Quais os riscos da coinfecção pelo coronavírus

Estudo de pesquisadores brasileiros identificou dois casos de contaminação simultânea por variantes distintas

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Cientistas brasileiros foram responsáveis pelo primeiro estudo que detectou casos de coinfecção pelo novo coronavírus – a contaminação de um indivíduo por duas variantes distintas do agente patogênico.

O estudo foi liderado por microbiólogos da Universidade Feevale, em Novo Hamburgo (RS). O artigo foi divulgado no dia 22 de fevereiro na revista científica Virus Research, da Elsevier, um dos principais veículos de publicações científicas do mundo.

O estudo e as descobertas

O estudo foi feito a partir do sequenciamento genético dos vírus presentes em 92 pacientes, vindos de 40 municípios do Rio Grande do Sul. Os voluntários tinham entre 14 e 80 anos, e as amostras nasais foram coletadas entre os dias 23 e 30 de novembro de 2020.

Originalmente, a pesquisa tinha como objetivo determinar quais as variantes do coronavírus presentes no estado. Porém, no processo, foi detectada a presença de duas linhagens do vírus em duas pacientes – de 32 e 33 anos. É a primeira comprovação de que a coinfecção é possível. Até então, essa ideia estava apenas no campo das hipóteses.

Em uma dessas pacientes foram identificadas duas cepas do vírus que circulam no Brasil desde o início da pandemia, em março de 2020. Na outra, além de uma linhagem mais antiga, foi encontrada a chamada variante P.2, identificada oficialmente pela primeira vez no Rio de Janeiro em fevereiro, potencialmente mais transmissível.

Em ambos os casos, as mulheres se recuperaram plenamente, sem sequelas e sem a necessidade de internação. Contudo, a identificação da coinfecção chamou a atenção pelos riscos presentes em casos como esses.

Os riscos

Até o momento, não foi identificada uma relação entre a coinfecção e o agravamento da doença.

O principal risco da coinfecção é o surgimento de novas variantes do coronavírus, que podem vir a ser mais transmissíveis e mais mortais.

“Vamos imaginar que, com a circulação desenfreada do vírus, essas duas variantes se encontrem no mesmo indivíduo. A recombinação do genoma pode dar origem a uma variante com as duas características: mais transmissível e mais agressiva, características que tornariam o controle ainda mais difícil”, afirma ao jornal O Estado de S. Paulo o virologista Fernando Spilki, um dos autores do estudo.

Os vírus são considerados parasitas obrigatórios, ou seja, só sobrevivem se estiverem em um organismo hospedeiro, onde se reproduzem, como forma de continuarem existindo.

Com o passar do tempo, vacinas e tratamentos vão surgindo, e o próprio corpo dos indivíduos passa a apresentar respostas imunológicas que combatem a presença dos vírus.

Os agentes infecciosos então precisam achar formas de se adaptar e criar mecanismos para continuarem se espalhando. Na maior parte dos casos, tais adaptações são feitas a partir de mutações espontâneas – surgidas de mudanças bruscas no genoma viral.

Em outros casos, as adaptações são mais rápidas e aperfeiçoadas, já que surgem do encontro de duas linhagens virais distintas, que se comunicam entre si e absorvem as melhores características uma da outra a fim de criar uma cepa mais resistente e com melhor capacidade de reprodução.

Variantes mais transmissíveis e mais agressivas podem agravar o quadro da pandemia no Brasil e no mundo. Há também o risco dessas mutações conseguirem driblar a imunização promovida por vacinas – o que, segundo Spilki, só reforça a necessidade de uma campanha de vacinação massiva rápida e ampla.

“A vacinação em massa é fundamental, e quanto mais rapidamente acontecer, menor a chance do surgimento dessas novas variantes”, disse, também a’O Estado de S. Paulo.

O aparecimento de tais variantes também poderia fazer aumentar os casos de reinfecção – quando uma pessoa curada é contaminada novamente.

Os pesquisadores da Universidade Feevale argumentam no artigo que são necessárias mais pesquisas para analisar a frequência numérica de coinfecções e também estudos que monitorem o possível surgimento de novas variantes.

“Entender a filodinâmica [padrões de comportamento do vírus], a estrutura populacional e a complexidade genômica do Sars-CoV-2 [nome científico do vírus] é uma estratégia poderosa para estabelecer medidas de saúde pública para controlar sua disseminação”, diz o artigo.

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