Década perdida: a queda do PIB em 2020 sob perspectiva histórica

Com pandemia, economia brasileira tem pior resultado em 30 anos e fecha década com crescimento mais baixo na história do país

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A economia brasileira teve sua maior queda em 30 anos em 2020, em meio à pandemia do novo coronavírus. O dado foi divulgado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) na quarta-feira (3).

4,1%

foi a queda do PIB brasileiro em 2020, em relação a 2019

O PIB EM 10 ANOS

Variação anual do PIB do Brasil de 2011 a 2020. Quedas bruscas em 2015 e 2016, mas ainda mais forte em 2020

O PIB é o resultado da soma de todos os novos bens e serviços produzidos em um país em certo período de tempo. Por ser um indicador de quanto e como a economia produziu em um intervalo de tempo, ele aponta se a atividade econômica expandiu, encolheu ou se manteve igual na comparação com outros momentos.

O impacto da pandemia na economia

Em anos anteriores, a economia brasileira já vinha registrando expansão anual a ritmos baixos. Em 2017, o PIB cresceu 1,3%; em 2018, 1,8%; e em 2019, 1,4%. Em 2020, o crescimento baixo virou retração.

A queda da economia em 2020 é resultado direto da pandemia, que levou à paralisação parcial da atividade a partir de março. Seja por imposição de restrições à circulação impostas pelo poder público ou por medo de sair nas ruas, muitas pessoas ficaram em casa e reduziram seu consumo.

Com menos dinheiro circulando, empresas tiveram que fazer ajustes nas contas, o que muitas vezes significou demitir funcionários. Nesse cenário, o desemprego atingiu patamares recordes, e fechou 2020 com a maior taxa média da série do IBGE, iniciada em 2012.

13,5%

foi a taxa média de desemprego em 2020, acima dos 11,9% registrados em 2019

Os números divulgados pelo IBGE na quarta-feira (3) mostram que o consumo das famílias caiu 5,5% em 2020 em relação ao ano anterior. É o pior resultado da série histórica iniciada em 1996. Os gastos públicos (de União, estados e municípios somados) também tiveram tombo recorde, caindo 4,7%. Os investimentos, por sua vez, tiveram a primeira queda desde 2017, recuando 0,8%.

As atividades mais afetadas pela crise foram os serviços, que caíram 4,5% – pior resultado da série do IBGE. O setor, que é o mais ligado a atividades presenciais e aglomerações, é responsável por quase dois terços de todo o PIB brasileiro. A indústria também sofreu um choque forte, encolhendo 3,5%, pior desempenho desde 2016. A agropecuária, por sua vez, cresceu 2% em relação a 2019.

Os números do IBGE revelam uma desaceleração da atividade econômica nos últimos meses de 2020. Ou seja, depois de crescer 7,7% no terceiro trimestre, o país continuou em expansão, mas a um ritmo menor. Entre outubro e dezembro, o PIB cresceu 3,2% em relação aos três meses anteriores.

Economistas apontam que a perda de força da economia no fim do ano está ligada a dois fatores principais. A partir de novembro, a pandemia voltou a avançar com força no Brasil – movimento que segue ocorrendo nos primeiros meses de 2021, com registros de recorde diário de mortes pela covid-19 no fim de fevereiro e no início de março. A redução do auxílio emergencial de R$ 600 – pagos entre abril e agosto – para R$ 300 – pagos entre setembro e dezembro – é outro motivo apontado para a desaceleração econômica do fim de 2020.

2020: entre os piores anos da história

O resultado de 2020 foi o pior da série produzida pelo IBGE, iniciada em 1996. Mas há dados anteriores que reforçam o caráter histórico do tombo.

Na série iniciada em 1901, organizada pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), a queda de 2020 é a terceira pior. Ou seja, em 120 anos de registros, apenas duas vezes a economia brasileira teve uma retração anual tão forte como em 2020.

OS PIORES TOMBOS

Os cinco piores anos do PIB brasileiro, de 1901 a 2020. Do "menos pior" para o pior: 1931, 2015, 2020, 1981 e 1990

À frente do primeiro ano de pandemia estão apenas os tombos de 1981, no governo João Figueiredo, último general-presidente da ditadura militar. Naquele ano, a crise da dívida externa levou a uma queda de 4,25%; e de 1990, quando a economia retraiu 4,35% após o confisco da poupança sob a presidência de Fernando Collor de Mello.

Entre economistas, a avaliação majoritária é que a queda do PIB em 2020 poderia ter sido pior, não fosse o auxílio emergencial articulado pelo Congresso. O programa foi a principal política pública adotada durante a pandemia, e beneficiou diretamente mais de 67 milhões de brasileiros.

