O futebol brasileiro em meio ao pior momento da pandemia

Técnico Lisca, do América-MG, critica CBF e pede mudanças por causa do agravamento da crise sanitária. Temporada de 2021 começa com debate sobre continuidade dos torneios

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    Em 25 de fevereiro de 2021, o São Paulo venceu o Flamengo no estádio do Morumbi, pela última rodada do Campeonato Brasileiro de 2020. A vitória tricolor não impediu que os cariocas se sagrassem campeões nacionais, dado o empate do vice-líder Internacional com o Corinthians em Porto Alegre.

    A temporada de 2021 teve início logo na semana seguinte. Apenas três dias depois de vencer o Flamengo, o São Paulo fez sua estreia na nova edição do Campeonato Paulista. O rubro-negro fez seu primeiro jogo no Campeonato Carioca na terça-feira (2).

    A virada da temporada de 2020 para 2021 no futebol brasileiro acontece em meio ao pior momento da pandemia no país. Enquanto os principais campeonatos estaduais realizam suas primeiras rodadas, o Brasil registra recordes renovados de mortes pela covid-19.

    São mais de 40 dias seguidos em que a média de mortes diárias supera 1.000 vítimas. O cenário é de colapso de hospitais, com pessoas morrendo na fila de UTIs e corpos acumulando sem terem onde ser armazenados. O perfil de internados vem mudando, com cada vez mais jovens sendo hospitalizados. Enquanto isso, a vacinação patina: até 3 de março, apenas 3,5% da população brasileira havia recebido a primeira dose do imunizante.

    O desabafo de Lisca. E a fala de outros treinadores

    Na quarta-feira (3), antes da partida contra o Athletic Club pelo Campeonato Mineiro, o treinador Lisca, do América-MG, falou sobre a situação sanitária do país. O técnico disse que perdeu amigos para a doença e questionou a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) pela definição de datas da Copa do Brasil, que prevê equipes viajando para estados diferentes em meio à crise de saúde. “Não tem lugar nos hospitais. [...] Não é hora mais. É hora de segurar a vida”, disse o treinador.

    Também na quarta-feira (3), o técnico do Palmeiras, Abel Ferreira, disse que teme por um novo surto de coronavírus no elenco do clube – o time registrou 22 casos só em novembro de 2020. O alviverde empatou em 2 a 2 com o rival Corinthians, que jogou com oito desfalques por covid-19. Ferreira, que é português, também criticou a gestão da pandemia no Brasil. “As regras tinham que ser mais apertadas. Assusta a quantidade de mortos. Eu sou apaixonado pelo futebol, mas futebol sem vida não é nada”.

    Já o treinador do Grêmio, Renato Gaúcho – amigo pessoal de Bolsonaro –, seguiu uma linha contrária à de Lisca e Abel Ferreira ao comentar a relação do futebol com a pandemia, também na quarta-feira. O técnico disse ser favorável à continuidade do futebol no Brasil, argumentando que o esporte é um motivo para as pessoas ficarem em casa assistindo às partidas. Renato também afirmou: “não pode parar tudo no Brasil, daqui a pouco a pessoa não sai de casa, mas está morrendo de fome”.

    O futebol brasileiro em meio à pandemia

    Em março de 2020, quase um ano antes do desabafo de Lisca, o futebol brasileiro foi paralisado por causa dos primeiros avanços da pandemia no Brasil. A Conmebol, entidade máxima do futebol sul americano, também suspendeu as competições internacionais por tempo indeterminado.

    Durante a paralisação, o futebol foi alvo de pressão política de Bolsonaro. O presidente se mobilizou nos bastidores para articular a volta do futebol – no processo, ele contou com apoio dos presidentes de Vasco e Flamengo.

    A pressão deu resultado. As partidas voltaram em meados de junho, a começar pelo Campeonato Carioca. Outras federações seguiram e cumpriram as tabelas dos estaduais até o fim.

