Os erros que tornaram o Brasil um caso único na pandemia

Enquanto resto do mundo registra queda da doença após adoção de lockdowns e intensificação da vacinação, país vê leitos se esgotarem

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Um ano depois de confirmar o primeiro caso de infecção pelo novo coronavírus, o Brasil passa em fevereiro de 2021 pela pior fase da doença e caminha em direção contrária ao resto do mundo, onde as curvas de contágio estão em queda. Com 250 mil mortes e mais de 10 milhões de infectados, o país enfrenta um cenário de colapso dos hospitais e executa um plano de imunização que só tinha conseguido vacinar 3% da população até quinta-feira (25).

A pandemia só foi declarada pela OMS (Organização Mundial da Saúde) em 11 de março de 2020. Um mês antes, o novo coronavírus já tinha sido detectado no Brasil. Em 24 de fevereiro, um homem de 61 anos que havia retornado de uma viagem a trabalho à Itália deu entrada no hospital Albert Einstein, em São Paulo, com sintomas de covid-19. Um exame detectou a doença no dia seguinte, e uma contraprova feita pelo Instituto Adolfo Lutz a confirmou. O caso foi registrado e divulgado pelo Ministério da Saúde em 26 de fevereiro.

O homem, que não teve sua identidade revelada, foi isolado em casa por 14 dias e se curou. Mas dali para frente, o país se mostraria incapaz de conter a disseminação do vírus. Em meio ao negacionismo adotado pelo presidente Jair Bolsonaro, que sabotou as medidas propagadas pela OMS, o país trocou duas vezes de ministro da Saúde, apostou em remédios ineficazes e não se antecipou para garantir as vacinas para os 210 milhões de habitantes.

Em fevereiro de 2021, o Brasil tem registrado recordes de internações em UTIs (Unidades de Terapia Intensiva), numa onda que atinge estados de todas as regiões, simultaneamente. Sofre ainda com a ameaça de uma mutação no vírus que pode tê-lo tornado mais contagioso e que só foi possível de surgir, em Manaus, devido ao descontrole da transmissão. Municípios têm adotado toque de recolher e a Bahia decretou lockdown.

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mortes por covid-19 foram registradas na quinta-feira (25), número recorde desde o início da pandemia

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estados estavam com a taxa de ocupação de UTIs superior a 90% na quinta-feira (25), segundo o conselho de secretários estaduais de Saúde

“Hoje o vírus mutado nos dá três vezes mais a contaminação, e a velocidade com que isso acontece em pontos focais pode surpreender o gestor em termos de estrutura de apoio. Essa é a realidade que vivemos hoje no Brasil. Não está centrado apenas no Norte e Nordeste, hoje você vê outros locais que nessa época do ano não estavam impactados”

Eduardo Pazuello

ministro da Saúde, em encontro com secretários da Saúde, na quinta-feira (25)

A seguir, o Nexo lista os principais pontos que fizeram o Brasil se tornar, no último ano, o segundo país em número de mortes no mundo e o terceiro com mais casos de covid-19.

Negacionismo e falta de coordenação

Na maior crise sanitária da história do Brasil, o papel de coordenar a resposta à pandemia caberia ao Ministério da Saúde. Enquanto o vírus assolava a Europa no começo de 2020, levando hospitais como os da Itália ao colapso, o país teve tempo para se preparar.

Não foi isso o que se viu. A entrada nos aeroportos, por onde chegaram os infectados, não foi controlada. As equipes de Saúde da Família e os agentes comunitários de saúde, presentes em todo o território nacional, não receberam orientação para identificar casos, rastrear contatos e isolar pessoas suspeitas de estarem contaminadas.

No início da pandemia, sob o comando de Luiz Henrique Mandetta, a pasta chegou a ensaiar apoio às medidas respaldadas pela ciência, como o isolamento social. Mas, numa disputa com Bolsonaro, avesso ao fechamento do comércio devido ao impacto da medida na economia do país (com consequente reflexo em sua popularidade), o ministro foi demitido.

Seu substituto, o também médico Nelson Teich, permaneceu menos de um mês no cargo, depois de se recusar a endossar um tratamento sem efeito contra a covid-19. Ele consistia no uso de cloroquina, um antimalárico usado há mais de 80 anos que se mostrou ineficaz em doentes com o coronavírus, como uma série de estudos demonstraram.

Depois que o governo federal tentou concentrar o poder de editar normas sobre a circulação das pessoas durante o período de pandemia, por meio de uma medida provisória, o Supremo Tribunal Federal decidiu, em abril, que estados e municípios tinham autonomia para definir suas ações. A decisão não tirou do Ministério da Saúde seu papel de coordenar a política nacional de combate à covid-19.

Em maio, o general da ativa do Exército Eduardo Pazuello assumiu a pasta. Ele não tinha experiência prévia com saúde e chegou a admitir que, antes de ocupar o cargo, não sabia o que era o SUS (Sistema Único de Saúde).

O órgão passou a divulgar um inexistente tratamento precoce contra o coronavírus, com um kit de remédios que incluía, além da cloroquina, um medicamento tradicionalmente usado para piolho (ivermectina) e outro que combate infecções causadas por bactérias (azitromicina).

Em janeiro, o ministro esteve em Manaus para lançar um aplicativo de uso restrito médico que indicava os mesmos remédios ineficazes, inclusive para crianças. Dias depois, a capital do Amazonas registrou mortes de pacientes por falta de oxigênio. O ministro é investigado sob suspeita de omissão na crise no estado. A Justiça também determinou que os gastos do governo federal com cloroquina sejam apurados.

