A penúria dos espaços musicais alternativos na pandemia

Perspectiva para casas de show e festivais de pequeno e médio porte é de mais um ano difícil. Em São Paulo, Ó do Borogodó e Casa do Mancha encerraram suas atividades

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    Em março de 2021, duas casas de shows de pequeno porte importantes para a música alternativa de São Paulo anunciaram seu fechamento por causa das dificuldades financeiras trazidas pela pandemia.

    O Ó do Borogodó, bar com shows de samba em Pinheiros, na zona oeste, anunciou no dia 7 que seria despejado do espaço onde funcionou por quase duas décadas. Como último recurso, a proprietária do espaço, Stefânia Gola, tenta levantar R$ 300 mil em uma vaquinha online para custear as dívidas acumuladas.

    Três dias depois foi a vez da Casa do Mancha, espaço para bandas e artistas ligados à cena indie de São Paulo, anunciar seu fechamento. Na ativa desde 2007, a casa fundada pelo produtor cultural Mancha Leonel também não resistiu a tanto tempo sem público.

    Durante 2020, produtores de eventos e donos de espaços culturais miravam o ano de 2021 como um possível horizonte de retorno de atividades, mesmo que gradual. Com o recrudescimento da transmissão por covid-19 no Brasil, na virada do ano, essa perspectiva ficou mais distante.

    Um ano depois do início da pandemia, com a vacinação em passo lento e com o Brasil vivendo índices catastróficos de mortes e infecções, está claro que será mais um ano complicado, segundo representantes da área.

    Com a reintrodução de medidas de restrição por parte de autoridades municipais e estaduais em todo o país, eventos musicais e casas de show vão para o fim da fila das atividades permitidas.

    “Logo no início do ano, a gente falou ‘não vai ter vacina suficiente, não vai dar pra abrir esse ano’. Em 2020, foi emblemático quando estávamos tentando marcar o show do Marcelo D2 para 2021. Ficávamos marcando e desmarcando até que um dia encontrei com ele e perguntei como ia ficar. Ele disse: ‘Já organizei minha vida para não precisar de show’. Isso me deu uma conscientização ainda maior em relação ao que estava acontecendo”, afirmou ao Nexo Alexandre Rossi, programador do Circo Voador, espaço de shows com capacidade para 2.200 pessoas, no Rio de Janeiro.

    Ana Garcia, fundadora do festival Coquetel Molotov, que acontece desde 2004 em Recife, diz ficar “aflita” ao ver outros países “já programando o seu verão e as possibilidades de eventos no segundo semestre e a gente ainda com problemas com a vacinação”. A produtora, no entanto, acredita que esse cenário pode mudar de uma hora para outra “e talvez possamos ter algum tipo de experiência no final do segundo semestre”.

    No início de março, o governador de Nova York, Andrew M. Cuomo, anunciou que casas de show poderão abrir no mês de abril na cidade em abril com 33% da capacidade. O número máximo de pessoas permitido por local será 100 para ambientes internos, e 200 para externos. Na Inglaterra, um plano de reabertura de várias etapas anunciado em 22 de fevereiro prevê o retorno escalonado de eventos de música e casas noturnas, com limites de público e protocolos de higiene e distanciamento.

    “O fato é, nada será como antes. Quando tudo voltar, será diferente, seremos pessoas diferentes e os eventos terão novos protocolos”, disse ao Nexo Garcia, do Coquetel Molotov.

    O impacto na cultura

    “No mundo dos likes e dos números, esquecemos que poucos ouvidos atentos e presentes são mais preciosos do que milhares de plays no plano de fundo”, escreveu a cantora Luiza Lian no Facebook, a respeito do fechamento da Casa do Mancha, que serviu de plataforma de lançamento para inúmeras bandas e artistas.

    Já o Ó do Borogodó foi um espaço vital para a projeção do músico Kiko Dinucci e de seu trabalho inspirado no samba paulista, como ele admitiu em entrevista no canal do YouTube do jornalista Alexandre Matias. Dinucci se tornou um dos músicos mais celebrados da música brasileira independente na década de 2010, graças a trabalhos solo e a projetos como Metá Metá. Seu disco “Rastilho”, de 2020, entrou em diversas listas de álbuns do ano da crítica especializada.

    “As casas pequenas são essenciais para manter o ecossistema da música independente. São essas casas que apostam nos novos nomes, onde artistas podem iniciar as suas carreiras e tocar quando estão em turnê. Fechar as portas de casas assim é impedir que o público conheça novos artistas, além de acabar com empregos e um comércio local”, disse ao Nexo Ana Garcia.

