O Brasil visto como ameaça por outros países na pandemia

Preocupação com descontrole da covid-19 e surgimento de novas cepas aparece na imprensa e em declarações de autoridades e cientistas estrangeiros

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Cresce fora do país a preocupação com a situação brasileira na pandemia e os reflexos que ela pode ter internacionalmente. Aqui e ali, despontam vozes na mídia e na ciência que alertam para a falta de controle da covid-19, e como essa realidade facilita o surgimento de variantes mais contagiosas, como a P.1, surgida em Manaus e já detectada nos EUA e Europa.

Na sexta-feira (5), o país registrou 1.760 mortes por covid-19 em 24 horas, de acordo com o consórcio de veículos de imprensa. Foi o quarto dia seguido com número de óbitos diários acima de 1.700. O Brasil é o segundo país em número total de mortes pela doença no mundo, com mais de 262 mil óbitos. Em várias regiões do país, o cenário é de colapso na saúde, com vagas de UTI preenchidas e pacientes em estado grave agonizando em enfermarias.

Apesar da situação, o presidente Jair Bolsonaro segue atacando qualquer tentativa de isolamento social, medida defendida pela comunidade científica como forma de contenção do vírus, mas que ele considera prejudicial à economia. O chefe do executivo chegou a criticar até o uso de máscaras. Na quinta-feira (4), perguntou: “Vão ficar chorando até quando?”

Embora ainda fique atrás dos EUA no total de mortos pela doença causada pelo novo coronavírus, o país já é campeão mundial de novos casos. Segundo dados divulgados pela OMS (Organização Mundial da Saúde) na sexta-feira (5), o Brasil teve 71,7 mil novas ocorrências de covid-19 em um dia, em comparação a 65 mil nos EUA (que tem uma população 56% maior). Isso significa que o país responde por 30% das novas infecções no mundo.

Na sexta-feira (5), o diretor-geral da OMS (Organização Mundial da Saúde), Tedros Adhanon Ghebreyesus afirmou estar "muito preocupado" com a situação da doença no país. “Se o Brasil não for sério, toda a América Latina será afetada. Seriedade é muito importante agora”, declarou à imprensa. “Enquanto em muitos países os números estão decrescendo, no Brasil estão crescendo sem parar”.

Em entrevista ao jornal britânico The Guardian, publicada na quarta-feira (3), o neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis instou o mundo a “se pronunciar com veemência a respeito dos riscos que o Brasil representa para o combate à pandemia”. “Qual o sentido de se resolver a pandemia na Europa e nos EUA, se o Brasil continua a ser terreno fértil para o vírus?”, indagou o cientista, que é professor titular do departamento de neurobiologia da Universidade Duke, nos Estados Unidos.

No jornal americano The New York Times, no mesmo dia, foi ao ar uma extensa reportagem que afirma que “nenhum outro país que passou por um surto tão grande [de covid-19] ainda tem de lidar com taxas de mortes recorde e um sistema de saúde à beira do colapso”. “Muitos outros países duramente afetados estão, em vez disso, dando passos cuidadosos na direção de alguma espécie de normalidade”.

Em artigo de opinião no site da NPR, rádio pública americana, o cientista político canadense Robert Muggah, cofundador do Instituto Igarapé, declarou que os equívocos de Bolsonaro “estão prejudicando esforços globais de combate à pandemia” e que o presidente brasileiro precisa ser pressionado no sentido de pôr “a casa em ordem antes que ele acabe colocando fogo em todas as outras casas”.

Para o Brasil conseguir reverter sua situação, uma das estratégias defendidas por especialistas é uma campanha de vacinação rápida e abrangente. Foi o que disse, por exemplo, Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos, a TV Globo em 3 de março. “A melhor coisa a fazer é vacinar as pessoas o mais rápido possível, em maior quantidade possíuvel”, afirmou o diretor em relação ao problema da variante de Manaus. É também o posicionamento da OMS. Dados de quinta-feira (4) apontavam menos de 4% da população vacinada.

O temor da ‘variante brasileira’

A mutação do novo coronavírus surgida no final de 2020 em Manaus é especialmente preocupante para autoridades e especialistas no exterior. Chamada de P.1, ela está associada ao segundo colapso do sistema de saúde do Amazonas, ocorrido entre dezembro e janeiro.

