Novo recorde: o Brasil de 1.954 mortes por covid-19 num só dia

Às vésperas da pandemia completar um ano, país assiste a uma escalada de óbitos, com capacidade de leitos de UTI no limite e poucas doses de vacina disponíveis

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O Brasil bateu mais um recorde diário de mortes por covid-19 na terça-feira (9). Foram 1.954 óbitos em apenas 24 horas, segundo consórcio de veículos de imprensa. Nos cálculos do Ministério da Saúde, o número bateu 1.972, também recorde. Nenhum outro lugar do mundo registrou tantas mortes quanto o país nesse dia em razão da doença causada pelo novo coronavírus.

Só no ano de 2021, o Brasil já bateu quatro vezes o número absoluto de mortes diárias. A média móvel de mortes, que leva em conta os sete dias anteriores, ficou em 1.572. É o 11º dia seguido de recorde, num quadro de hospitais lotados, filas para acessar UTIs e escassez de vacinas para imunizar a população.

Na quinta-feira (11), o mundo completa um ano em estado de pandemia, decretado pela OMS (Organização Mundial da Saúde) em 11 de março de 2020.

O cenário crítico generalizado

Em boletim publicado na terça-feira (9) sobre a disponibilidade de leitos de UTI de covid-19 para adultos no SUS (Sistema Único de Saúde), a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), ligada ao Ministério da Saúde, alerta que 20 das 27 unidades da federação estão em estado crítico, com ao menos 80% de ocupação. Dessas unidades, 13 já apresentam taxas superiores a 90%. O quadro crítico de ocupação de ao menos 80% dos leitos se repete em 25 das 27 capitais do país, sendo que 15 delas têm taxa de ocupação superior a 90%.

Em São Paulo, maior estado do país, ao menos 30 pessoas já morreram no mês de março na fila de UTIs. Santa Catarina, que também já registrou mortos à espera de leitos, tem quase 400 pacientes aguardando tratamento intensivo.

Os pesquisadores da Fiocruz reforçam a necessidade de medidas de distanciamento social, uso de máscara e higiene das mãos. “Nos municípios e estados que já se encontram próximos ou em situação de colapso, a análise destaca a necessidade de adoção de medidas de supressão mais rigorosas de restrição da circulação e das atividades não essenciais”, disse o boletim da instituição.

O endurecimento de restrições para conter a escalada de mortes, porém, é reiteradamente atacado pelo presidente Jair Bolsonaro. O presidente questiona governadores e prefeitos que agem nesse sentido. A busca de verbas por mais leitos de UTI também é alvo de embates.

Desde o primeiro pico da pandemia, em meados de 2020, o número de leitos de UTI financiados pela União caiu aproximadamente 70%, segundo monitoramento do portal G1 feito com base em dados do Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde).

No contexto do fim do estado de calamidade, que flexibilizou regras fiscais para combater a crise sanitária até 31 de dezembro, o número de leitos habilitados pelo governo federal passou de 11.565, em julho de 2020, para 3.372 no início de março de 2021, quando os índices relacionados à pandemia mostram um cenário ainda mais grave do que o vivenciado durante o primeiro pico da doença.

No início de março de 2021, uma portaria do Ministério da Saúde autorizou o financiamento de mais 3.201 leitos de UTI para pacientes com covid-19. Cerca de 150 municípios espalhados em 22 estados figuram na lista dos que podem fazer a solicitação.

A vacinação a passos lentos

Segundo dados do consórcio de imprensa atualizados até a noite de terça-feira (9), o percentual de pessoas que receberam a primeira dose de uma vacina contra a covid-19 no Brasil era de 4,13%. Já o número dos que receberam a segunda dose não chegava a 2%.

O ritmo lento da imunização fez com que os presidentes da Câmara, deputado Arthur Lira (PP-AL), e do Senado, senador Rodrigo Pacheco (DEM-MG), cobrassem do ministro da Saúde, o general da ativa Eduardo Pazuello, informações sobre o calendário de vacinação contra a covid-19 no Brasil.

Entre os principais entraves para a vacinação em massa no país está a escassez de doses de imunizantes. Até o momento, as vacinas que estão disponíveis no país são a Coronavac, do instituto Butantan em parceria com a farmacêutica Sinovac, e a vacina da Universidade de Oxford em parceria com o laboratório AstraZeneca, com acordos de produção local fechados com a Fiocruz.

Pressionado diante do aumento de casos e mortes pela covid-19 e frente à organização conjunta de governadores que buscam formas de evitar um iminente colapso, Bolsonaro se reuniu na segunda (8) com representantes da Pfizer e formalizou a intenção de comprar 100 milhões de doses de seu imunizante. Essa é a única vacina que obteve até o início de março o registro definitivo da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para uso no país, mas duas doses ainda não estão disponíveis.

Segundo o governo, a empresa antecipou seu cronograma e deve entregar 14 milhões de doses de vacina até junho. Isso depois que o governo rejeitou sucessivas propostas da empresa que poderiam render entrega de parte das doses ainda em 2020, segundo o jornal Folha de S.Paulo.

O governo também negocia com a Janssen (farmacêutica da Johnson & Johnson), com a Moderna, com a russa Sputnik V e com a chinesa Sinopharm. Há ainda a expectativa de que o país receba doses do Covax, organização liderada pela Organização Mundial de Saúde, e também da indiana Covaxin.

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