Como Doria confronta as evidências ao manter igrejas abertas

Decreto que permitiu eventos religiosos no pior momento da pandemia contrariou cientistas que assessoram o governo paulista. Reuniões aumentaram casos de infecção em outros países

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. A maior parte dos nossos conteúdos são exclusivos para assinantes. Aproveite para experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

Todas as regiões de São Paulo estão desde sábado (6) na fase mais rigorosa (vermelha) do plano do estado para lidar com a covid-19. A medida foi tomada devido ao agravamento da pandemia e à ocupação recorde dos leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva). Pelas regras, apenas serviços considerados essenciais podem abrir nessa etapa. Por determinação do governador João Doria (PSDB), as igrejas estão entre esses serviços essenciais.

A inclusão de “atividades religiosas de qualquer natureza” na lista de atividades essenciais foi anunciada pelo tucano em 1º de março. O decreto publicado por ele no dia seguinte permite o funcionamento das igrejas, “obedecidas as determinações sanitárias”.

A decisão representou um recuo do governador em relação a posicionamentos anteriores. No final de fevereiro, Doria havia vetado um projeto de lei do deputado estadual Gil Diniz (sem partido) que considerava as igrejas essenciais em tempos de crise. Diniz é ligado ao presidente Jair Bolsonaro. Para barrar o texto, o governador alegou que ele era genérico e descumpria requisitos sanitários.

Com o veto, Doria passou a sofrer críticas de setores de igrejas evangélicas, que dão sustentação a Bolsonaro. O descontentamento de líderes religiosos foi visto como o motivo para a mudança nas regras, mesmo com a resistência de cientistas que assessoram o governo.

“Eu sou católico e entendo que a oração ajuda muito a aumentar a sua resiliência, a sua resistência e a sua esperança em relação ao futuro”

João Doria

governador de São Paulo, em entrevista a jornalistas sobre o decreto que inclui as igrejas entre as atividades essenciais

Em nota ao jornal Folha de S.Paulo, o governo paulista afirmou que “nunca proibiu o funcionamento dos templos religiosos, apenas recomendava a não aglomeração nestes locais”. Com o decreto, segundo o governo, a relevância das atividades religiosas passa a ser reconhecida, “sem deixar de cumprir as normas sanitárias em vigor”.

Mas a decisão tem sido criticada, mesmo com a justificativa de que elas precisam obedecer os protocolos de saúde. As igrejas são pontos de aglomeração de fiéis em ambientes fechados, propícios à transmissão do vírus. A inclusão delas na lista de atividades essenciais ocorre no pior momento da pandemia, quando o país bate recordes de mortes.

Na segunda-feira (8), Doria anunciou a criação de mais 280 leitos de internação (metade deles será de UTI) em todo o estado, para evitar o colapso do sistema de saúde.

80%

era a taxa de ocupação de leitos de UTI em São Paulo no domingo (7), a maior marca do estado desde o início da pandemia

8.427

pessoas estavam internadas nas unidades de terapia intensiva na mesma data

A resistência dos cientistas

A discussão sobre a abertura das igrejas acontece desde o início da pandemia. Em março de 2020, Bolsonaro assinou um decreto definindo as atividades religiosas como essenciais, mas sua decisão tinha um poder limitado, devido à autonomia de estados e municípios para definir seus critérios de fechamento. O decreto presidencial servia apenas como uma orientação, e não necessariamente precisava ser seguido.

Na época, o próprio Doria se posicionou contra a medida e pediu para que as igrejas fizessem “cultos e encontros virtualmente, e não presencialmente”, devido à “dimensão da gravidade” da crise.

Os médicos que integram o centro de contingência do coronavírus do governo de São Paulo foram resistentes à abertura das igrejas na fase vermelha e recomendaram a Doria (PSDB) um livro que analisa casos de transmissão do novo coronavírus em igrejas. Elas são classificadas como “superdisseminadoras” do vírus que causa a covid-19.

A mesma discussão ocorreu no Rio de Janeiro em 2020, onde o então prefeito, Marcelo Crivella (Republicanos), que é bispo licenciado da Universal do Reino de Deus e sobrinho de Edir Macedo, fundador da igreja, autorizou o funcionamento das atividades religiosas, em maio. O decreto foi suspenso no mês seguinte pela Justiça.

