Os cenários de um colapso generalizado na saúde do Brasil

UTIs públicas e privadas atingem seus limites em várias partes do país. Para especialista ouvido pelo ‘Nexo’, melhora na situação depende da diminuição na transmissão comunitária

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Por todo o país, autoridades e especialistas vêm alertando para o colapso dos sistemas de saúde público e privado diante do alastramento descontrolado da covid-19. Há cidades em que esse colapso já é uma realidade Em outras, está na iminência de acontecer.

Na sexta-feira (26), dia em que completou um ano desde que foi tornado público o primeiro caso de infecção no país, 253 mil pessoas morreram pela doença no Brasil. O número de casos de contaminação superou os 10 milhões.

Em 21 de janeiro de 2021, a média móvel de óbitos diários - que leva em conta dados dos últimos sete dias - voltou a ficar acima dos 1.000, sinalizando uma incidência maior de casos devido às aglomerações da virada do ano. Durante o mês de novembro de 2020, por exemplo, essa média móvel nunca ultrapassou a marca dos 600. Os números são das secretarias de saúde dos estados, reunidos pelo site G1.

De acordo com os índices divulgados pelas secretarias estaduais, a maior parte dos estados mostrou crescimento na média móvel registrada na quinta-feira (25) em relação ao dado de duas semanas antes:

  • 12 estados registram alta nas mortes: Acre, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Paraná, Piauí, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Santa Catarina.
  • 10 estados (mais o Distrito Federal) tiveram estabilidade: Alagoas, Espírito Santo, Goiânia, Mato Grosso, Minas Gerais, Pernambuco, Rondônia, Sergipe, São Paulo, Tocantins
  • 4 estados apresentaram queda: Amapá, Amazonas, Mato Grosso do Sul e Roraima

Vale notar que mesmo nos estados que apresentam estabilidade, as taxas de casos e óbitos pressionam o sistema de saúde. Como se verá a seguir, capitais de diversos estados nessa condição também enfrentam hospitais lotados.

A pressão sobre os sistemas de saúde

As consequências da pandemia no sistema de saúde vem se mostrando brutais. De acordo com a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), ligada ao Ministério da Saúde, 17 das 27 capitais do país estão com UTIs do SUS (Sistema Único de Saúde) com mais de 80% de ocupação.

Na quinta-feira (25), o governador da Bahia, Rui Costa (PT) afirmou que “a saúde vai colapsar e o Brasil entrará no caos em duas semanas”. Em Santa Catarina, o secretário de Saúde, André Motta, abriu um comunicado aos prefeitos com a frase: “estamos entrando em colapso!”.

Ao Nexo Marcio Sommer Bittencourt, médico do Centro de Pesquisa Clínica e Epidemiológica do Hospital Universitário da USP, afirmou que o termo “colapso” é usado quando ocorre a saturação em diversos hospitais simultaneamente.

“Não tem leito para internar, tem fila de espera para as pessoas internarem e termos que fazer assistência em um ambiente sub-ótimo. Quem devia estar na UTI, fica no pronto-socorro, quem está no pronto-socorro mandamos para casa porque não conseguimos internar. Você tem uma cascata de sobrecarga do sistema em que cada pessoa não está no melhor ambiente para ser cuidada.”

Marcio Sommer Bittencourt

médico do Centro de Pesquisa Clínica e Epidemiológica do Hospital Universitário da USP

Segundo o médico, o colapso não aconteceu de uma hora para outra. “Ele é progressivo, porque cada vez mais o paciente mais grave está sendo atendido num ambiente menos ideal e está recebendo cuidado mais tardio. Tudo isso leva a uma piora de complicações, de mortalidade, de tempo de internação e vai consumindo todo o sistema”, afirmou.

É o caso de Porto Velho (RO), em que o índice de ocupação bateu em 100%. A situação calamitosa do estado da região Norte levou o secretário de Saúde, Fernando Máximo, a fazer um apelo desesperado nas redes sociais pedindo que os cidadãos se isolem. “Não temos leito de UTI para sua mãe”, afirmou.

Máximo alertou que também não é mais possível transferir doentes para outros estados, como aconteceu em janeiro com pacientes de Manaus, pois não há vagas em lugar algum no país.

No Rio Grande do Norte, faltam lugares em hospitais públicos e privados. Com isso, doentes de covid-19 têm de permanecer por horas dentro de ambulâncias à espera de um leito.

Em São Paulo, 72% das instituições privadas têm ocupação de UTI superior a 80%, de acordo com o SindHosp (Sindicato dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios do Estado de São Paulo).

No Rio Grande do Sul, todos os leitos de UTI de hospitais privados estão preenchidos. Na sexta-feira (26), a secretaria de saúde do estado divulgou que a ocupação está em 101,8%.

Para Bittencourt, a situação ainda pode piorar, pois não há limite para o aumento de casos. Como consequência, outros tipos de urgências podem ser preteridas para que se atenda casos de covid. Mesmo assim, o sistema pode não absorver tudo, afirmou o especialista ao Nexo.

