A iniciativa conjunta de governadores em meio ao colapso sanitário

Líderes estaduais articulam pacto nacional para anunciar medidas conjuntas de isolamento social e combate à pandemia. Movimento ocorre em meio ao pior momento da crise e à inércia do governo federal

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Governadores de 21 estados e do Distrito Federal articulam um pacto nacional para combater a pandemia do novo coronavírus de forma conjunta. A crise sanitária no Brasil passa por sua pior fase no início de março, com mais de 60.000 casos sendo registrados por dia e média móvel de quase 1.500 mortes diárias por covid-19.

O acordo é liderado pelo governador do Piauí, Wellington Dias (PT). Segundo Dias, a ideia é promover medidas restritivas que sejam comuns a todas as unidades que aderirem ao pacto. Entre as ações discutidas pelo grupo estão o aumento da fiscalização para impedir eventos com aglomeração e a proibição da venda de bebidas alcoólicas a partir de um horário a ser definido.

Segundo a coluna Painel, do jornal Folha de S. Paulo, o pacto também deve criar uma estratégia unificada de comunicação para aumentar a conscientização sobre a gravidade do momento entre a população e incentivar o isolamento social.

De acordo com o governador do Piauí, a lógica por trás do pacto é uniformizar as medidas de restrição para evitar que medidas de combate à pandemia sejam pouco efetivas.

“Não adianta o meu estado fazer e outro não fazer. Isso é o que chamei de ‘enxugar gelo’, ou seja, a transmissibilidade tem que ser cortada nacionalmente. É claro que o ideal é como fazem outros países, o poder central estar fazendo isso”

Wellington Dias

governador do Piauí, em entrevista à GloboNews em 7 de março de 2021

Os governadores também pretendem agir para acelerar o processo de vacinação nos estados. Em entrevista à GloboNews no domingo (7), Dias afirmou que o grupo deve solicitar a outros países, laboratórios e órgãos internacionais – como a OMS (Organização Mundial da Saúde) – prioridade para o recebimento de vacinas no Brasil.

As medidas do pacto devem valer até o dia 14 de março. Na segunda-feira, os 22 governadores têm reunião marcada com o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, e representantes da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) para discutir medidas de enfrentamento à pandemia e o avanço do plano de vacinação. Eles também dialogam com os presidentes da Câmara e do Senado, Arthur Lira (PP-AL) e Rodrigo Pacheco (DEM-MG).

Quem aderiu

  1. Renan Filho (MDB), governador do Alagoas
  2. Waldez Góes (PDT), governador do Amapá
  3. Wilson Lima (PSC), governador do Amazonas
  4. Rui Costa (PT), governador da Bahia
  5. Camilo Santana (PT), governador do Ceará
  6. Ibaneis Rocha (MDB), governador do Distrito Federal
  7. Renato Casagrande (PSB), governador do Espírito Santo
  8. Ronaldo Caiado (DEM), governador de Goiás
  9. Flávio Dino (PCdoB), governador do Maranhão
  10. Mauro Mendes (DEM), governador de Mato Grosso
  11. Romeu Zema (Novo), governador de Minas Gerais
  12. Helder Barbalho (MDB), governador do Pará
  13. João Azevedo (Cidadania), governador da Paraíba
  14. Ratinho Júnior (PSD), governador do Paraná
  15. Paulo Câmara (PSB), governador de Pernambuco
  16. Wellington Dias (PT), governador do Piauí
  17. Claudio Castro (PSC), governador do Rio de Janeiro
  18. Fátima Bezerra (PT), governadora do Rio Grande do Norte
  19. Eduardo Leite (PSDB), governador do Rio Grande do Sul
  20. Carlos Moisés (PSL), governador de Santa Catarina
  21. João Doria (PSDB), governador de São Paulo
  22. Belivaldo Chagas (PSD), governador de Sergipe

Cinco governadores não haviam se manifestado sobre o pacto até a noite de domingo (7):

  1. Gladson Cameli (PP), governador do Acre
  2. Reinaldo Azambuja (PSDB), governador do Mato Grosso do Sul
  3. Coronel Marcos Rocha (PSL), governador de Rondônia
  4. Antonio Denarium (PSL), governador de Roraima
  5. Mauro Carlesse (DEM), o governador de Tocantins