Na maioria do país, as igrejas permaneceram abertas, seguindo regras que variam de acordo com os governos locais. Elas têm funcionado, no geral, com restrições de horário, adoção de medidas de distanciamento e uso de máscaras, além de limitação da capacidade do público.

Quais os riscos das igrejas

Explosões de casos da doença têm sido associadas a aglomerações em igrejas desde o início da pandemia em países como Estados Unidos, Alemanha e França. Um levantamento do jornal The New York Times publicado em julho de 2020 associou mais de 650 casos de infecção a eventos realizados em 40 igrejas ao redor dos Estados Unidos no início da disseminação da covid-19 no país.

O caso mais emblemático, porém, aconteceu na Coreia do Sul. Em abril de 2020, 5.212 casos de infecção ocorreram a partir de uma única pessoa devido a uma aglomeração numa igreja. Na época, os casos ligados ao evento respondiam por 48,7% de todos os registros de covid-19 no país.

Em agosto de 2020, um líder religioso foi preso na Coreia do Sul sob suspeita de que sua igreja tenha prejudicado as ações do governo no combate à pandemia. O homem, de 88 anos, foi acusado de esconder das autoridades locais a contaminação de alguns membros da comunidade religiosa e de fazer reuniões escondidas para evitar quarentenas. Ele negou e disse cooperar com as autoridades.

Segundo os especialistas, é aconselhável o adiamento de reuniões religiosas que envolvam muita gente, porque elas têm alto potencial de saturar os hospitais e os leitos de UTI.

Aumento nas transmissões

As igrejas são ambientes fechados, com baixa circulação de ar, e reúnem grupos numerosos de pessoas. Embora o uso de máscaras reduza os riscos de transmissão, elas não os eliminam totalmente.

O contágio pelo novo coronavírus acontece por meio de gotículas de saliva expelidas na respiração, na fala, na tosse ou em espirros e por partículas suspensas no ar que carregam o vírus. Eles entram no organismo por meio das mucosas dos olhos, nariz e boca.

O perigo de contaminação, portanto, pode ser potencializado por causa dos cantos religiosos. Pesquisadores britânicos de sete universidades e de organizações de saúde, em estudo que teve o apoio do governo do Reino Unido, analisaram a quantidade de partículas respiratórias produzidas em diferentes atos verbais.

O resultado, divulgado em agosto de 2020, mostra que falar e cantar sem colocar tanta força na voz, em volume que varia de 50 a 60 decibéis, produz praticamente a mesma quantidade de partículas. Quando o volume, porém, sobe para algo entre 90 e 100 decibéis, a massa se aerossóis expelida aumenta entre 1,5 e 3,4 vezes.

Nas igrejas, fiéis entoam cantos, e algumas delas têm corais, o que agrava a situação. Outro problema é que, como os frequentadores integram a mesma comunidade e se conhecem há bastante tempo, muitos costumam se cumprimentar com abraços e beijos, além de passar um longo período de tempo reunidos em locais fechados nas celebrações.

Tentativa de reverter a decisão

Depois do decreto assinado por Doria, o advogado Flávio Grossi decidiu entrar na Justiça com uma ação popular pedindo para que a medida seja anulada. Segundo o advogado, a autorização para o funcionamento das igrejas representa um “risco iminente de dano irreversível ao patrimônio do estado” devido ao aumento de infecções por causa das aglomerações em igrejas, templos e centros religiosos.

A alta nos casos, afirmou, levará a um uso ainda maior do “já saturado sistema de saúde do estado”. “Ademais, a regressão do estado à fase vermelha do Plano São Paulo demonstra que é mais que urgente a necessidade de isolamento social e mínima circulação de pessoas nas ruas”, disse o advogado na ação.

O Ministério Público de São Paulo se reuniu virtualmente na segunda-feira (8) com integrantes do governo e líderes religiosos para discutir o tema. Em nota ao jornal Folha de S.Paulo, o procurador-geral de Justiça, Mario Sarrubbo, afirmou que o momento “exige que todas as decisões sejam subordinadas ao principal objetivo: proteger a vida”. A tendência é que o órgão oriente para que as igrejas sejam retiradas da lista de atividades essenciais.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.