    Para Roberto Guimarães, gerente executivo de Cultura do Oi Futuro, local de eventos no Rio de Janeiro, “é a partir desses espaços que curadores ampliam seus conhecimentos, festivais são embrionados. São importantes plataformas de formação e disseminação”.

    Mesmo com o aumento da importância das redes sociais como ferramenta de divulgação para novos artistas, é no palco e na interação com o público que repertório e performance são testados e lapidados.

    Alternativas durante a pandemia

    Organizações de eventos e casas de shows, da música eletrônica à música clássica, migraram para festas e shows online ao longo de 2020. Em 2021, a estratégia segue a mesma, mas com algumas produtoras se esforçando para buscar a originalidade ou experiências diferentes.

    O Coquetel Molotov realizou duas versões online durante a pandemia, em julho de 2020 e janeiro de 2021. Salas de zoom faziam as vezes de palcos do festival, com o público interagindo por meio da câmera. Para Garcia, o evento “conseguiu mimetizar um pouco a sensação de estar em um festival físico”.

    A próxima edição será “em formato de revista digital”. “Teremos oficinas, apresentações, conversas, wallpapers, gifs, filtros, textos, discotecagens e playlists nesta revista”, afirmou Ana Garcia, que disse que o projeto foi viabilizado com apoio da Lei Aldir Blanc e da Funarte (Fundação Nacional de Artes).

    Embora sem definir uma estratégia específica, o Circo Voador “não tem alternativa a não ser seguir”, de acordo com Rossi. “A gente tem uma gestora muito boa, muito organizada, e vamos conseguindo passar essas fases cada vez mais difíceis, a gente não acha que acabou tudo, pode ser que quando voltem as coisas elas venham com tudo, muito mais fortes. Tem pessoas entregando os espaços, mas não é que acabou a economia dos shows. O negócio é ficar em suspensão esse tempo todo até a hora da volta. Porque vai voltar, as pessoas vão continuar querendo ir a shows, nem durante a pandemia elas deixaram de sair, imagina quando acabar”, afirmou.

    O papel do poder público

    Em julho de 2020, o Congresso aprovou a lei Aldir Blanc (1075/2020), que destinou R$ 3 bilhões em auxílio emergencial para o setor cultural. Entre as modalidades de auxílio, a legislação prevê parcelas de R$ 3.000, R$ 6.000 e R$ 10 mil mensais para espaços culturais e casas de shows que tiveram as atividades interrompidas devido à pandemia. Como contrapartida, os espaços terão de realizar de forma gratuita atividades para estudantes de escolas públicas ou em espaços públicos.

    Para Guimarães, do Oi Futuro, o papel do estado no apoio aos espaços e eventos de cultura “é fundamental e estratégico no desenvolvimento de ações de sobrevivência do campo”. Segundo o gestor disse ao Nexo, o impacto positivo da lei é “visível”, embora ela tenha tempo determinado. O gerente do Oi Futuro defendeu a articulação entre as pastas da cultura e da economia no sentido de garantir subsídios para “o setor que é o quarto maior gerador de PIB do país”.

    Para Ana Garcia, do Coquetel Molotov, “é preciso que haja uma nova rodada no auxílio ao segmento, uma vez que as dívidas e perdas se acumulam e muitos espaços de show estão fechando definitivamente. Da mesma forma que o poder público ajuda o setor agrário na entressafra e quando existem desastres naturais, é necessário enxergar o segmento de cultura e eventos como algo que movimenta a economia e que seus agentes não podem ficar a mercê da sorte”.

    Na quinta-feira (18), a prefeitura de São Paulo anunciou um programa de socorro para 200 espaços culturais com capacidade para até mil pessoas. Com orçamento de R$ 10 milhões, o edital pretende ajudar espaços culturais e casas noturnas com histórico comprovado de atividades em gêneros que incluem hip hop, samba, choro, reggae, música eletrônica e linguagens como circo, dança, moda, poesia, sarau ou teatro.

    Em Goiás, a secretaria de Cultura lançou em 15 de março um edital que destina R$ 2 milhões para auxiliar locais privados ou públicos que abrigam atividades culturais. “Com os espaços sem poder receber público, é preciso garantir a subsistência das famílias que dependem desses postos de trabalho”, afirmou o secretário interino da cultura do estado, César Moura, em nota.

    No Reino Unido, um pacote de ajuda do governo no valor de mais de R$ 20 milhões foi anunciado em agosto de 2020 como socorro para 135 espaços musicais menores pelo país.

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