Por que a pandemia deve aumentar a pobreza educacional

Relatório do Banco Mundial descreve como ‘espantosas’ as estimativas dos efeitos do fechamento prolongado das escolas na América Latina e no Caribe 

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    A interrupção do ensino presencial na América Latina e no Caribe devido ao fechamento das escolas durante a pandemia de covid-19 pode elevar a pobreza da aprendizagem em mais de 20%, resultando em um cenário em que dois a cada três estudantes são incapazes de ler ou compreender textos simples. A conclusão é do Banco Mundial em relatório divulgado na quarta-feira (17).

    O documento mostra que o aprendizado está despencando na região, apesar de ressaltar que muitos países já estão reabrindo e retomando as atividades escolares presenciais. O Brasil, no entanto, enfrenta uma realidade diferente.

    Em algumas cidades do país, escolas estão fechadas desde o início da pandemia e, em outros municípios, como São Paulo, instituições de ensino chegaram a ser reabertas por um breve período, mas foram fechadas novamente. Em março de 2021, no pior cenário da crise sanitária no Brasil, a expectativa é que elas permaneçam assim até que haja redução da contaminação pela covid-19, que já matou mais de 280 mil brasileiros.

    7,6 milhões

    é o número de crianças que já foram atingidas pela pobreza educacional causada pela pandemia na América Latina e no Caribe

    Os impactos no Brasil

    A pobreza educacional é medida pela quantidade de crianças de dez anos com graves dificuldades de leitura. No Brasil, o cenário precário na pandemia é potencializado pela desigualdade de ensino que existia no país antes da crise. Cerca de 50% dos alunos já enfrentava pobreza educacional. Segundo o relatório do Banco Mundial, esse número pode crescer para 70% se as escolas ficarem fechadas por até 13 meses.

    Em janeiro, um relatório da Unesco mostrou que, no Brasil, as escolas ficaram fechadas por cerca de 10 meses durante a pandemia — quase o dobro do tempo do resto do mundo (22 semanas).

    Os efeitos “sobre o capital humano da região são simplesmente uma tragédia”, segundo o documento, e atingem principalmente crianças e jovens mais vulneráveis.

    Além dos impactos no aprendizado, a suspensão das aulas presenciais abalou também a alimentação dos alunos mais pobres e elevou a evasão escolar de jovens e crianças que enfrentaram dificuldades como falta de acesso à internet para assistir às aulas.

    “A interrupção dos serviços presenciais que os alunos costumavam receber nas escolas, inclusive a merenda escolar, que é a fonte de alimento mais confiável para 10 milhões de estudantes da região [América Latina e Caribe], juntamente com a dificuldade econômica que a maioria das suas famílias está enfrentando, está causando fortes efeitos negativos na saúde física, mental e emocional dos estudantes. A pandemia provavelmente terá consequências negativas vitalícias, especialmente para o bem-estar das crianças pequenas e das famílias”

    Banco Mundial

    em relatório sobre o impacto da pandemia na educação

    Custo econômico e social

    O risco de contágio do novo coronavírus fez governos fecharem escolas em todo o mundo em 2020 e, em mais de 160 países, cerca de 1,5 bilhão de estudantes foram afetados pela interrupção das aulas.

    Na América Latina e no Caribe, a pandemia causou choques econômicos e sanitários que afetaram mais de 170 milhões de alunos em toda a região. Até o fim de 2020, eles ficaram, em média, 159 dias sem aulas presenciais. Só no Brasil, cerca de 48 milhões de estudantes, 81% deles matriculados na rede pública, tiveram que ficar em casa em 2020.

    O relatório prevê que a pobreza educacional vai representar perdas econômicas graves, que podem durar por muito tempo. Considerando dez meses de fechamento das escolas, os prejuízos na aprendizagem podem traduzir-se em um custo econômico de US$ 1,7 trilhão (R$ 9,5 trilhões, na cotação de 17 de março de 2021) de potencial de ganhos na América Latina e no Caribe.

    Preparação para reabertura

    Para mitigar as perdas de aprendizagem, o documento do Banco Mundial ressalta a importância de aprimorar o ensino a distância especialmente para os mais pobres, e transformá-lo em uma ferramenta mesmo quando for possível a volta das atividades presenciais.

    Apesar de o relatório ressaltar os esforços de muitos países da região para recuperar a defasagem educacional por meio do ensino remoto, “a prontidão e a implementação ainda são um problema”.

    “Ao mesmo tempo em que os países estão implementando iniciativas promissoras como resposta de emergência, é necessário começar a pensar em como adaptar, melhorar e adotar essas iniciativas para o longo prazo criando sistemas educacionais mais inclusivos, eficazes e resilientes”, afirma o documento.

    Para garantir a segurança da reabertura, o relatório sugere que os professores recebam prioridade no processo de vacinação. Além disso, afirma que o programa de alimentação escolar pode atrair os estudantes de volta quando as escolas forem reabertas.

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