Por isso é importante se manifestar publicamente para mostrar que isso está acontecendo, há um pico. Está acontecendo há bastante tempo. Nós só não falávamos muito sobre isso. Agora que estamos falando, vocês precisam prestar atenção”, Hong disse em entrevista à revista The Atlantic.

Asiáticos, especialmente amarelos (como chineses, coreanos, japoneses e taiwaneses), foram historicamente invisibilizados nos Estados Unidos, na dinâmica designada pela acadêmica Claire Jean Kim, da Universidade da Califórnia, como “triangulação racial”: asiático-americanos não seriam nem brancos, nem negros, mas estereotipados como eternos estrangeiros no país. Foram estigmatizados como submissos e silentes.

A invisibilidade contribuiu para minimizar discursos de ódio e casos de violência contra asiático-americanos ao longo da história.

Há episódios emblemáticos, porém, que vem sendo resgatados por acadêmicos atualmente: em 1871, 18 chineses foram linchados em Los Angeles; em 1882, foi promulgada uma lei proibindo a entrada de imigrantes chineses nos EUA; em 1886, chineses foram agredidos e expulsos de Seattle; em 1917, a lei americana passou a proibir imigrantes de Istambul às ilhas do Pacífico, cobrindo a Índia britânica e de quase todo o sudeste da Ásia.

Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), mais de 100 mil nipo-americanos e imigrantes japoneses foram confinados em campos de concentração no território norte-americano.

O impacto desse histórico é ainda maior para mulheres, estigmatizadas como submissas e associadas a fetiches sexuais. Nos conflitos na Coreia (1950-1953) e no Vietnã (1955-1975), a violência sexual de mulheres asiáticas por militares americanos arraigou a objetificação delas. E, entre elas, o impacto tende a ser ainda maior para mulheres marginalizadas socioeconomicamente.

“Muitas mulheres morreram por causa da violência sexual dirigida a elas por motivos raciais, mas nunca na escala que estamos vendo agora no país”, disse a ativista Sung Yeon Choimorrow, diretora do National Asian Pacific American Women’s Forum, em entrevista ao New York Times. “E o que realmente me entristece é saber que foi preciso uma tragédia desse tipo para contarmos essa história.”

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