Como a pandemia ameaça o mandato do presidente do Paraguai

Em três dias de protestos, manifestantes derrubam quatro ministros e seguem pressionando pela saída de Mario Abdo Benítez

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Milhares de manifestantes vêm saindo às ruas de Assunção, capital do Paraguai, para pedir a renúncia do presidente Mario Abdo Benítez. Os protestos tiveram início na noite de sexta-feira (5) e, até a manhã de segunda (8), já tinham resultado em pelo menos 1 morto, 21 feridos e 8 detidos.

O principal motivo das manifestações é o descontentamento com a política de enfrentamento à pandemia. O país sofre com falta de leitos e de insumos médicos, enquanto o número de infectados e mortos cresce, e a vacinação é apenas irrisória.

O Paraguai é o país do Cone Sul que menos investe na saúde de sua própria população, seja em termos absolutos ou relativos. Os dados mais recentes do Banco Mundial, de 2018, mostram que só 2,9% do PIB (Produto Interno Bruto) paraguaio é gasto em saúde, contra 3,9% no Brasil, 5,9% na Argentina e 6,7% no Uruguai.

Ciente de suas fragilidades estruturais, o governo optou por, ainda no início da pandemia, em março de 2020, implementar uma política rigorosa de quarentena e de fechamento das fronteiras, mas as perdas econômicas fizeram crescer a pressão popular por reabertura e relaxamento. Em dezembro de 2020, a Ponte da Amizade, na fronteira com o Brasil, foi reaberta. A curva de contaminados e mortos é ascendente.

Até esta segunda-feira (8), o país computava mais de 166 mil casos de contaminação e quase 3.300 mortes pela covid-19. São 46,18 mortes por grupo de cem mil habitantes no Paraguai, enquanto no vizinho Uruguai são 18,57 mortos por cem mil.

A vacinação é irrisória: só 0,02 doses foram aplicadas a cada grupo de cem habitantes, nos dados computados até esta segunda-feira (8). Esta é a menor proporção de doses aplicadas entre todos os países do Cone Sul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai).

O perfil de Mario Abdo

Mario Abdo Benítez – também chamado de Marito – é um político conservador, aliado de Jair Bolsonaro na região. Assim como o presidente brasileiro, ele também é militar reformado. Abdo foi paraquedista.

Como político, é membro do Partido Colorado – legenda conservadora fundada no século 19, que tem sido hegemônica no arranjo político local – pelo qual foi senador, antes de se tornar presidente, em agosto de 2018.

Apesar da afinidade com Bolsonaro, Marito não minimiza os riscos da pandemia nem desdenha das políticas sanitárias para enfrentá-la. Em seu discurso na TV, neste domingo (7), o presidente paraguaio defendeu que haja “responsabilidade política dos diferentes atores para pensar, em primeiro lugar, na vida da população, entendendo que o coronavírus é uma ameaça real”.

Em março de 2017, ele enfrentou uma onda de protestos que terminou com um ataque incendiário à sede do Congresso, em Assunção. Naquele momento, os manifestantes se sublevaram contra uma proposta de mudança constitucional que instituiria o direito à reeleição presidencial. Abdo correu risco de perder o mandato, mas foi salvo por uma articulação política dentro do Congresso.

Baixas políticas

As manifestações que tiveram início nesta sexta-feira (5) são uma nova ameaça ao mandato de Abdo. Diante da pressão, o ministro da Saúde, Julio Mazzoleni, renunciou. Ele deve ser substituído interinamente por Julio Borba.

Além do ministro da Saúde, caíram também seu chefe de gabinete, Juan Ernesto Villamayor; o ministro da Educação, Eduardo Petta; e a ministra da Mulher, Nilda Romero. O ministro do Interior, Arnaldo Giuzzio, disse que outras mudanças de gabinete ainda podem ocorrer.

A troca de ministros foi a forma que Abdo encontrou para tentar aplacar as manifestações que pedem, em primeiro lugar, a sua própria saída: seja por renúncia ou pela instalação de um processo político semelhante ao impeachment no Congresso.

O partido Colorado, de Abdo, tem maioria no Congresso. Porém, ele pertence a uma facção minoritária dentro da legenda, e existe o risco de que o ex-presidente Horacio Cartes, que lidera a facção majoritária, resolva levar adiante a destituição de Abdo.

No domingo (7), manifestantes tentaram chegar até as portas da casa de Cartes, para pressioná-lo a levar adiante uma votação no Congresso pela cassação do mandato do presidente Marito. Lideranças da facção ligada a Cartes dizem que é improvável que isso ocorra, mas advertiram que estarão atentos às nomeações do gabinete presidencial nos próximos, num sinal de que a acomodação de aliados no novo gabinete pode ter papel fundamental para preservar o mandato do presidente.

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