O estágio da vacina cubana. E a estratégia de exportação

Governo promete atender cidadãos locais e turistas, além de separar doses para países em desenvolvimento

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As vacinas cubanas contra a covid-19 chamadas Soberana 2 e Abdala entram em março de 2021 na terceira e última fase de testes clínicos. Se provarem eficácia e segurança, elas passarão a reforçar a campanha mundial de imunização contra a doença, sobretudo nos países em desenvolvimento, além de representar uma vitória política para o governo e o sistema de saúde pública da ilha.

De acordo com Eduardo Martínez Díaz, presidente do BioCubaFarma (Grupo das Indústrias Biotecnológica e Farmacêutica de Cuba), responsável pelo desenvolvimento da Soberana 2 e da Abdala, as duas vacinas “mostraram ser seguras, com ocorrências adversas leves, e provocaram a indução de uma potente resposta imunológica, tendo em conta os níveis de anticorpos e sua qualidade, demonstrando capacidade de inibir a entrada do vírus na célula”.

As conclusões têm como base os resultados obtidos nas duas primeiras fases de testes, realizadas com grupos menores de voluntários e apenas em nível nacional.

Na fase três, que se inicia em março nas províncias de Santiago e de Guantánamo, o laboratório vai selecionar dois grandes grupos de voluntários e administrar a substância para apenas um deles. O outro grupo recebe um placebo. Na fase três, o teste é feito às cegas, o que significa que os participantes não são informados ao longo do experimento se receberam doses da vacina ou do placebo. No fim, a informação é revelada e os resultados, avaliados.

Qual o alcance da vacina

A aprovação dentro de Cuba é de responsabilidade do Cecmed (Centro para o Controle Estatal de Medicamentos, Equipamentos e Dispositivos Médicos). Se o órgão der aval, os dois imunizantes passam a ser administrados para pacientes com a covid-19 dentro do país.

Até sexta-feira (26), não havia registro de aplicação de nenhuma dose de vacina de nenhum tipo contra a covid-19 no banco de dados mantido pela Universidade de Oxford, uma das principais referências para esses dados no mundo.

Além de vacinar os próprios cubanos com o imunizante de fabricação própria, o governo promete também oferecer doses dessas duas vacinas para turistas internacionais que visitem a ilha, o que daria impulso a uma das principais atividades econômicas de Cuba, numa espécie de turismo vacinal.

Para circular internacionalmente, as vacinas cubanas terão de obter aprovação dos órgãos de controle dos países ou dos blocos de países nos quais pretendem entrar. Aí, as regras variam em cada local.

No Brasil, a aprovação cabe à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), que pode aprovar por si mesma ou liberar a comercialização com base em autorização dada por órgãos de controle de outros países, como EUA, China, Japão e União Europeia.

Saúde e direitos humanos

Desde a Revolução Cubana, que culminou com a deposição do então presidente Fulgêncio Batista, em 1959, a ilha vive sob um regime socialista autocrático, reconhecido tanto por seus avanços sociais quanto pelas graves violações de direitos humanos.

O fim do bloco soviético, em 1991, e o embargo internacional imposto pelo governo americano estrangulam a economia da ilha, que, ainda assim, consegue produzir indicadores na área da saúde muito superiores aos dos demais países latino-americanos.

A expectativa de vida ao nascer é maior em Cuba (78,7 anos) do que na média dos países da América Latina e Caribe (75,4 anos), nos dados de 2018. O país investe 11,1% de seu PIB (Produto Interno Bruto) em saúde, enquanto no restante da região esse índice é de 7,9%, também nos dados de 2018.

Mas o avanço na defesa de direitos humanos coletivos, como saúde e educação pública, contrasta com os retrocessos no respeito aos direitos humanos individuais, como liberdade de expressão, de associação e de protesto.

Em seu relatório de 2021, a ONG internacional de direitos humanos Human Rights Watch diz que Cuba “reprime e pune críticos opositores e impõe restrições para a saída de cidadãos da ilha”, além de realizar detenções arbitrárias e perseguir dissidentes.

Até 26 de fevereiro, Cuba tinha 47.566 casos confirmados da covid-19, com 312 mortos. As mortes por 100 mil habitantes chegam a 2,75 na ilha. Para efeito de comparação, o Brasil tinha 117,59 mortos por 100 mil habitantes na mesma data.

Impulso sanitário e político

Se entrar no restrito grupo dos países que desenvolveram vacinas eficazes contra a covid-19, o governo cubano terá dado um grande passo científico, mesmo com todas as restrições econômicas que enfrenta. Além disso, poderá reabilitar o setor de turismo e entrar no jogo da “diplomacia vacinal”, exportando doses para países em desenvolvimento.

“Não se trata apenas de medicina e de humanitarismo. Vai haver um grande retorno financeiro se eles [os cubanos] conseguirem manter o vírus sob controle”, disse ao jornal americano The New York Times o especialista em Cuba da Universidade de San Diego, na Califórnia, Richard Feinberg. “Não será um lucro apenas imediato, mas um ganho também na reputação dos setores biotecnológico e farmacêutico, que poderá também comercializar outros produtos.”

O presidente cubano, Miguel Díaz-Canel Bermúdez, vem saudando os avanços em suas redes sociais, mas mantém um tom precavido em relação à doença em si. Na maioria das postagens sobre as vacinas cubanas, ele sempre adiciona alertas para que a população permaneça vigilante e atenta ao uso de máscara, ao distanciamento social e à higiene pessoal, enquanto as vacinas não chegam.

O país tem 11,3 milhões de habitantes, mas espera produzir 100 milhões de doses de vacinas antes do fim de 2021. O ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva revelou em 21 de janeiro que testou positivo para covid-19 ao viajar para a ilha. Ele enalteceu à época “a solidariedade e o compromisso com a ciência” do governo local.

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