“O sistema de saúde normalmente trabalha com pouca reserva porque é um sistema caro, então a gente não tem muito lastro para absorver. Então mesmo abrindo leito de campanha, começa a ter falta de mão de obra, de equipamento, de monitor, de respirador, de medicação para sedar, tem vários gargalos no sistema. Não é só abrir mais uma cama, você precisa de funcionários, treinar funcionários. Então pode piorar, como aconteceu em Manaus, faltou até oxigênio”, afirmou

As medidas nos estados

Com o agravamento da situação, o termo lockdown voltou a aparecer em pronunciamentos de autoridades. Recentemente, políticos vinham evitando defender a estratégia devido a pressões de associações comerciais e setores empresariais que alegavam prejuízos econômicos. É o argumento também do presidente Jair Bolsonaro, que tem sido o maior crítico dos fechamentos do comércio pelo país.

No Brasil, o termo vem sendo usado para se referir a uma interrupção parcial de atividades e circulação. Na Europa, ele é associado a um conjunto de medidas bem mais duras, que podem incluir o fechamento total do comércio, restrição de contatos entre pessoas que não moram na mesma casa e permissão para circular na rua apenas para atividades essenciais.

Na quinta-feira (25), o governador da Bahia decretou a restrição total de atividades não essenciais entre as 20h de sexta-feira (26) e as 5h de segunda (1). O transporte público funcionará normalmente. A venda de bebidas alcoólicas fica proibida durante o período.

Já no Distrito Federal, o governador Ibaneis Rocha (MDB) ordenou o fechamento de todos negócios que não sejam essenciais a partir da 0h deste domingo (28). Sete municípios do Entorno do DF decretaram estado de calamidade pública. Na noite de sexta-feira, havia apenas dois leitos de UTI disponíveis em todo o DF, incluindo as redes pública e privada.

Em São Paulo, o governador João Doria (PSDB) chamou de “toque de restrição” a intenção de restringir até 14 de março a circulação nas ruas do estado entre 23h e 5h, medida que tem como alvo apenas grandes aglomerações. Em todo o estado, quatro regiões (incluindo a Grande São Paulo) regrediram da fase amarela para a laranja, mais restritiva, enquanto duas regiões voltaram da fase laranja para a vermelha, a mais rigorosa.

A cidade de Araraquara, no interior do estado, é um dos raros locais do país a adotar um lockdown que se assemelha ao modelo europeu. Só pode se deslocar pela cidade quem trabalha em serviços essenciais ou for usá-los. Mesmo as atividades essenciais, como supermercados, padarias e farmácias, têm de fechar as portas às 20h. As multas para quem descumprir as regras podem variar de R$ 120 a R$ 6.000.

Para Bittencourt, do Hospital Universitário da USP, a única forma de controlar uma pandemia é frear o alastramento do vírus na comunidade. “Quando há transmissão, o hospital apenas enxuga gelo. Você pode melhorar a vida de quem está internado, mas não há medicação que resolva a transmissão na comunidade”, afirmou. O especialista também defende que o lockdown sozinho “não resolve”. Idealmente, pessoas com o vírus deveriam ser isoladas e seus contatos, rastreados para que também passem por quarentena.

Efeitos da vacinação devem demorar para aparecer. Na sexta-feira (26), o diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, previu que o país só deve ter uma queda no número de hospitalizações e mortes por covid-19 em maio ou junho. É nessa época que a vacinação chegará à população acima de 60 anos.

6,4 milhões

Número de pessoas no Brasil que já recebeu pelo menos uma dose de vacina contra covid-19 em 26 de fevereiro de 220, segundo dados do consórcio de imprensa

Países como Israel e Inglaterra testemunharam reduções nos casos e internações por covid-19 apenas depois de imunizar parcelas grandes da população. No Brasil, no fim de fevereiro, 3% da população havia recebido o imunizante, com diversos estados tendo de interromper suas campanhas devido à falta de doses.

As declarações do ministro da Saúde

Na quinta-feira (25), o ministro da Saúde, general da ativa Eduardo Pazuello, afirmou que o Brasil está “enfrentando uma nova etapa dessa pandemia”. “Tem hoje o vírus mutado. Ele nos dá três vezes mais a contaminação", disse o auxiliar de Bolsonaro. O ministro fazia referência à cepa surgida em Manaus, chamada de P.1 .

No entanto, notas técnicas do próprio ministério afirmam que ainda “não há evidências científicas” que comprovem uma maior transmissibilidade da cepa surgida na capital do Amazonas.

Para o diretor-executivo da OMS (Organização Mundial da Saúde), Michael Ryan, a aparição de variantes do novo coronavírus não é justificativa para um aumento de casos. Falando à imprensa, ele lembrou que diversos países vêm realizando um bom trabalho de contenção do vírus, mesmo com as mutações.

Como exemplo, ele citou a Nigéria, país de população equivalente ao Brasil (196 milhões de habitantes contra 210 milhões de brasileiros), mas com um PIB (Produto Interno Bruto, a soma das riquezas do país) que é menos de um quarto do brasileiro. No entanto, o número de novos casos da doença no país africano é 100 vezes menor que no Brasil: são três novos casos diários por milhão contra 300 no Brasil.

Em seu pronunciamento, Pazuello não mencionou as medidas básicas para a contenção do vírus, como o distanciamento social e o uso de máscaras e álcool gel.

No mesmo dia, Bolsonaro alertou sobre os “efeitos colaterais” do uso de máscaras em crianças, em mais uma declaração sem qualquer evidência científica. Segundo o mandatário, a fonte das suas informações seria um “estudo” de uma universidade alemã. Na verdade, era uma enquete online feita por um site do país europeu.

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