Medidas brandas de isolamento

Um dos principais lemas da OMS, no início da pandemia, era a testagem em grande quantidade da população. Na ausência de remédio e, até então, de vacinas, a melhor estratégia para evitar a sobrecarga dos hospitais era testar o maior número de pessoas possível, identificar os doentes, isolá-los e colocar seus contatos em quarentena. Isso evitaria a disseminação da doença.

O Brasil, porém, nunca colocou em prática a medida, como países asiáticos fizeram. Os testes eram escassos, e profissionais de saúde reclamavam até mesmo da falta de equipamentos de proteção, como máscaras.

Os estados decidiram adotar quarentenas. Os comércios não essenciais começaram a ser fechados ainda em março. Sem uma coordenação do Ministério da Saúde, os fechamentos ocorreram de forma desorganizada pelo país. As medidas foram adotadas com critérios confusos até em cidades que não precisariam, num primeiro momento, adotá-las com tanto rigor, por terem poucos casos.

Em maio, com a pressão sobre os gestores públicos devido à crise econômica causada pelo fechamento de muitas atividades, os estados começaram a anunciar reaberturas — mesmo com os casos e mortes ainda em níveis altos.

As medidas restritivas colaboraram para frear a pandemia, mas não o suficiente. Nenhum local chegou a adotar plenamente os lockdowns, bloqueios totais que cortam a transmissão do vírus. Com o tempo, as pessoas foram cansando de ficar em casa e relaxando nos cuidados. A mensagem passada pelo presidente sempre foi de que a covid-19 é uma “gripezinha”. A fiscalização das regras também nunca foi suficiente e, em bairros periféricos, sequer chegou a ser feita.

Falta de vacinas

Dono de um dos maiores programas de imunização do mundo, capaz de vacinar cerca de 2 milhões de pessoas por dia, o Brasil não conseguiu usar plenamente sua estrutura por falta de vacinas.

O Ministério da Saúde se viu no meio de uma disputa entre Bolsonaro e o governador de São Paulo, João Doria, que apostou na vacina Coronavac, do laboratório chinês Sinovac. O governo federal, por sua vez, fechou um acordo com a fabricante anglo-sueca AstraZeneca para fabricar no país a vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford.

Bolsonaro e Doria têm pretensões de concorrer à Presidência da República em 2022. O presidente chegou a cancelar a compra da Coronavac anunciada por Pazuello, mas teve de voltar atrás quando, em janeiro, a vacina se mostrou segura, eficaz e teve aprovação para seu uso emergencial pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

Enquanto países como o Canadá garantiram com antecedência seis doses por pessoas de vacinas produzidas por sete laboratórios diferentes, o Brasil ficou dependente de apenas dois imunizantes.

Com dificuldades de importação dos insumos da China, o cronograma de entrega previsto inicialmente atrasou, e a campanha de vacinação, começada em 17 de janeiro, teve de ser interrompida por falta de vacinas, como aconteceu no Rio de Janeiro e em Salvador.

A vacinação em larga escala da população tem ajudado países como Reino Unido e Israel a reduzir o número de casos e mortes. As campanhas de imunização nesses locais foram combinadas com lockdowns rigorosos, e os dois países já planejam a reabertura.

Falta de monitoramento das variantes

A falta de controle da transmissão do coronavírus no Brasil propiciou o aparecimento de uma variante em Manaus que os pesquisadores dizem ser mais transmissível do que o vírus “original” descoberto na China.

As mutações no vírus são comuns e esperadas. Durante sua replicação no organismo, podem ocorrer falhas na informação genética. Algumas dessas mutações trazem vantagens evolutivas e tornam o vírus mais resistente e perigoso.

No Amazonas, por exemplo, não houve o cumprimento rígido das quarentenas e do uso de máscaras. O estado passou por duas ondas violentas de covid-19: a primeira, com um colapso funerário que forçou o enterro de pessoas em valas coletivas. Já a segunda levou ao esgotamento do oxigênio em várias cidades, e pacientes morreram sem conseguir respirar.

A variante se espalhou pelo país. No estado de São Paulo, 12 casos foram identificados apenas em Araraquara, cidade do interior com 240 mil habitantes. A prefeitura decidiu decretar lockdown, e pela primeira vez uma cidade brasileira fez um bloqueio total, por 60 horas, inclusive com o fechamento de supermercados.

Com poucos recursos para a vigilância genômica, capaz de identificar o aparecimento de novas variantes do vírus, o país não consegue controlar a circulação da mutação. Ela pode, inclusive, colocar em risco a vacinação, pois muitos imunizantes têm se mostrado menos eficazes quando testados com as novas cepas do coronavírus, como as surgidas no Reino Unido e na África do Sul. Elas têm semelhanças com a variante brasileira.

Um episódio ocorrido no Rio de Janeiro resumiu a dificuldade do país em fazer um controle epidemiológico. Em fevereiro, o secretário estadual de Saúde, Carlos Alberto Chaves, disse em entrevista que só soube pela mídia que quatro pessoas no estado estavam infectadas pela variante de Manaus e uma quinta pela mutação britânica.

“Saúde é coisa séria, e esse tipo de coisa não suporto. Acho que está faltando coordenação do Ministério da Saúde. É a minha opinião. Se você está sabendo e eu não estou sabendo, há uma descoordenação”, afirmou o secretário, durante a entrevista.

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