    A Série A do Campeonato Brasileiro começou em agosto. A CBF publicou protocolos sanitários para tentar diminuir o risco de contágio dentro das equipes, mas os esforços não impediram que todos os times da liga registrassem casos de coronavírus em seus elencos nos pouco mais de seis meses de duração do torneio.

    Um levantamento do programa Esporte Espetacular, da Rede Globo, mostrou que houve 302 casos registrados de infecção nos 20 clubes da Série A entre a primeira e última rodada do torneio. Sete times – Vasco, Fluminense, Palmeiras, Santos, Goiás, Flamengo e Athletico-PR – tiveram ao menos 20 infecções cada. Só seis equipes – Sport, São Paulo, Corinthians, Grêmio, Ceará e Botafogo – tiveram menos de 10 casos. Dezoito treinadores também foram diagnosticados com a doença. Apesar dos muitos remanejamentos de tabela ao longo do torneio, poucos tiveram a ver com os surtos de coronavírus nos elencos, e sim com sobreposição de jogos nas agendas de diferentes competições.

    A virada para a temporada de 2021

    Por causa da paralisação do futebol por cerca de quatro meses, a temporada de 2020 invadiu os primeiros meses do calendário de 2021. A CBF optou por não fazer uma pausa antes do início da nova temporada, e planejou que todos os jogos sejam realizados antes da virada para 2022. A ideia é que o calendário seja “normalizado” na temporada seguinte.

    Ou seja, as equipes da elite do futebol jogarão campeonatos estaduais, nacionais e continentais entre o final de fevereiro e o início de dezembro de 2021, sem ter tido um período de descanso após a temporada de 2020.

    A final da Copa do Brasil de 2020, entre Palmeiras e Grêmio – que será decidida no domingo (7), já com a nova temporada em andamento –, foi afetada pelo endurecimento das medidas de restrição no Rio Grande do Sul. O jogo de ida teve horário alterado a pedido do governo do estado, sob o argumento de minimizar as chances de aglomeração.

    A temporada de 2021 sob discussão

    O novo ano futebolístico começa em meio à piora significativa da pandemia no país. Em alguns estados, como Santa Catarina e Paraná, os campeonatos estaduais foram suspensos frente à gravidade da situação sanitária.

    Uma reportagem do portal UOL mostrou que, em São Paulo, há relutância entre clubes, federação e jogadores para discutir uma possível nova paralisação do futebol. Nem mesmo o surto no elenco do Corinthians levantou debates sobre o tema dentro do ambiente do esporte – o alvinegro sequer solicitou o adiamento da partida.

    Um dos argumentos usados a favor da continuidade do Campeonato Paulista é que o governo do estado segue autorizando as atividades ligadas ao futebol. As medidas mais restritivas anunciadas pelo governador João Doria na quarta-feira (3) não atingem o esporte.

    Outro motivo levantado para resistir a uma nova pausa em São Paulo diz respeito ao impacto financeiro de interromper as atividades. Em 2020, os clubes viram suas receitas caírem com a interrupção das receitas de bilheteria e redução de receitas como programas de sócio-torcedor e venda de produtos. Houve ainda queda nas audiências dos jogos na televisão, diminuindo a capacidade de arrecadação das equipes. Como resultado, clubes atrasaram pagamentos dos atletas. Em 2021, inclusive, muitos jogadores resistem à nova paralisação do torneio por acreditarem que poderão ficar sem receber seus rendimentos se os fluxos de caixa dos clubes paulistas forem interrompidos.

    Na imprensa esportiva, por sua vez, cresce a defesa da paralisação do futebol em meio à piora da pandemia – ou, ao menos, de mudanças substanciais para reduzir o risco de contágio e diminuir os deslocamentos das equipes. Na quinta-feira (4), as manifestações na imprensa foram amplamente de apoio às queixas feitas por Lisca na noite anterior.

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