Quais os riscos da vacinação ser interrompida no país

Governo fala em escassez de oferta mundial e pede ajuda para a China para comprar mais vacinas. Ministro reduziu previsão de imunizantes para março

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. Este conteúdo é exclusivo para nossos assinantes e está com acesso livre como uma cortesia para você experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Apoie nosso jornalismo. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

Alegando o risco de interrupção da campanha de vacinação contra a covid-19 no Brasil por falta de imunizantes, o governo federal enviou na sexta-feira (5) uma carta ao embaixador da China no Brasil, Yang Wanming, pedindo ajuda para a compra de 30 milhões de doses da vacina desenvolvida pelo laboratório estatal chinês Sinopharm.

O documento foi assinado pelo secretário-executivo do Ministério da Saúde, Élcio Franco. Na carta, ele cita o fato de o Brasil enfrentar um recrudescimento da pandemia associado a uma nova variante com maior potencial de contágio e diz que a vacinação conseguiria barrar a propagação do vírus para outros países.

“A campanha nacional de imunização, contudo, corre risco de ser interrompida por falta de doses, dada a escassez da oferta internacional. Por conta disso, o Ministério da Saúde vem buscando estabelecer contato com novos fornecedores, em especial a Sinopharm, cuja vacina é de comprovada eficácia contra a Covid-19”

Élcio Franco

secretário-executivo do Ministério da Saúde, em carta enviado ao embaixador da China no Brasil

Atualmente, o Brasil representa um risco global devido ao surgimento de uma nova variante em Manaus, chamada de P.1, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde). Pesquisas já demonstraram que ela é duas vezes mais transmissível do que o vírus “original”. Pessoas infectadas também apresentam uma carga viral (quantidade do vírus no organismo) dez vezes superior.

Em estudos feitos em laboratório, tanto a vacina da Pfizer quanto a Coronavac, que vem sendo usada no Brasil, demonstraram ser eficazes contra a P.1. Epidemiologistas atribuem o aumento de casos e mortes no país não à mutação no vírus apenas, mas principalmente à falta de adesão às medidas de isolamento e distanciamento social.

A vacinação é considerada a única medida capaz de conter a pandemia, e o próprio ministro da Economia, Paulo Guedes, passou a defender a imunização em massa para a retomada da economia. Governadores, parlamentares e empresários vêm pressionando o Ministério da Saúde a adquirir mais doses para acelerar a campanha de imunização.

O ritmo de vacinação

O governo federal já havia distribuído 18 milhões de doses de vacinas aos estados na quarta-feira (10), segundo o Ministério da Saúde. Desse total, 78% eram da Coronavac, adquirida pelo estado de São Paulo.

O peso do imunizante do Instituto Butantan no total distribuído pelo país tem sido usado pelo governador João Doria (PSDB) como um trunfo político. O tucano tem criticado o presidente Jair Bolsonaro, seu adversário, dizendo que, sem a Coronavac, o país não estaria conseguindo vacinar sua população.

O ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, reconheceu na quarta-feira (10) que as doses que estão totalmente garantidas são apenas as do Butantan e as que serão produzidas pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz).

“Sem a produção da Fiocruz e do Butantan, nós hoje não teríamos vacinados praticamente ninguém. Temos que investir cada vez mais neste caminho. Temos muita incerteza de receber as vacinas importadas”

Eduardo Pazuello

ministro da Saúde, durante evento em Brasília, na quarta-feira (10)

Até a quarta-feira (10), apenas 4,26% da população havia recebido a primeira dose, e 1,5%, a segunda. O Brasil tem mais de 210 milhões de habitantes.

8.736.891

pessoas receberam a primeira dose da vacina contra a covid-19 até a quarta-feira (10), segundo o consórcio de veículos de imprensa

Do total de vacinas que chegaram aos municípios, apenas 3,9 milhões são do laboratório anglo-sueco AstraZeneca, desenvolvidas em parceria com a Universidade de Oxford, no Reino Unido. Elas foram importadas pelo Ministério da Saúde da Índia. Mais doses do imunizante estão sendo produzidas no Brasil pela Fiocruz, ligado ao governo federal, mas o cronograma da entidade tem atrasado, inclusive por problemas técnicos no envase.

