Quais os entraves à vacinação na União Europeia

Bloco de 27 países ricos e influentes não consegue avançar na imunização de sua população contra a covid-19, enquanto região enfrenta sua terceira onda na pandemia

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A União Europeia ficou para trás na vacinação contra a covid-19. Mesmo sendo a terceira maior economia do mundo, com dinheiro e tecnologia de sobra, o bloco de 27 países não tinha conseguido administrar, na média, mais de 12,29 doses por grupo de 100 habitantes até esta sexta-feira (19).

O bloco tenta manter uma unidade em sua política de vacinação. A maior parte dos contratos com laboratórios é feita de forma coletiva. Entretanto, alguns dos países-membros também buscam saídas individuais, negociando acordos paralelos. O mesmo ocorre em relação à aprovação das vacinas, que recebem um visto da União Europeia, mas continuam sujeitas às regulações nacionais.

Lentidão

Ritmo da vacinação contra a covid-19 a Europa em comparação com outros países

O fracasso é reconhecido pelas autoridades, que anunciaram na primeira quinzena de março a adoção de novas medidas para tentar garantir o suprimento dos imunizantes e acelerar a vacinação. A questão é que a correção de rumo não ocorreu rápido o bastante para impedir uma terceira onda de contaminação e mortes pela covid-19, que agora ameaça submergir alguns dos principais países-membros do bloco em novos confinamentos, com alto custo social e econômico.

A adoção de novos lockdowns

Na quinta-feira (18), o premiê francês, Jean Castex, anunciou um novo confinamento estrito em 16 regiões da França, incluindo a capital, Paris. As saídas de casa só estão permitidas até às 19h, num raio de 10 km ao redor do próprio domicílio, e mediante uso de um atestado a ser apresentado à polícia, sob risco de multa em caso de descumprimento.

O valor inicial da multa é de 135 euros, o que, na cotação de 19 de março, equivalia a cerca de R$ 887. Em caso de reincidência, o valor é multiplicado, podendo chegar até mesmo à pena de prisão. O período excepcional vai durar inicialmente quatro semanas, podendo ser prorrogado, se a curva de contaminação não baixar.

A França ilustra bem o problema que a União Europeia enfrenta em escala maior. O país se aproxima das 100 mil mortes pela covid-19. Os casos de contaminação, hospitalização e morte estão em alta. O país está na “crista da terceira onda” num momento em que a imunização da própria população ainda é incipiente.

O plano do presidente Emmanuel Macron é imunizar 10 milhões de pessoas até o meio de abril, o que corresponde a apenas um sexto dos mais de 66 milhões de habitantes. Até esta sexta-feira (19), tinham sido administradas 11,63 doses por grupo de 100 habitantes no país, o que é mais que o dobro das doses administradas, por exemplo, no Brasil (6,12). Mas é também quatro vezes menos que as doses administradas do outro lado do Canal da Mancha, no Reino Unido (40,68).

Na Itália, também houve imposição de novo lockdown em grandes cidades como Roma e Milão. Na Espanha, as viagens no feriado de Páscoa (4 de abril) estão proibidas. Em Portugal, há toque de recolher. Na Alemanha, o ministro da Saúde, Jens Spahn, disse que o aumento nas contaminações pela covid-19 tornou-se “exponencial”, o que frustrou os planos de suspensão das restrições que vigoram no país.

Em todos esses países – França, Itália, Espanha, Portugal e Alemanha –, o número de doses aplicadas por grupo de 100 habitantes é muito parecido: varia entre 11,63 e 12,82.

Os principais problemas

A União Europeia, enquanto bloco, tenta a todo custo fazer com que o laboratório anglo-sueco AstraZeneca cumpra os contratos firmados e entregue todas as doses prometidas da chamada vacina de Oxford. Porém, ao mesmo tempo, em paralelo, alguns países-membros suspenderam a administração das doses já disponíveis dessa vacina, alegando o risco de embolia e de trombose.

Essa suspensão acabou revista totalmente em alguns países, como a Alemanha. Em outros, como a França, a vacina de Oxford foi liberada apenas para os maiores de 55 anos. Enquanto noutros, como a Finlândia, a suspensão total foi mantida. O órgão regulador da União Europeia considerou, afinal, a vacina segura. Mas os países têm autonomia para regular seu uso.