O auxílio garantiu um poder de consumo a grande parcela dos brasileiros e ainda ajudou a diminuir temporariamente a desigualdade de renda e a pobreza no Brasil. O programa foi encerrado em 31 de dezembro de 2020, mas há articulações em Brasília para seu retorno em 2021.

Um estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades, da FEA-USP, estimou que, sem auxílio, o PIB brasileiro teria caído entre 8,4% e 14,8% – muito pior que o resultado registrado de 4,1%. Com o auxílio encerrado e a pandemia em alta, há projeções de que a economia brasileira volte a cair no primeiro trimestre de 2021.

A nova década perdida

Com o resultado de 2020, o Brasil fechou a década de 2011 a 2020 com o pior desempenho registrado na série histórica iniciada em 1901. Em dez anos, o PIB do país teve crescimento total acumulado de 2,7% – uma taxa média de 0,26% ao ano.

PIOR DÉCADA DA HISTÓRIA

Taxa média de crescimento do PIB do Brasil, por década. Resultado de 2011 a 2020 ainda pior que anos 1980

Até a década encerrada em 2020, o pior registro havia ocorrido nos anos 1980 – período conhecido como “década perdida”. Entre 1981 e 1990, o PIB do Brasil acumulou crescimento total de 16,9%, o que significa que a cada ano, em média, a economia se expandiu 1,57% – bem acima do resultado entre 2011 e 2020.

As recessões sucessivas no Brasil

O desempenho historicamente ruim da economia brasileira na década de 2011 a 2020 é resultado das duas recessões vividas pelo país no período.

Entre o segundo trimestre de 2014 e o final de 2016, o Brasil passou por uma das mais longas recessões de sua história. Essa crise foi marcada pela instabilidade política que culminou no impeachment de Dilma Rousseff (2011 a 2016); pela deflagração da Operação Lava Jato, que investigou escândalos de corrupção na gestão pública e em estatais brasileiras; pela deterioração das contas públicas; e pelo fim do ciclo das commodities, havendo desaceleração da demanda global por produtos de baixo valor agregado brasileiros.

Entre 2017 e 2019, o país cresceu, mas a um ritmo baixo. Até o início da pandemia, o PIB brasileiro ainda não havia voltado ao nível anterior à crise de 2014 e 2016. A chegada do coronavírus agravou o cenário brasileiro: as perdas da recessão da pandemia se acumulam às perdas da crise anterior.

O gráfico abaixo mostra como a economia brasileira chegou ao final de 2020 abaixo do nível observado no início de 2014. No gráfico, o primeiro trimestre de 2014 é posto como o patamar 100; todos os trimestres seguintes ficaram abaixo desse nível.

PERDAS EM SETE ANOS

Trajetória do PIB brasileiro desde o início de 2014. Queda a partir do segundo trimestre de 2014, mas nunca recuperou nos anos seguintes. Em 2020, mergulho forte com recuperação parcial

Duas análises sobre o momento econômico

O Nexo conversou com economistas para entender os efeitos de crises sucessivas e os caminhos para recuperar a atividade brasileira.

  • Débora Freire, professora de economia do Cedeplar-UFMG (Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional da Universidade Federal de Minas Gerais)
  • Simão Davi Silber, professor de economia da FEA-USP (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo) e pesquisador da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas)

Há sequelas de longo prazo de enfrentar duas recessões fortes, uma em sequência da outra? Quais?

Débora Freire A recessão faz com que as expectativas se deteriorem. Estamos em uma crise dentro de uma crise: são anos seguidos de recessão, baixo crescimento, e aí pandemia. O investimento é o grande componente que contrai nas recessões. A recessão significa que a demanda está caindo. Na ausência de demanda, os agentes passam a reverter planos de investimento – não conseguem se planejar porque não conseguem avaliar perspectivas boas em relação à demanda. Isso pode desorganizar setorialmente a economia.

Desde 2015, temos visto o fechamento de atividades importantes. Vimos investimentos saindo do país, como, por exemplo, no caso da Ford. O investimento é uma variável muito importante para o crescimento de longo prazo, porque gera uma série de efeitos de ampliação da capacidade produtiva ao longo do tempo. O recuo dos investimentos podem dificultar a recuperação posteriormente, visto que eles demoram para se maturar. Na medida que há uma queda expressiva nos investimentos, ela vai se reverberar por muitos períodos depois. Esse é o grande problema da nossa recuperação.

Do ponto de vista social, o impacto [do longo período de crises] é aumento da pobreza, com grupos sociais mais vulneráveis sendo mais atingidos. Há uma queda da renda e um aumento da desigualdade. O que temos visto desde 2015 – com essas duas crises seguidas, com recuperação muito lenta entre elas, associada ao desemprego – é um aumento da pobreza e um aumento da desigualdade. Quanto mais demorarmos a recuperar, mais o mercado de trabalho vai ficar com indicadores ruins.