O aparecimento da mutação está relacionado ao alastramento do vírus sem restrições no país. “O vírus sobrevive fazendo cópias dele mesmo, fazendo multiplicações. Quanto mais ele circular, mais chances a gente dá a ele de fazer essas cópias e, consequentemente, alguma mutação, que pode ser vantajosa para ele”, afirmou o epidemiologista Ethel Maciel, pós-doutora pela Universidade Johns Hopkins e professora da UFES (Universidade Federal do Espírito Santo), ao Correio Braziliense.

Em 25 de janeiro de 2021, Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos, alertou para o perigo da nova variante. “Se ela [a variante] tem a capacidade de se espalhar de maneira mais eficiente, é provável que se torne cada vez mais dominante, mas temos que esperar para ver”, afirmou à CNN americana.

Do outro lado do Oceano Atlântico, em 1º de março, o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, exaltou a política de fronteira do Reino Unido, “uma das mais duras do mundo”, para tranquilizar cidadãos de seu país quanto à chegada do que chamou de “variante brasileira”, termo que foi adotado por diversos veículos estrangeiros para se referir à mutação P.1.

Ao New York Times, comentando sobre o Brasil, a diretora do Centro para Controle e Prevenção de Doenças dos EUA, Rochelle Walensky, declarou que “nesse nível de casos com variantes se espalhando, existe a possibilidade de perdemos completamente o terreno conquistado a duras penas”.

"Se você deixar o Brasil replicar o vírus de maneira descontrolada, essas variantes podem surgir e viajar para qualquer lugar", afirmou o virologista Julian Tang, da Universidade de Leicester, Reino Unido, ao site da BBC."Se você tem um celeiro de produção de vírus num país, se você não controla a transmissão, vai ter mutação ocorrendo por seleção natural, se essas variantes viajam pelo mundo e algumas delas escapam totalmente ou parcialmente às vacinas, é claro que é um risco."

Pessoas infectadas com a mutação de Manaus já foram detectadas nos Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, Bélgica e Japão, num total de 25 países. São casos individuais ou em números bastante reduzidos, mas o bastante para colocar autoridades em alerta e merecer ampla cobertura na mídia. No Reino Unido, ganhou repercussão uma “caçada” a um viajante não identificado que estaria infectado com a P.1. A operação mobilizou uma equipe de 40 pessoas.

Pesquisadores britânicos ouvidos pela revista New Scientist disseram que a P.1 começaria a se tornar uma ameaça maior no Reino Unido se a mutação atingisse pessoas que ainda não foram vacinadas. Nesse caso, internações e taxas de óbitos poderiam subir outra vez. A circulação maior da nova cepa também forneceria mais chances para o surgimento de outras cepas.

Especialistas também avaliam a ação da nova cepa em pessoas que criaram anticorpos contra Sars-Cov-2, seja porque já se infectaram ou porque foram vacinados. Uma pesquisa coordenada pela imunologista Ester Sabino, professora do Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo, junto com o pesquisador Nuno Faria, da Universidade de Oxford, constatou que a nova variante pode reinfectar pessoas que já tiveram covid-19.

Já em relação às vacinas, os resultados variaram. Um estudo de cientistas brasileiros mostrou que a CoronaVac tem baixa efetividade contra a cepa de Manaus, podendo demandar uma terceira dose da vacina. Já outro estudo, também preliminar, mostrou que o imunizante da Oxford/AstraZeneca consegue barrar a variante P.1.

As restrições e barreiras

No total, 17 países não aceitam a entrada de pessoas ou voos que passaram pelo território brasileiro. Os dados são da Iata (Associação Internacional de Transporte Aéreo) e foram compilados pelo jornal Folha de S.Paulo. É o segundo país com mais restrições, depois do Reino Unido.

O Brasil faz parte de uma “lista vermelha” de 33 países, que inclui África do Sul, Emirados Árabes Unidos e Venezuela, elaborada pelas autoridades britânicas. Viajantes vindos desses países precisam cumprir uma quarentena de duas semanas em hotéis no Reino Unido, pagando a estadia do próprio bolso.

Brasileiros estão atualmente impedidos de entrar nos EUA e novos vistos não estão sendo emitidos. Há exceções, como em algumas situações de união civil, parentesco e categorias profissionais. Viajantes de outras nacionalidades que estiveram no Brasil também não podem entrar. Em qualquer dos casos, é preciso seguir uma quarentena de 14 dias, a ser cumprida em um país que não está na lista das nações listadas pelo governo americano como sujeitas a restrição (além do Brasil, a lista inclui África do Sul, China e Reino Unido).

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