Como transformar a indignação em resultado político

Um dia após recorde de mortes por covid-19, Bolsonaro fala em ‘frescura e mimimi’. O ‘Nexo’ ouviu ativistas, cientistas políticos e líderes comunitários sobre como reagir de forma efetiva contra investidas anticientíficas do presidente

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    O Brasil assiste ao pior momento da pandemia de covid-19 no país. As contaminações e mortes pela doença avançam a passos largos e os hospitais enfrentam sobrecarga em quase todas as regiões. Enquanto isso, o número de brasileiros que receberam a primeira dose de uma vacina contra a doença não chega a 4% da população.

    Na quarta-feira (3), o país registrou o maior número de mortes pelo novo coronavírus desde o início da pandemia. Foram 1.840 óbitos em apenas 24 horas, segundo o consórcio de veículos de imprensa. Em nota técnica divulgada na terça-feira (2), a Fiocruz informou que 18 estados e o Distrito Federal têm taxa de ocupação de leitos de UTI acima de 80%.

    Em meio à circulação de uma variante mais contagiosa do vírus, cientistas têm defendido o endurecimento de restrições, inclusive por meio de lockdowns rigorosos, para evitar uma escalada ainda maior de mortes. Governadores e prefeitos avançam nas quarentenas, mas tais medidas são atacadas pelo presidente Jair Bolsonaro.

    “Nós temos que enfrentar os nossos problemas, chega de frescura e de mimimi. Vão ficar chorando até quando? Temos de enfrentar os problemas. Respeitar, obviamente, os mais idosos, aqueles que têm doenças, comorbidades, mas onde vai parar o Brasil se nós pararmos?”

    Jair Bolsonaro

    presidente da República, em evento em Goiás, no dia seguinte a mais um recorde diário de mortes por covid-19 no Brasil

    Bolsonaro também propaga reiteradamente o uso de remédios ineficazes para combater o novo coronavírus e questiona o uso de máscaras. Atitudes como essas levaram setores da sociedade e partidos de oposição a procurar meios para responsabilizar o governo pela condução da pandemia, mas elas pouco avançaram.

    No Congresso, enquanto os parlamentares buscam aprovar a retomada de um auxílio emergencial para a população mais pobre que não é pago desde dezembro de 2020, o impeachment é uma hipótese improvável. A ideia de uma CPI da covid segue parada. Na Justiça, Eduardo Pazuello, ministro da Saúde, é investigado pelo caos no Amazonas. Bolsonaro é alvo apenas de procedimentos preliminares.

    Diante desse cenário, com Bolsonaro mostrando que não está disposto a recuar em seus discursos e atitudes anticientíficas mesmo diante dos seguidos recordes diários de mortes, o Nexo ouviu ativistas, cientistas políticos e líderes comunitários para entender quais os caminhos que a sociedade civil tem para pressionar o governo.

    ‘Precisamos reconstruir a ideia de praça pública’

    Marcio Black

    cientista político e coordenador do Programa de Democracia da Fundação Tide Setubal

    "Enquanto o bolsonarismo criou praças públicas que são privadas - via WhatsApp, Signal e Telegram -, nós não fomos capazes de reconstruir e tecer novos espaços que podemos considerar como praça pública. Como medida prática, a questão é: como a gente começa a se articular politicamente a partir do nosso microcosmo? Tudo isso vai ter que responder a um projeto maior. Mas a maior urgência que a gente tem hoje é a reconstrução da ideia de praça pública, para que a gente possa voltar a ocupar esses espaços.

    Por mais que estejamos num contexto virtual, quais são os agentes que estão próximos de mim que eu sou capaz de articular? Como articulo as lideranças em quem eu confio com os grupos de pais da escola dos meus filhos, ou com os moradores do mesmo condomínio? Cada pessoa, agora, tem esse papel. Preciso criar esses espaços no que está perto de mim, por associação de moradores, de pais, do condomínio, grupos de amigos. As lideranças surgem em dinâmicas de espaço público.”

    ‘Temos que falar de forma mais simples’

    Givânia Silva

    fundadora da coordenação nacional dos quilombos

    “Esse desgoverno só vai fazer alguma coisa sobre todos os desmandos e mazelas que está produzindo se a sociedade entender que, quando ele deixa morrer as populações indígenas, as populações quilombolas, quando ele manda desmatar, quando manda poluir, não diz respeito exclusivamente aos sujeitos que ali estão, diz respeito à sociedade como um todo. O que mudaria, na prática, seria a sociedade entender o governo Bolsonaro.

    A possibilidade de fazer alguma mudança é se houver uma grande mobilização, se a gente começar, localmente, e ir avançando, construindo ferramentas e possibilidades de nos comunicar com outras pessoas para tentar, numa linguagem mais adequada, que elas entendam.

    Temos dois grupos de pessoas. As que estão caladas porque nem entendem o que está acontecendo, porque é passado de forma muito difícil, com uma linguagem muito difícil, e temos uma grande camada da sociedade que está a favor do governo conscientemente. Eu aposto naqueles que estão favoráveis porque não têm todas as informações. Se a gente conseguir trabalhar formas de comunicação que possam chegar nessas pessoas, pode ser um caminho. Não é simples. Se a gente fala de Petrobras e não fala do preço do feijão, do combustível, termina que o que atinge o povo mesmo não é falado.”

