Os baixos índices de isolamento apesar das restrições

Medidas mais rigorosas são adotadas em todo o país, mas levantamento mostra que apenas 35% ficam em casa. Presidente Jair Bolsonaro ataca quarentenas e elogia protestos contra lockdowns

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A maioria dos estados brasileiros anunciou medidas mais duras de restrição na tentativa de frear os números de casos e mortes pela covid-19. Em março de 2021, o Brasil enfrenta a maior crise sanitária de sua história devido ao colapso dos hospitais em todo o país. A quantidade de mortes diárias pelo coronavírus tem batido recordes consecutivos. Mesmo assim, a taxa de isolamento social está abaixo do esperado.

Uma das métricas que abrange todo o país é o Índice de Isolamento Social divulgado pela empresa pernambucana Inloco. A startup é parceira de várias empresas que disponibilizam aplicativos de celulares. Quando os clientes baixam esses aplicativos, eles podem permitir a coleta de dados de localização dos celulares. Com o monitoramento de cerca de 60 milhões de smartphones, é calculada a taxa de isolamento.

Na quarta-feira (17), data do último índice divulgado, o isolamento em todo o país era de apenas 35%. Sergipe, Ceará e Pará mantinham as maiores taxas, em torno de 43%. São Paulo tinha apenas 35%, e Santa Catarina e Espírito Santo apareciam em último, com 30%.

Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, na quarta-feira (17), o infectologista Julio Croda, pesquisador da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) e professor da UFMS (Universidade Federal do Mato Grosso do Sul) e da Escola de Saúde Pública de Yale, nos EUA, afirmou que uma taxa ideal para a redução dos número de casos é de cerca de 70%. Ele lembra, porém, que o Brasil nunca alcançou esse nível, que poderia ser atingido com duas semanas de lockdown.

“Só acima de 60% que tem a taxa de contágio abaixo de 1 com queda lenta e progressiva. Com 50%, não tem aceleração, mas não tem redução. É estabilidade com platô elevado”, disse ao jornal.

Uma taxa de contágio de 1 significa que cada doente transmite o vírus para uma única outra pessoa (se a taxa fosse de 3, por exemplo, cada infectado iria transmitir o vírus a outros três indivíduos). Quando esse número fica abaixo de 1, significa que a doença está controlada. O platô, que se formou no Brasil entre maio e final de agosto, é um estágio em que a curva de casos (ou de mortes) fica estável.

O lockdown é o fechamento total das atividades não essenciais. As pessoas são obrigadas a ficar em casa e só podem sair com justificativa, como ir ao hospital ou à farmácia. Araraquara, no interior de São Paulo, adotou a medida em fevereiro, fechando até supermercados e suspendendo o transporte público. Em menos de um mês, conseguiu reduzir a média de casos em 53%. Cidades como Ribeirão Preto e Campinas decidiram adotar a medida, que tem sido difícil de ser aplicada por causa do fim do auxílio emergencial em 2021. O novo auxílio será pago a partir de abril com valores de R$ 150 a R$ 375.

Os problemas dos índices

O índice da Inloco não é o único usado para monitorar o isolamento social. O estado de São Paulo, por exemplo, possui uma ferramenta chamada Simi-SP (Sistema de Monitoramento Inteligente de São Paulo), que se baseia nos sinais das antenas de operadoras de telefonia. O sistema monitora o movimento em determinada área.

Na quarta-feira (17), a taxa de isolamento no estado apontada pelo sistema era de 43%, acima dos 35% do índice da Inloco, mas bem abaixo do que era observado, por exemplo, no início da pandemia. Entre março e abril de 2020, o indicador batia 55% durante a semana e 59% (maior taxa registrada na série histórica) aos finais de semana.

O governo de São Paulo não usa o indicador como meta. Segundo a secretária do Desenvolvimento Econômico do estado, Patrícia Ellen, a fase emergencial em vigor prevê medidas que irão forçar a redução de circulação, como o teletrabalho, que poderá confinar até 4 milhões de pessoas , segundo estimativa do governo.

Muitas pesquisas que buscam analisar a mobilidade durante a pandemia recorrem também aos dados do Google e da Apple. Para Marcel Ribeiro-Dantas, pesquisador do Instituto Curie, na França, e doutorando em ciência da computação na Universidade Sorbonne, em Paris, todos esses dados de isolamento têm “seríssimas limitações”. Ele integra o grupo isola.ai, de cientistas que estudam o distanciamento social na América Latina.

A comparação dos dados do Google, por exemplo, só é possível de ser feita com o mês de janeiro de 2020, já que a empresa só passou a coletar muitas das informações de mobilidade depois da pandemia. O problema de ter janeiro como referência, segundo o pesquisador, é que é um mês de veraneio no Brasil, quando os padrões de mobilidade são bem diferentes do resto do ano.

“Tem a questão também de que esses dados são apenas de quem tem celular Android, com a funcionalidade ativada que deixa o Google te rastrear”, afirmou Ribeiro-Dantas ao Nexo. Os dados da Apple são apenas de iPhones, menos usados no Brasil que os aparelhos Android, com sistema operacional do Google.

