Como a sabotagem ao isolamento entra no cálculo de Bolsonaro

Enquanto país bate recorde de mortes por covid-19, presidente critica governadores e defende o afrouxamento de restrições. O ‘Nexo’ ouviu duas cientistas políticas sobre o saldo eleitoral dessa atuação

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    O Conselho Nacional de Secretários de Saúde dos estados defendeu na segunda-feira (1º) a “adoção imediata de medidas para evitar o iminente colapso nacional” da rede de saúde no Brasil. Em meio ao pior momento da pandemia no país, com recordes de mortes diárias, os gestores pedem o endurecimento de restrições em locais onde há superlotação hospitalar e defendem uma ação coordenada para a proibição de eventos presenciais, o fechamento de praias e bares e a adoção de um toque de recolher nacional das 20h às 6h.

    Na sexta-feira (26), dia seguinte de mais um recorde de mortes em 24h por covid-19 no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro provocou aglomerações sem o uso de máscara, defendeu que a população desconsidere as medidas de isolamento social e criticou a atuação de governos estaduais, chamando as medidas de restrição de circulação de “politicalha”. “O povo não consegue ficar mais dentro de casa, o povo quer trabalhar”, disse em evento no Ceará.

    Bolsonaro afirmou também que os governadores que "fecharem seus estados” é que devem bancar uma nova rodada do auxílio emergencial, benefício pago em 2020 a trabalhadores informais de baixa renda cuja reedição está em discussão no Congresso.

    Desde que a pandemia foi decretada pela Organização Mundial da Saúde em março de 2020, o presidente alega que medidas de restrição “destroem empregos” e que não se pode falar em saúde sem falar de economia. Em contrapartida ao isolamento, Bolsonaro promove remédios sem eficácia contra a covid-19. Economistas, porém, apontam que o passo fundamental para a retomada econômica é a vacinação da população, que anda a passos lentos e enfrenta escassez de doses no Brasil.

    No cenário de avanço lento da vacinação e de disseminação de novas cepas mais contagiosas do coronavírus no país, o isolamento social é citado por cientistas como a forma de evitar um colapso nacional. Segundo o jornal Folha de S.Paulo, governadores e secretários têm pedido ao ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, que adote uma medida nacional para frear a pandemia. Mas a resposta, segundo o jornal, foi negativa, porque Bolsonaro não deixa.

    O próprio presidente já deixou claro que a pretensa defesa da atividade econômica passa também pelo futuro de seu governo. “É essa a preocupação que eu tenho. Se a economia afundar, afunda o Brasil. Se afundar a economia, acaba com meu governo. É uma luta de poder", disse Bolsonaro em entrevista à rádio Bandeirantes ainda em março de 2020. O presidente já indicou que busca a reeleição em 2022.

    O discurso contra o isolamento sob análise

    O Nexo ouviu duas cientistas políticas sobre qual o cálculo eleitoral do presidente ao sabotar medidas de isolamento.

    • Andréa Freitas, professora da Unicamp e coordenadora do núcleo de instituições políticas e eleições do Cebrap
    • Daniela Campello, professora da FGV-RJ

    Qual é o dividendo eleitoral de Bolsonaro ao ser contra o isolamento social? A que sentimento da população ele recorre?

    ANDRÉA FREITAS Bolsonaro sempre lida com um sentimento, que é o medo. Nesse caso, o medo de não ter renda, de perder o emprego. Quando ele fala contra o isolamento social, está falando em especial com o pequeno comerciante, que não tem caixa necessário quando não tem vendas diariamente.

    [O presidente] está muito ciente do tamanho da crise econômica que vai se instalar ao longo deste ano e no pós-pandemia. Sabendo que crise econômica é um fator essencial para a reeleição ou não de um candidato, essa [pregação contra o isolamento social] talvez seja uma primeira estratégia para se desresponsabilizar de uma crise econômica. seriam os governadores, que mandaram “fechar tudo”, os culpados.

    A declaração que ele deu de que os governadores que defendem o lockdown é que deveriam pagar o auxílio emergencial mostra essa lógica. E, entre os governadores [que têm adotado restrições], tem vários possíveis candidatos para 2022. João Doria [governador tucano do PSDB] é quem ele [Bolsonaro] mira mais fortemente.