Mesmo com a desconfiança gerada por essas suspensões, os países-membros do bloco esperavam receber 90 milhões de doses da vacina de Oxford no primeiro trimestre de 2021, mas só um terço dessa quantidade foi entregue pela farmacêutica. Para o segundo semestre, eram esperadas 180 milhões de doses, mas a previsão de entrega ficou em 70 milhões.

O problema, aos olhos dos europeus, é que esse mesmo laboratório mantém praticamente intactas as entregas contratadas pelo Reino Unido, onde a vacinação avança rapidamente. A AstraZeneca se justifica dizendo que os contratos com os britânicos foram firmados antes, mas a justificativa não é vista como suficiente pela União Europeia, que ameaça endurecer.

Na quarta-feira (17), a presidente da Comissão Europeia, a alemã Ursula von der Leyen, ameaçou recorrer “a todos os instrumentos disponíveis” para obrigar a AstraZeneca a entregar as quantidades contratadas. A declaração foi vista como uma ameaça de adoção de sanções comerciais contra a empresa.

Medidas de força já começam a ser tomadas contra o laboratório anglo-sueco: em 26 de fevereiro, autoridades italianas confiscaram 250 mil doses da vacina de Oxford que seriam exportadas para a Austrália. Autoridades da Bélgica, onde está uma das fábricas do laboratório, ameaçaram fazer o mesmo.

Os líderes dos governos dos países-membros da União Europeia têm reunião marcada para os dias 25 e 26 de março, quando novas medidas devem ser anunciadas em bloco.

Além das vacinas da AstraZeneca, os países-membros também produzem e utilizam doses do imunizante da Pfizer/BioNTech. Desde 1º de fevereiro, mais de 10 milhões de doses dessa vacina foram enviadas de fábricas da Europa continental para o Reino Unido. Em compensação, nenhuma dose de nenhum tipo de vacina fez o caminho contrário, de fábricas no Reino Unido para a Europa continental.

“Nós assinamos um contrato legal que determina que o Reino Unido vai receber as primeiras 100 milhões de doses da vacina produzidas [nas três fábricas da AstraZeneca em solo britânico], disse o ministro da saúde do Reino Unido, Matt Hancock.

Mas mesmo com essas doses asseguradas, a vacinação também corre mais lenta do que o previa o cronograma britânico. A imprensa local publicou um relatório do NHS, o SUS do Reino Unido, que fala no adiamento em um mês da vacinação dos menores de 50 anos.

A desconfiança com a vacina

Além dos problemas com contratos e entregas, autoridades sanitárias de diversos países europeus decidiram suspender o uso da vacina de Oxford depois da incidência pontual de casos de trombose e embolia. A medida foi logo revista na sequência, mas, ainda assim, o dano foi grande: muitos europeus passaram a desconfiar do imunizante.

Os sinais emitidos por alguns líderes europeus foram confusos desde o início da vacinação. Ainda antes da suspeita de problemas como trombose e embolia em casos pontuais envolvendo a vacina de Oxford, o presidente francês, Emmanuel Macron, havia dito, sem evidências, que a vacina de Oxford era “quase ineficaz" para pessoas com mais de 65 anos.

Em março de 2021, depois do vai-vem de aprovação e desaprovação do imunizante de Oxford, a França finalmente resolveu liberá-lo em seu território. A aplicação ficou restrita aos maiores de 55 anos, já que nenhuma das pessoas com suspeitas de má coagulação após a vacinação fazia parte desse grupo etário. O primeiro-ministro, Jean Castex, tentou reverter o dano provocado pela indecisão, anunciando que ele mesmo estava optando por ser imunizado com esse medicamento produzido pela AstraZeneca.

O dano que essas declarações e atitudes desencontradas produziram pode ser medido em pesquisas de opinião pública. A rejeição à vacina de Oxford entre os franceses chega a 56%, enquanto 70% dos entrevistados se declararam favoráveis à suspensão do uso das doses por causa do temor de casos de embolia e trombose.

Nesta sexta-feira (19), o governo da Finlândia anunciou que prefere manter a suspensão total da aplicação da vacina de Oxford, mesmo com o laboratório e as autoridades sanitárias do bloco tendo assegurado sua segurança e eficácia.

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