Segundo ele, um dos melhores dados para acompanhar o isolamento no Brasil é o da Inloco, por trazer informações de quem ficou em casa ou quem foi muito longe da própria residência ao longo do dia. Mas mesmo assim há problemas, pois o monitoramento pode registrar como residência um local onde a pessoa passou apenas alguns dias.

“A gente está fazendo estudos, notas técnicas e análises com esses dados, mas sempre leva em consideração que são bastante limitados. Tem que tomar muito cuidado com interpretação”, disse.

As falácias sobre as restrições

Na quinta-feira (18), o presidente Jair Bolsonaro voltou a atacar os lockdowns dizendo que, se eles tivessem funcionado no começo da pandemia, não haveria pessoas nas filas por vagas nas UTIs (Unidades de Terapia Intensiva) atualmente. Durante uma transmissão online, ele também elogiou “manifestações espontâneas” contra o isolamento.

“Por que existiu lockdown? Foi março, abril [do ano passado], não era para alongar a curva? Ninguém esqueceu. O pessoal não fala mais em alongar a curva. Não era para não ter uma grande quantidade de pessoas infectadas para não ficar gente na porta do hospital?”, questionou.

A afirmação do presidente ignora as flexibilizações das medidas que ocorreram pelo país ao longo da pandemia. Em entrevista ao Nexo em 11 de março, a professora Luciana Lima, do departamento de demografia da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), afirmou que o ápice das medidas restritivas no país ocorreu logo no início da pandemia, mas elas não se sustentaram no tempo.

“Por volta de abril, a própria população já começou a sair de casa e a quebrar o distanciamento. Houve um movimento de flexibilização, e isso foi se estendendo até que a pandemia ficou naquele platô [estabilidade alta de casos e mortes]. A pandemia não teve retrocesso, mas os governos já estavam muito além nos seus processos de reabertura”, disse.

Na opinião de Ribeiro-Dantas, os casos de infecção que continuam ocorrendo atualmente poderiam ter acontecido no começo da pandemia se as medidas restritivas não tivessem sido adotadas. “Há um certo consenso de que as medidas que foram utilizadas, como o distanciamento social e o fechamento de fronteiras, alongaram a curva”, disse.

Como medir o efeito dos lockdowns

Para o pesquisador, que trabalha analisando os efeitos causados por políticas públicas, seria muito arriscado tentar determinar se um lockdown está funcionando com base apenas nos índices de isolamento social disponíveis.

“A gente espera que o lockdown ou qualquer outra intervenção de distanciamento diminua o número de casos após um período e que, consequentemente, diminua também o número de óbitos. Só que o ponto é: se o lockdown foi decretado, ele existe na prática? Ele está ocorrendo ou foi só no papel?”, questionou.

Reportagem do jornal O Estado de S. Paulo publicada na quinta-feira (18), por exemplo, mostra que, em cinco municípios da região metropolitana de Belém, no Pará, embora o movimento nas ruas estivesse menos intenso do que em dias normais, ainda assim havia circulação expressiva em locais públicos no terceiro dia de lockdown decretado na região.

Como a taxa de isolamento no estado continua baixa apesar da medida, poderia-se afirmar que o lockdown não funcionou, sendo que, na verdade, ele não foi implantado corretamente. “Os governos decretaram medidas, mas não trabalharam para que fossem executadas adequadamente. Aí tem gente que vai falar: os números não caíram com o lockdown. Não caíram porque a população não aderiu e não houve distanciamento”, afirmou. Ele lembra que muitos outros fatores, às vezes imperceptíveis ao pesquisador e difíceis de serem identificados, podem interferir na situação da pandemia além do lockdown que estiver em vigor.

Como aumentar o isolamento

Para Ribeiro-Dantas, para que um lockdown tenha efeito na redução no número de casos e mortes, é preciso fiscalização das medidas e adesão da população.

Na quinta-feira (18), quando a cidade de São Paulo registrou a primeira morte de um paciente na fila de espera por uma UTI, o prefeito da capital, Bruno Covas (PSDB), afirmou que um lockdown é “inviável” devido à falta de estrutura para a fiscalização.

“A gente tem mil GCMs [guardas-civis metropolitanos] por dia na cidade. Com esse efetivo é inviável fiscalizar se as pessoas estão saindo ou não de suas casas”, disse. Ele decidiu antecipar cinco feriados para tentar manter as pessoas em casa.

Ribeiro-Dantas diz que, mesmo sem fiscalização, seria melhor decretar um lockdown porque parte da população pode respeitar a medida. “A gente tem que contar com o bom senso das pessoas. Algumas pessoas iriam respeitar [o lockdown mesmo sem fiscalização], e isso [não decretar] é uma pena. Tem que confiar que algumas pessoas irão aderir. Entre não decretar e decretar e nem todos seguirem, sou a favor de decretar”, afirmou.

Segundo ele, a população começa a perder a noção do significado dos números de casos e mortes que são mostrados diariamente pela mídia, e as pessoas relaxam nos cuidados assim que a situação apresenta sinais de melhora, embora a pandemia ainda continue grave.

Para o sucesso das medidas restritivas, ele defende campanhas de conscientização e que os políticos adotem um “discurso uníssono”. “Se todos concordassem no que tem que ser feito, o peso de tomar uma medida impopular seria muito menor”, disse.

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