    DANIELA CAMPELLO Na cabeça do presidente, se as pessoas não estiverem isoladas, elas vão para a rua trabalhar e a economia vai voltar a funcionar. O que ele procura estimular é um certo entusiasmo. Ele sabe que a economia é uma questão central para a reeleição - e de fato é, não só aqui no Brasil, como na América Latina e no mundo. Nesse sentido, a preocupação dele é de que a economia volte a andar. E isso, na cabeça dele, é fingir que não tem pandemia e que vamos voltar ao normal, e “bola para frente”. A vacina seria o principal para isso, mas aí ele esbarra na capacidade técnica de fazer a coisa.

    As duas estratégias dele são: colocar as pessoas na rua, para voltar a economia, e colocar a culpa nos governadores que não deixam as pessoas irem para a rua, dizendo que, se algo der errado, a culpa é deles.

    Mas o que já ficou claro é que a economia e a saúde vão juntas. Investir na saúde seria investir na economia. Outra questão é que, no final das contas, ele vai ser responsabilizado pelas condições da economia. Ele não vai conseguir jogar essa responsabilidade nas costas dos governadores. Nos presidencialismos latino-americanos, a figura do presidente é muito forte. O presidente é a figura que representa o fracasso ou o sucesso econômico perante o eleitor.

    Qual o tamanho do impacto do acúmulo de mortes nas pretensões reeleitorais do presidente? É algo que será determinante para os eleitores, mesmo diante da aparente normalização atual da tragédia sanitária?

    ANDRÉA FREITAS [O ex-presidente dos EUA Donald] Trump fez uma aposta muito parecida com a de Bolsonaro. Achou que poderia tratar a pandemia como uma coisa ocasional, com a qual as pessoas não se importariam, deu declarações absurdas. O fato de os EUA estarem vivendo um dos piores momentos da pandemia na época da eleição é muito decisivo [na derrota de Trump para o democrata Joe Biden], especialmente com a imprensa falando diretamente sobre os EUA em primeiro lugar de perdas humanas [pela pandemia].

    A aposta do Bolsonaro é parecida. Se esse número [de mortos por covid no país] continuar a crescer - e, infelizmente, a gente não tem indicação de que pode diminuir -, isso pode afetá-lo inclusive em termos numéricos. Com 250 mil mortes estamos falando, no mínimo, em 1,5 milhão de eleitores [membros de famílias que perderam alguém]. Para a população que é diretamente afetada pelo número de mortes, isso vai ter muita importância, e vai ter uma parte da população que vai ser afetada por tabela - são as pessoas que não perderam um parente diretamente, mas que perderam conhecidos, um amigo querido, e por aí vai.

    Mas, no núcleo duro [de apoio a Bolsonaro], dificilmente o número de mortes vai ser um problema. A gente não está num mundo em que o fato conta, mas sim como se constrói a informação em torno do fato.

    DANIELA CAMPELLO Existe um fenômeno chamado psychic numbing, que é como se você ficasse dessensibilizado psiquicamente. O cérebro tem a capacidade de absorver a dor, a morte e a tragédia daquilo que é muito imediato, [mas] o número grande dessensibiliza. Em certo sentido, não acho que é isso [o número de mortes] que machuca as pessoas. Acho que vai ser a experiência física, real, de perder pessoas. Quanto mais tempo passar, obviamente isso conta.

    Mas estamos falando de 250 mil mortos e, do ponto de vista de quantas pessoas vão viver isso, a economia nesse sentido [quantitativo] tem muito mais impacto, é muito mais determinante para a eleição ou não do Bolsonaro. É menos gente afetada que perdeu um parente. O efeito econômico está todos os dias na vida das pessoas, é sua capacidade de dar comida para o seu filho. É o dinheiro que as pessoas têm disponível para sua vida. Esse dinheiro diminuiu barbaramente no começo da pandemia, aumentou por causa do auxílio emergencial, e agora, se o auxílio vier [em uma nova rodada], vai ser para bem menos gente e em um valor menor. As pessoas mais pobres vão sentir muito, principalmente porque estamos passando por um momento de desemprego. Não há dúvida [de que isso pode melhorar com um melhor manejo da pandemia]. Mas essa parte que o Bolsonaro ainda não aprendeu completamente. Ele ainda está na dinâmica de fingir que não tem pandemia para a economia voltar.

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