O isolamento social em baixa no Brasil

A iniciativa dos governadores ocorre em um contexto de aperto nas medidas restritivas no início de março, após registros de baixa adesão ao isolamento social em fevereiro. De acordo com o monitor de isolamento social do Estadão/Inloco, o país atingiu em 26 de fevereiro de 2021 o patamar mais baixo de isolamento desde 13 de março de 2020. Ou seja, apesar do pior momento da pandemia, a circulação de pessoas nunca esteve tão alta desde o início da crise sanitária

31,1%

era o índice de isolamento social no Brasil em 26 de fevereiro, o menor nível desde 13 de março de 2020 (30,1%)

O cenário tem como pano de fundo a campanha contra o isolamento social promovida por Jair Bolsonaro. O presidente repete desde o início da pandemia que medidas de restrição “destroem empregos”, defendendo uma falsa contraposição entre saúde e economia. Em contrapartida ao isolamento, Bolsonaro promove remédios sem eficácia contra a covid-19.

Bolsonaro também culpa os governadores pela crise sanitária e econômica, tendo como principal adversário o mandatário de São Paulo, João Doria (PSDB) – potencial oponente nas eleições presidenciais de 2022.

Desde que o Supremo reconheceu, em abril de 2020, que estados e municípios têm autonomia para tomar medidas de combate à pandemia, como as quarentenas, Bolsonaro alega que ele não pode fazer nada. O próprio tribunal, porém, já desmentiu o presidente e apontou que não o proibiu de atuar durante a pandemia, especialmente na coordenação de medidas sanitárias.

Além disso, o presidente minimiza os efeitos da crise e as mais de 265 mil mortes registradas no país. Em evento em Goiás em 4 de março de 2021, Bolsonaro disse: “Nós temos que enfrentar os nossos problemas, chega de frescura e de mimimi. Vão ficar chorando até quando?”.

Também em 4 de março, dias antes de surgir a iniciativa do pacto nacional, 14 governadores enviaram uma carta a Bolsonaro pedindo mais esforços na vacinação. Eles disseram estar no “limite de suas forças”, e argumentaram que o país deve ter pressa no combate à covid-19.

As UTIs lotadas pelo país

Enquanto Bolsonaro insiste em medidas que vão contra as recomendações das organizações sanitárias internacionais, o Brasil vive um colapso generalizado de seu sistema de saúde.

Em seu pior momento da crise sanitária da covid-19, o país tem registrado cenas de caos na saúde de Norte a Sul. Em março de 2021, mês em que a pandemia completa um ano, o país teve pela primeira vez, de forma simultânea em várias regiões, um aumento em indicadores como número de casos de infecção e mortes, incidência de síndromes respiratórias agudas graves, positividade de testes para a doença e sobrecarga nos hospitais.

Segundo levantamento da CNN Brasil, 21 estados e o Distrito Federal têm UTIs (Unidades de Terapia Intensiva) com mais de 80% de ocupação – os cinco estados cujos governadores não haviam se posicionado em relação ao “pacto nacional” até a noite de domingo (7) estão entre eles.

Alguns estados – Rondônia, Acre, Mato Grosso e Rio Grande do Sul – estão com mais de 100% de ocupação, o que significa que há fila para que pacientes em estado grave sejam levados à UTI.

O Ministério da Saúde avalia que as mortes pelo novo coronavírus no Brasil podem chegar a 3.000 por dia na segunda metade de março. Em meio ao aumento da pressão sobre o governo federal, a pasta incentiva os estados a reabrirem hospitais de campanha – o que não é considerado por especialistas como a melhor resposta, por ser um investimento caro e que não deixa melhorias permanentes.

A vacinação em ritmo lento

Enquanto a crise sanitária brasileira se agrava, a vacinação caminha a passos lentos no país. Segundo dados do consórcio de imprensa, 8,22 milhões de pessoas haviam recebido a primeira dose até o domingo (7). Isso equivale a cerca de 3,9% da população brasileira. A vacinação teve início no Brasil no final de janeiro.

Com a demora do governo federal para acelerar a vacinação contra a covid-19 no Brasil, mesmo com o anúncio de um acordo inicial com a Pfizer, governadores, prefeitos e empresários tentam negociar por conta própria a compra de mais imunizantes. A aquisição de vacinas pelos entes federativos foi autorizada pelo Supremo Tribunal Federal, e o Congresso aprovou um projeto liberando a compra privada, que ainda precisa de sanção presidencial.

A descentralização da compra tem criado um emaranhado de negociações e promessas de mais doses que não tem prosperado. Acordos paralelos aos anunciados pelo Ministério da Saúde são vistos com desconfiança até mesmo entre os governadores, apesar da mobilização dos estados para encontrar alternativas.

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