    ‘Sem ir para a rua, protestamos em casa’

    Felipe Spencer

    cocriador do grupo Projetemos, que organiza projeções luminosas e mobilizações nas redes sociais

    “Como não estamos podendo sair, vamos ter que fazer nossos protestos dentro de casa. Eu, com o Projetemos, ofereço meu trabalho. Somos um grupo que organiza ações coletivas criado por mim, por Mozart Santos e por Brunna Rosa. Todos moramos em São Paulo. Nossa rede, que chamamos de projetosfera, tem vários projetores das paredes do Brasil, de Norte a Sul. Começamos em março de 2020, com a pandemia, fazendo projeções voltadas para ‘fique em casa, lave a mão e use máscara’. Aí a coisa foi se sofisticando.

    Nós fazemos projeções e ativamos redes, como grupos de Whatsapp. Vamos juntando pessoas, que se manifestam reivindicando direitos, comida no prato, salário, vacina. Estamos colocando nas paredes o que as pessoas querem falar. Pode projetar, compartilhar nas redes. Tudo faz com que essa rede de combate a fake news e também essa rede de afeto se expanda. Um pessoal que está querendo projetar uma cidade do interior de Minas Gerais, por exemplo, me ligou. Nós damos dicas de como projetar, protestar na sua cidade, já que não podemos ir para a rua.

    Temos que pressionar o governo. Precisamos pressionar tanto os governantes negacionistas quanto ajudar na voz dos governantes progressistas, que precisam de fomento de sua palavra para se credibilizarem diante da sociedade. Logo no início, nós pressionamos muito sobre a renda emergencial. Sempre [trazemos] também os cuidados de saúde, como na questão do oxigênio no norte. Colocamos [na parede] que ‘está faltando oxigênio no Amazonas’. Essa imagem viralizou. O que mais me impressiona é que é muito simples. É o besta do besta da manchete mais simples. É o que mais roda, mas que tem esse teor profundo.”

    ‘Se quem cria leis é pressionado, chega no governante’

    Gilson Rodrigues

    presidente do G10 das Favelas, bloco de empreendedores de impacto social e líderes das dez maiores comunidades brasileiras

    “Não podemos nos conformar em falar que existe um novo normal. A situação da favela é de anormalidade, agravada devido à fome e ao desemprego. A favela não pôde cumprir o ‘fique em casa’. A gente fez parte do grupo de trabalhadores essenciais, lotou ônibus e metrô, se contaminou e contaminou a família. São 14 milhões de brasileiros vivendo em favela, com problemas específicos ligados à infraestrutura. A melhor forma de a sociedade reagir é dando exemplo e cobrando dos governos que façam alguma coisa.

    Não adianta só bater panela ou criticar nas redes sociais. É importante se indignar que estão morrendo mil pessoas por dia. A gente pode mobilizar pessoas e recursos para ajudar quem precisa e ajudar quem está se mobilizando. Temos que garantir formas para a população ter recursos e conseguir se alimentar.

    Nós temos, na Câmara e no Senado, representantes que devem ser acionados para fazer pressão no governo. São eles os criadores de políticas públicas que garantem que esse auxílio e outros possam chegar a quem mais precisa. E até esse movimento político tem apoiado pouco a sociedade de fato, fica parecendo que todo mundo já está participando de um processo eleitoral.

    A população deve acionar seus vereadores, deputados, senadores, postando nas redes, marcando eles, mandando email, ligando nos gabinetes, acionando amigos em comum. Não aceitar esse novo normal. Além disso, tem a mobilização da vacina. Estamos [no G10 das Favelas] participando do movimento Unidos Pela Vacina, que a Luiza Trajano está liderando. É uma forma de participação e de pressão no governo.”

    ‘Precisamos construir uma visão de país’

    Beatriz Della Costa

    cientista social e cofundadora e diretora do Instituto Update, organização que estuda e fomenta inovação política na América Latina

    “O que está acontecendo no Brasil não é o Bolsonaro, é o Brasil. Não podemos continuar negando que há uma parte desse país que apoia esse tipo de processo, inclusive grande parte da classe política. Existe uma parcela da sociedade que apoia esse projeto. Não adianta a gente pensar que vai tirar o Bolsonaro e o bolsonarismo vai desaparecer. O bolsonarismo sempre existiu e agora ganhou forma, mas vai continuar existindo.

    A questão é: como a gente vai reatar o nosso país e o nosso tecido social? O processo do impeachment [de Dilma Rousseff] levou meses de mobilização. A gente não vai ter isso. As pessoas que estão a fim de ir para a rua são as que estão mais conscientes do problema da aglomeração.

    Talvez nós, sociedade civil organizada, devêssemos começar um processo de escuta da população de todos os campos políticos e entender, fundamentalmente, quais são os pontos de convergência, e começar a fomentar a visão de um projeto de país. Os partidos de oposição, hoje, não têm um projeto de país. A gente não tem com o que jogar, ao que se apegar. Esse é um lugar de impotência, de falta de visão. A gente está resolvendo urgências atrás de urgências, mas talvez precisemos de fôlego para começar a fazer essa articulação.”

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