O setor de serviços, que emprega muita mão de obra pouco qualificada ou informal, é muito impactado. Essas pessoas têm sido as mais impactadas, tanto do ponto de vista do desemprego como do ponto de vista da precarização do trabalho e remunerações mais baixas, com poucos direitos e jornadas exaustivas.

Simão Davi Silber Não são só as duas crises recentes, são três: não podemos esquecer também a crise de 2008, onde a queda do PIB foi pequena [queda de 0,1% em 2009]. Juntando tudo isso e descontando o crescimento da população, o brasileiro teve uma queda considerável da renda per capita no período.

Há um problema social dramático. O número de pessoas que não tem o que comer aumentou dramaticamente. A sociedade brasileira já era uma sociedade muito desigual. Com tantas crises – e, em particular, a pandemia, que é uma crise muito intensa –, estamos vendo a situação se agravar. É uma crise econômica, uma crise de saúde e uma crise social dramática.

Aproximadamente 14 milhões de pessoas estão desempregadas e muitos desistiram de procurar emprego. E há mais 6 milhões estão subempregados [que trabalham menos horas que gostariam]. Quase 30% dos brasileiros estão em uma situação muito difícil neste momento. E não podemos esquecer o desastre que é o enfrentamento da pandemia no Brasil.

Quais os caminhos para recuperar o país desse período prolongado de crise?

Débora Freire A agenda antes da pandemia estava errada. A gente [o governo] apostava nas reformas como único meio de incentivar os investimentos, que haviam caído muito de 2015 a 2017. Acreditava-se que o aumento da confiança via reformas – tributária, administrativa, previdenciária, trabalhista – levaria ao aumento dos investimentos. Mas passamos por reformas [trabalhista e da Previdência] e não observamos recuperação em 2018 e 2019. Vimos estagnação: não recuperamos o que perdemos na crise.

Não é que não precisássemos de reformas – precisamos reformar o sistema tributário, e a reforma da Previdência era necessária –, mas precisávamos ao mesmo tempo de estímulos fiscais. Sozinho, o investimento não ia se recuperar. O canal da confiança não se mostrava um canal efetivo para fazer com que os investimentos aumentassem. Naquele período, faltou estímulo fiscal e uma política que priorizasse alguns estímulos que geram mais crescimento, que tem multiplicadores maiores, como o investimento público. Estamos há anos num nível muito baixo de investimento público.

Depois da chegada da pandemia, acredito que a solução seja continuar apostando nos estímulos fiscais. Precisamos do auxílio emergencial em 2021, mesmo que não haja contrapartida de redução de outros gastos, tanto pela questão social como também pela recuperação econômica. A gente viu a capacidade do auxílio de mitigar a recessão em 2020, e inclusive mitigar a perda de arrecadação do governo. Se não apostarmos no auxílio em 2021, corremos o risco de ter mais recessão e, consequentemente, mais queda na receita [do governo]. E isso gera um desajuste nas contas públicas.

Acredito que tenhamos que apostar, primeiro, na vacinação. O desempenho da economia brasileira hoje está totalmente associado ao processo de imunização da população. A segunda medida é um auxílio emergencial – mesmo que sem contrapartida – em 2021. E a terceira medida é termos um plano de longo prazo no sentido de recuperação de alguns investimentos públicos e de um programa social que seja permanente. Mas isso depende de planejamento. As reformas são importantes, mas hoje precisamos primeiro recuperar a economia. Mas uma reforma que tem grande potencial de gerar crescimento econômico é a reforma tributária – do ponto de vista do investimento, é uma sinalização importante para os produtores.

Simão Davi Silber Historicamente, o Brasil sempre foi um país muito injusto. Mas a informalidade servia como colchão de amortecimento. Com a pandemia, muitas pessoas – como a mulher que vendia café no metrô, por exemplo – perderam tudo. Por isso, é necessário uma renda mínima para apoiar aqueles que chamo de invisíveis. O Bolsa Família é para quem está no Cadastro Único, mas há milhões de brasileiros invisíveis, que têm que ter apoio do governo – sem fins eleitoreiros.

A sequência que vivemos é a pior crise em mais de cem anos na história brasileira. Nem na crise de 1929 tivemos uma queda tão forte do PIB. A perspectiva de recuperação em 2021 é modesta. O PIB em 2020 caiu 4,1%, e a expectativa que existe para 2021 é um crescimento de 3,3% – portanto, não vamos sair do buraco [em 2021].

O caminho de recuperação só pode ser o crescimento. Ele depende de ter regras estáveis e de um programa muito ambicioso de privatização e concessões. O governo não tem dinheiro para investir, e o nível de investimento está muito baixo no país. Tem que haver uma reinvenção do Estado, que precisa ser social. O Estado tem que cuidar dos desamparados, fornecendo educação, saúde e saneamento. Mas não pode ser um Estado empresário.

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