O risco de interrupção

Tanto a vacina do Butantan quanto a da Fiocruz dependem da importação de insumos da China para serem produzidas. As duas instituições já enfrentaram problemas para conseguir a liberação do IFA (Ingrediente Farmacêutico Ativo), o princípio ativo do produto, o que atrasou o fornecimento de mais doses para o Programa Nacional de Imunizações.

Até o início de março, porém, o envio dos insumos havia sido regularizado. Uma possível interrupção poderia ocorrer caso haja novos problemas nas importações de insumos.

A baixa quantidade de doses distribuídas já paralisou a vacinação em fevereiro, por um período de uma semana, em cidades como o Rio de Janeiro e Salvador. Um dos entraves é que as secretarias municipais precisam reservar metade dos lotes para a aplicação da segunda dose.

Outro problema é que o grupo prioritário é muito amplo e não tem critérios claros. O Ministério da Saúde incluiu 77 milhões de brasileiros nessa lista, como os idosos, profissionais de saúde, indígenas, quilombolas, presos, pessoas em situação de rua, caminhoneiros, militares e professores, entre outros.

Estados e municípios podem estabelecer cronogramas de acordo com suas realidades locais, mas devido à lentidão no envio de mais vacinas, os planos estão sendo prejudicados. São Luís, por exemplo, decidiu suspender a partir da quarta-feira (10) a vacinação de novos grupos prioritários, como pessoas com 74 anos, até que cheguem mais doses.

As incertezas no plano de vacinação

O Ministério da Saúde já alterou cinco vezes a previsão de doses a serem distribuídas apenas em março. Em fevereiro, o ministro Eduardo Pazuello havia projetado 46 milhões de vacinas.

No dia 4 de março, o número foi reduzido para cerca de 38 milhões. Dois dias depois, caiu para 30 milhões de doses. Na segunda-feira (8), o ministro estimou uma quantidade que pode variar de 25 a 28 milhões de imunizantes. Já na quarta-feira (10), a previsão de Pazuello foi reduzida para algo entre 22 e 25 milhões. A falta de vacinas se torna mais dramática pelo avanço da doença e os seguidos recordes de mortes no país.

2.286

mortes por covid-19 no Brasil num período de 24 horas foram registradas na quarta-feira (10), segundo o Ministério da Saúde

O governo vem tentando negociar tardiamente a compra de ao menos cinco outras vacinas: Pfizer, Janssen, Covaxin, Moderna e Sputnik V. Apesar dos acordos de intenção de compra, nenhum deles foi fechado. A compra mais adiantada é a da indiana Covaxin, produzida pelo laboratório Bharat Biotech. As 20 milhões de doses prometidas, porém, estão previstas apenas para julho. O imunizante também não tem aprovação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

A vacina da Sinopharm citada na carta enviada pelo Ministério da Saúde ao embaixador chinês no Brasil não estava, até então, nos planos divulgados pelo governo. Ela já foi aprovada para uso na China e usa a mesma plataforma da Coronavac: o próprio coronavírus inativado. A vacina não causa a doença, mas induz a produção de anticorpos pelo sistema imune.

Mudança de discurso

Pressionado pelo crescente número de mortos, Bolsonaro tem mudado seu discurso e passado a defender a compra de mais vacinas, inclusive participando pessoalmente da negociação com a Pfizer.

Na quarta-feira (10), o presidente apareceu usando máscara na cerimônia em que sancionou uma lei que autoriza o governo a assumir riscos pelos possíveis efeitos adversos graves da vacina na população.

A lei também permite a compra de vacinas por empresas privadas, mas os imunizantes deverão ser totalmente doados ao SUS (Sistema Único de Saúde) enquanto houver a vacinação de grupos prioritários. No evento, Bolsonaro afirmou que o governo “não poupou esforços para atender a todos os estados e municípios”. Até então, ele vinha atacando governadores e prefeitos pela adoção de medidas restritivas.

O pedido de ajuda à China também foi visto com surpresa. Integrantes do governo, como o ex-ministro da Educação Abraham Weintraub e o filho do presidente, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, vinham atacando o país asiático. O próprio embaixador chinês Yang Wanming reagiu dizendo que a atitude de membros do governo e da família do presidente poderia ter consequências na relação entre os dois países. A China é o maior parceiro comercial brasileiro.

As dificuldades na importação de insumos da China para a fabricação da vacina de Oxford pela Fiocruz, em janeiro e fevereiro, foram consideradas inicialmente uma consequência dos erros diplomáticos do governo, o que o Itamaraty negou.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.