Profissionais de saúde: a agonia em meio a recordes de mortes

Agravamento da pandemia no país intensificou jornada dos trabalhadores de hospitais e postos de saúde. Início da vacinação trouxe alento, mas estresse com perdas de vidas se mantém

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Pelo segundo dia seguido, o país registrou um novo recorde de mortes diárias por covid-19. Foram 1.840 vítimas em 24 horas na quarta-feira (3), segundo o consórcio de veículos de imprensa, e 1.910 na contagem do Ministério da Saúde. Já são mais de 10 milhões de casos confirmados e quase 260 mil óbitos no país.

Num cenário de colapso de hospitais, com pessoas morrendo na fila de UTIs, naquele que é considerado o pior momento do Brasil numa pandemia às vésperas de completar um ano, profissionais da saúde tentam superar a exaustão física e emocional, o estresse, a ansiedade e o medo da doença para evitar que esses números cresçam ainda mais.

Desde o começo da crise sanitária, 551 médicos morreram por covid-19, segundo o Conselho Federal de Medicina. Em janeiro, 47 profissionais de enfermagem perderam a vida, número que significou um aumento de 422% em comparação com o mês anterior. São 567 vítimas no total, entre enfermeiros, técnicos e auxiliares.

A situação é gravíssima para os profissionais. O que mudou nesta segunda onda é que parte deles foi vacinada, mas o estresse com as perdas de vidas sobre seus cuidados se mantém

Sérgio Roberto de Lucca

médico da Unicamp, que cita a vacinação prioritária dos profissionais de saúde

Falta de empatia e violência

Enquanto o Brasil bate recordes de mortes, Jair Bolsonaro se mantém negando a gravidade da pandemia, causando aglomerações, propagandeando remédios ineficazes contra a covid-19, questionando sem base científica o uso de máscaras e o isolamento social e desestimulando a vacinação, que segue lenta, tendo atingido pouco mais de 3% da população.

Na sociedade, há relatos de festas clandestinas, além de muitas pessoas reproduzindo a atitude do presidente da República ao rejeitar o distanciamento e as proteções necessárias para evitar o espalhamento do novo coronavírus que leva ao colapso dos sistemas de saúde.

A situação leva alguns trabalhadores da área a concluir que sua atuação ficou invisível com o tempo. “Eu entendo que a saúde mental de todos foi colocada em teste, mas a empatia com o pessoal da saúde foi diminuindo, foi sendo esquecida, parece que as pessoas não estão mais nem aí mesmo, ninguém lembra da gente. No começo, tinha homenagens. Agora, estamos esquecidos. Parece que ninguém está se lembrando de quem está na linha de frente”, disse ao jornal O Estado de S.Paulo Graziella Xavier de Barros, fisioterapeuta que atua em casos de covid-19 no SUS (Sistema Único de Saúde).

À falta de empatia se somam relatos de agressão aos defensores do distanciamento social, como o que ocorreu na sexta-feira (26) com o médico infectologista José Eduardo Panini. Ele foi espancado por dois conhecidos no Paraná após defender as medidas do governo estadual de restrição à circulação de pessoas e suspensão das atividades não essenciais.

“Ao alertar os riscos a pessoas conhecidas, a resposta que me foi dada foram chutes e socos, enquanto um me segurava o outro me agredia. Enfim, pessoas assim ajudaram a situação a chegar onde está! O desânimo não vem! E junto com eles temos muita coisa boa, progresso, vacinas e tudo que vai fazer sairmos dessa pandemia! E aos trabalhadores da saúde muita força!”, escreveu Panini em seu Instagram na legenda da foto em que mostra o rosto machucado.

Situação precária

Uma plataforma do Conselho Federal de Medicina criada em abril de 2020 para fiscalizar as condições de trabalho em hospitais públicos e privados do país recebeu, em média, uma reclamação a cada duas horas e meia. As denúncias revelaram por que o medo continua presente na vida dos profissionais da saúde.

Ao todo, a plataforma recebeu mais de 2.600 denúncias. A queixa mais recorrente é a da falta de equipamentos de proteção individual, obrigatória para o combate à pandemia. Além disso, 985 denúncias relataram a escassez de material básico para higienização nos hospitais, como sabonete.

Novos levantamentos

Pelo menos dois levantamentos sobre a saúde mental de profissionais da saúde estão em andamento no Brasil, enquanto outros quatro projetos que buscavam avaliar ou melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores que combatem a covid-19 foram encerrados em 2020.

Entre eles, o Projeto Telepsi oferecia teleconsultas psicológicas e psiquiátricas para profissionais do SUS que trabalham na linha de frente. A iniciativa do Ministério da Saúde e do Hospital de Clínicas de Porto Alegre foi finalizada em setembro de 2020.

Uma das pesquisas que estão em andamento, lançada em 14 de janeiro pela Fiocruz, busca mapear as condições de vida de profissionais da saúde considerados invisíveis. São mais de um 1,5 milhão de trabalhadores de nível técnico/auxiliar que trabalham em hospitais e postos de saúde.

“Essa legião de trabalhadores da saúde está cotidiana e diretamente na linha de frente atendendo a mais de 8 milhões de contaminados pela covid-19 e lidando com mais de 200 mil óbitos em todo o país. Além disso, estão expostos à infecção, sofrem com a morte de colegas, e boa parte está desprotegida de cuidados necessários, sem, de fato, ter voz e meios de expressar a real situação no cotidiano do seu trabalho e de sua vida pessoal, no que se refere à saúde física e mental”, afirmou a coordenadora da pesquisa, Maria Helena Machado, em um comunicado.

Outra pesquisa, da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, busca mostrar a influência da covid-19 na saúde mental da população brasileira e dos profissionais de saúde. O levantamento será refeito a cada seis meses para avaliar a adaptação da população à pandemia e quais são os problemas crônicos.

A primeira parte da pesquisa, que teve respostas de mais de 200 mil profissionais de saúde, foi divulgada em janeiro e revelou que o medo foi o sentimento mais comum entre esses trabalhadores.

Auxílio emocional

O trabalho dos profissionais da saúde se resume a cuidar, ajudar e curar, mas pesquisas realizadas no país em 2020 mostram que eles receberam pouco cuidado e ajuda. Em julho, a Associação Paulista de Medicina divulgou um levantamento com quase 2.000 médicos em que 63% dos profissionais descreviam como “apreensivo” o clima no trabalho.

Os problemas mais comuns citados pela categoria foram ansiedade (69,2%), estresse (63,5%), sensação de sobrecarga (50,2%) e exaustão física ou emocional (49%).

“Não é incomum eu sair de um plantão de 24 horas e no meio do caminho pra casa começar a chorar. Ninguém foi preparado emocionalmente pra lidar com o tamanho do sofrimento que a gente tem visto agora, principalmente nos últimos 15 dias”, afirmou Tulio Tonietto, que trabalha no Hospital de Clínicas e no Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, ao jornal Sul 21.

“Perder pacientes por falta de recursos e perder colegas de trabalho pode gerar transtorno de estresse pós-traumático e o medo de contaminar um familiar pode gerar transtornos de ansiedade e depressão”, afirmou ao Nexo Sérgio Roberto de Lucca, médico que atua na área de saúde do trabalhador do departamento de saúde coletiva da Unicamp.

Segundo De Lucca, amenizar o sofrimento desses profissionais depende de recursos humanos e de estrutura e equipamentos, mas “do ponto de vista individual o suporte psicológico, ainda que virtual, e a solidariedade dos colegas em acolher estes profissionais é de vital importância”.

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