Como a pandemia sobrecarrega o setor funerário no Brasil

Com velórios mais curtos e enterros noturnos, cemitérios e empresas tentam dar conta do maior volume de sepultamentos. Risco de colapso funerário ‘causa medo’, diz presidente de associação

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O aumento no número de óbitos no Brasil devido à covid-19 tem pressionado o setor funerário em todo o país. Empresas especializadas se viram obrigadas a rever procedimentos e rotinas para dar conta da maior demanda.

Em 2020, o número de óbitos no Brasil cresceu 14,96% em relação ao ano anterior. Foram 1,45 milhão de mortos contra 1,26 milhão em 2019. Os dados são da Arpen (Associação Brasileira de Empresas e Diretores do Setor Funerário).

Foi o ano em que mais morreram pessoas no país na história. Segundo dados do consórcio de imprensa, 194.976 óbitos decorrentes do novo coronavírus foram registrados até 31 de dezembro de 2020.

O aumento nas mortes foi registrado em todas as 27 unidades da federação, mas com variações significativas conforme o estado. Apenas cinco registraram incrementos abaixo de 10%. Na outra ponta, oito estados tiveram aumentos acima de 20%.

O IMPACTo da covid-19

aumento óbitos

Nos dois primeiros meses de 2021, alguns estados tiveram subidas enormes no número de mortes em relação ao mesmo período em 2020. O estado do Amazonas reportou um aumento de 195,81% na quantidade de mortes na comparação com janeiro e fevereiro de 2020, antes da pandemia, de acordo com dados da Arpen. Já Rondônia teve 124,02% de incremento de óbitos em janeiro e fevereiro de 2021 em relação ao mesmo bimestre de 2020.

Em março de 2021, o Brasil convive com seus piores índices diários e semanais de mortes por covid-19 desde o começo da crise sanitária. Na sexta-feira (19), o país registrou 2.730 mortes por covid-19 com a média móvel ficando em 2.178, um recorde pelo 21º dia consecutivo. Pela primeira vez, mais de 15 mil pessoas morreram de covid no espaço de uma semana. De acordo com a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), em estudo divulgado na terça-feira (16), o Brasil enfrenta o "maior colapso hospitalar e sanitário da história".

Qual o risco de colapso funerário

Apesar do aumento generalizado nas mortes causadas pela covid-19 em março de 2021, a ideia de “colapso funerário” não é uma possibilidade imediata, de acordo com o representante da principal entidade do setor.

Segundo Lourival Panhozzi, diretor da Abredif (Associação Brasileira de Empresas e Diretores do Setor Funerário), o colapso funerário aconteceria se as empresas e os cemitérios não conseguissem realizar os sepultamentos necessários devido a um grande volume de corpos.

“Tudo tem limite, isso não pode continuar enchendo por tempo indeterminado. Hoje o colapso não é uma realidade, mas é uma possibilidade. Não achamos que vai ocorrer, mas temos medo”, afirmou ao Nexo.

Apesar da sobrecarga de trabalho, ele garante que atualmente as empresas funerárias ainda têm condições de lidar com os aumentos na quantidade de mortes. O representante das funerárias cita a estimativa de 300 mil mortes pela doença prevista por cientistas para 2021 (totalizando cerca de 500 mil por covid-19 no país) como parâmetro para avaliar as condições do setor de lidar com esse volume.

Velórios curtos e enterros noturnos

Desde o começo da pandemia, as funerárias em todo o país vêm lidando com um aumento médio de 25% no número absoluto de sepultamentos, segundo Panhoozi. As adaptações foram diversas: algumas empresas contrataram mais gente e outras suspenderam férias.

O tempo de duração dos velórios foi encurtado para, no máximo, quatro horas. Antes, a cerimônia podia levar 24 horas. De acordo com Panhoozi, uma sala que era ocupada por um dia inteiro acaba sendo usada para três cerimônias.

Na quarta-feira (17), a Abredif emitiu um comunicado pedindo às funerárias que aumentem os estoques de materiais como urnas (caixões), máscaras e luvas. Também solicitou que sejam levadas em conta as capacidades de cada cemitério realizar vários sepultamentos ao mesmo tempo.

Em São Paulo, os cemitérios se preparam para realizar enterros ao longo da noite. Oito torres de iluminação serão instaladas em unidades da capital paulista. Na quinta-feira (17), a cidade bateu o recorde de sepultamentos, com 337 em um único dia.

Filas e despreparo

A pandemia foi marcada por imagens de cemitérios trabalhando intensamente para enterrar pessoas e terrenos cheios de covas abertas à espera de caixões.

Em Manaus, em abril de 2020, a média de sepultamentos por dia era de 100. A quantidade de corpos levou a medidas extremas, como o sepultamento em vala comum no Cemitério Nossa Senhora de Aparecida, o principal da capital amazonense. Enterros eram feitos dia e noite.

Com o repique da covid-19 na região, entre o fim de 2020 e o começo de 2021, os números voltaram a crescer exponencialmente. O número diário de sepultamentos na cidade foi de 6, em 14 de dezembro, para 88 em 14 de janeiro.

Em março de 2021, a imprensa publicou relatos de que Belém passava por situações dramáticas devido ao excedente de mortes. O jornal Estado de S. Paulo afirmou que corpos de dezenas de vítimas eram retirados de um caminhão frigorífico para serem amontoados no chão, à espera de sepultamento.

Na terça-feira (16), a TV Globo mostrou imagens de carros funerários com corpos de vítimas de covid-19 fazendo fila na porta do Cemitério Municipal Jardim da Saudade.

Para Panhozzi, as situações reportadas poderiam ser evitadas se houvesse melhor planejamento dos serviços municipais. “No caso de Manaus, o serviço funerário da cidade tem uma gestão ruim e despreparada. O que aconteceu lá é que os corpos eram liberados do hospital todos no mesmo horário, com ordem de levar para o cemitério imediatamente”, explicou.

De acordo com o diretor da Abredif, ninguém pode ficar sem sepultar um corpo no país. “Pessoas carentes têm direito a um sepultamento gratuito em cemitérios públicos. Estes, mesmo quando administrados pela iniciativa privada, são obrigados a garantir o direito de sepultamento, adquirindo, por sua conta, jazigos em outros cemitérios. O fato de um cemitério ficar sem vaga não quer dizer que o corpo não vai ser sepultado. O sepultamento se dará em outro cemitério, até outra cidade se for necessário”, explicou ao Nexo.

ESTAVA ERRADO: Na primeira versão deste texto, a fonte do gráfico do aumento de óbitos aparecia erroneamente como Arpen - Associação Brasileira de Empresas e Diretores do Setor Funerário. Na verdade, Arpen é a sigla para Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais. A informação foi corrigida às 13h03 de 22/03/2021.

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