Corpos em contêiner, mortos na fila da UTI: os retratos do descontrole

Em pior momento da pandemia, Brasil registra unidades de saúde fechando as portas por falta de capacidade de atender novos pacientes e ambulâncias sendo adaptadas como leitos

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Em seu pior momento da crise sanitária da covid-19, o Brasil tem registrado cenas de caos na saúde de Norte a Sul. Em março de 2021, mês em que a pandemia completa um ano, o país teve pela primeira vez, de forma simultânea em várias regiões, um aumento em indicadores como número de casos de infecção e mortes, incidência de síndromes respiratórias agudas graves, positividade de testes para a doença e sobrecarga nos hospitais.

O comportamento desses índices que permitem o monitoramento da doença foi identificado pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) em nota técnica divulgada na terça-feira (2). O documento alerta para a gravidade do cenário atual e sugere medidas a serem tomadas para frear a disseminação do vírus, como o aumento das restrições de circulação e de atividades não essenciais.

“Os dados apresentados, embora alarmantes, constituem apenas a ponta de um iceberg de um patamar de intensa transmissão no país”

Fiocruz

em nota técnica divulgada na terça-feira (2)

Segundo a entidade, ao todo 19 das 27 unidades da federação estavam na terça-feira (2) em estado crítico de ocupação de leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva), com taxa superior a 80%. Os hospitais operavam no limite em 20 capitais, e outras cinco apresentavam proporção de leitos de terapia intensiva para covid-19 acima dos 70% de ocupação.

Segundo a fundação, a solução para a crise passa ainda pelo “reconhecimento legal do estado de emergência sanitária e a viabilização de recursos extraordinários para o SUS”, aumento de leitos, capacitação de profissionais, aceleração da vacinação e o retorno de um auxílio financeiro emergencial.

1.726

morreram por covid-19 em 24 horas, na terça-feira (2), número recorde desde o início da pandemia, segundo cálculo do consórcio de veículos de imprensa

O agravamento da pandemia tem criado um cenário de “guerra”, como classificou o superintendente médico do Hospital Moinhos de Vento, de Porto Alegre, Luiz Antônio Nasi, em entrevista à GloboNews na terça-feira (2).

“Nós atingimos o apogeu da gravidade. Os pacientes, além de serem mais jovens, estão muito mais graves. O tempo de permanência na UTI e os recursos dispensados para melhorar a oxigenação dos pacientes foram multiplicados”

Luiz Antônio Nasi

superintendente médico do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, em entrevista à GloboNews, na terça-feira (2)

Uso de câmaras frias

O Moinho de Ventos, que integra a maior rede privada de hospitais em Porto Alegre, tinha na terça-feira (2) uma taxa de ocupação de UTIs de 119,7%. Eram 79 pacientes (dos quais 72 com covid-19) para 66 leitos em operação.

O aumento no número de mortes no local fez a capacidade do necrotério do hospital atingir seu limite. Por isso, a instituição decidiu contratar um contêiner refrigerado para armazenar corpos.

Epidemiologistas alertam para o fato de que o crescimento nos casos na capital gaúcha tem se dado no mesmo ritmo observado em Manaus, que também precisou utilizar câmaras frias nos hospitais durante os dois picos da doença.

Além do Moinho de Ventos, a cidade tinha ainda outros oito hospitais com taxa de ocupação de UTIs igual ou acima dos 100%. Em fevereiro, Porto Alegre registrou alta de 39% no número de sepultamentos e cremações em comparação com o mesmo mês de 2020, quando não havia pandemia.

A aceleração dos casos pode ser explicada pela falta de adesão às medidas de distanciamento social associada à circulação da variante surgida em Manaus e que já se espalhou pelo país. Pesquisas mostram que ela é duas vezes mais contagiosa.

Na terça-feira (2), o Centro Estadual de Vigilância em Saúde do Rio Grande Sul e a Diretoria de Vigilância em Saúde de Porto Alegre confirmaram a transmissão comunitária na cidade da nova variante, chamada de P.1. Ao todo, os órgãos identificaram 21 casos na capital gaúcha de infecção pela mutação no vírus, dos quais 13 não tiveram contato com quem viajou a Manaus.

Mortes na fila de espera

Com a lotação dos hospitais, pacientes estão sendo obrigados a aguardar em filas de espera pelas vagas em UTIs — e até em enfermarias. Na terça-feira (2), 35 pacientes tinham morrido sem conseguir um leito de internação em Santa Catarina.

As mortes se concentraram na região oeste do estado: 12 ocorreram em Unidades de Pronto Atendimento de Chapecó, e outras 15 num hospital regional em Xanxerê. Segundo a Secretaria de Estado da Saúde, os casos não significam que os pacientes não tenham recebido atendimento, mas que esperavam dentro dos hospitais uma transferência para leitos de maior complexidade.

Pela primeira vez desde o início da pandemia, o estado de Santa Catarina foi obrigado a transferir pacientes para outras unidades federativas. Na terça-feira (2), a secretaria estadual de Saúde disse que dois voos diários, em aviões do Corpo de Bombeiros, serão feitos nos próximos dias para transportar doentes para o Espírito Santo, onde foram disponibilizados 16 leitos na região metropolitana de Vitória. Cada paciente é transportado individualmente devido à gravidade dos casos.

O governador Carlos Moisés (PSL) afirmou em entrevista na terça-feira (2) que o agravamento acontece devido à velocidade da contaminação “numa faixa etária que não é mais aquela prioritária dos mais velhos”.

Hospitais fechados e leitos em ambulâncias

Sem capacidade para receber todos os doentes, unidades de saúde têm recusado atendimento. Uma Unidade de Pronto Atendimento em Cascavel, no Paraná, por exemplo, chegou a fechar as portas na terça-feira (2) devido ao esgotamento dos leitos e da falta de profissionais disponíveis.

Segundo a prefeitura da cidade, a unidade fechada tinha 14 pacientes intubados, cinco em processo de intubação e 40 em leitos de enfermaria. Pacientes que chegavam ao local eram orientados a buscar ajuda em outras unidades.

Para evitar um colapso maior, a Secretaria Municipal de Saúde decidiu reter as ambulâncias do Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) para que pudessem ser usadas como leitos em caso de superlotação — e quando transferências não estivessem sendo feitas.

A Prefeitura de Cascavel enviou uma carta na terça-feira (2) ao ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, e ao secretário da Saúde do Paraná, Beto Preto, pedindo “apoio imediato de caráter urgentíssimo” para a transferência de pacientes com covid-19 para outras regiões.

Busca de vagas na Justiça

Com hospitais lotados, familiares estão entrando na Justiça para garantir leitos para os pacientes. Desde janeiro, ao menos 219 pessoas entraram com ações no Amazonas para ter o direito de ser atendidos em UTIs, onde ainda há filas de espera.

A mesma situação ocorreu em Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo, mas em menor quantidade.

O problema das decisões judiciais é que elas não seguem os mesmos critérios utilizados por médicos, que consideram o quadro do doente, idade e chances de sobrevivência, por exemplo. Segundo o jornal Folha de S.Paulo, na quarta-feira (3), houve relatos em grupos de médicos sobre pacientes em estado grave que morreram sem conseguir transferência depois de perderem o lugar na fila.

“Um dos maiores problemas que tivemos foi essa fila paralela. Tinha fila da regulação por critério médico e tinha a das decisões judiciais que mandavam fazer a transferência imediata, em três, seis, 12 horas, sem ressalvar a observância da fila”, afirmou o subprocurador-geral adjunto do Amazonas, Leonardo Blasch, ao jornal.

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