O que a ciência diz sobre o toque de recolher na pandemia

Países que tentaram restringir circulação da população durante algumas horas do dia acabaram migrando para o lockdown

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Estados e municípios brasileiros estão adotando toque de recolher durante a noite e a madrugada na tentativa de reduzir os casos de infecção pelo novo coronavírus. A medida já foi anunciada pelos governos da Bahia e Paraíba e por cidades como São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, e por Dracena, no interior paulista, que decidiu intercalar a estratégia com lockdowns aos finais de semana.

Várias regiões do país têm registrado esgotamento das vagas de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) e sobrecarga do sistema de saúde. O aumento no número de doentes de covid-19 no começo de 2021 é creditado às aglomerações e festas clandestinas realizadas no fim do ano e no carnaval e pode ainda estar relacionado à maior capacidade de transmissão da variante do vírus de Manaus que circula pelo país.

250 mil

era o número de mortos no Brasil pela covid-19 na quarta-feira (24), um ano após a confirmação do 1º caso no país

No toque de recolher, as pessoas são obrigadas a ficar em casa em determinados períodos do dia. Ele é usado em situações de desordem social (regiões dos Estados Unidos, por exemplo, decretaram toque de recolher durante os protestos pela morte de George Floyd, homem negro assassinado por um policial em 2020) ou desastres naturais.

O Centro de Contingência do Coronavírus do estado de São Paulo chegou a cogitar, na terça-feira (23), a adoção do toque de recolher das 22h às 5h, mas o governador João Doria (PSDB) resolveu, no dia seguinte, anunciar uma medida mais branda que ganhou o nome de “toque de restrições”, válido das 23h às 5h.

Na prática, a ação consiste no aumento da fiscalização pela vigilância sanitária, Polícia Militar e Procon (Fundação de Proteção e Defesa do Consumidor) para coibir aglomerações em bares e festas clandestinas. A restrição começa em 26 de fevereiro e dura até 14 de março.

Na quarta-feira (24), o estado registrou pelo terceiro dia consecutivo recorde de internações em UTIs. São 6.657 pessoas ocupando leitos para casos graves de covid-19. Em dez dias, foram 660 novas internações na terapia intensiva. Segundo o estado, caso as hospitalizações continuem nesse mesmo ritmo, os leitos devem se esgotar em apenas três semanas.

Os efeitos da medida na França

Países como Estados Unidos, Canadá, Espanha, Itália e Suíça adotaram o toque de recolher como estratégia para tentar frear a contaminação pelo vírus, mas os resultados não são claros e muitos pesquisadores consideram que a medida é insuficiente e, na maioria das vezes, foi adotada tardiamente para que pudesse surtir efeito.

Em dezembro, a França decretou a medida das 20h às 6h. No mês seguinte, as restrições, ainda em vigor, foram ampliadas para o período das 18h às 6h. No final de janeiro, o ministro da Saúde francês, Olivier Véran, disse que a estratégia tinha um “efeito real”, mas não a ponto de reduzir a transmissão do vírus. Para ele, era muito difícil evitar a contaminação entre membros da mesma família.

Como os dados da pandemia não sofreram impacto, o governo francês passou a ser pressionado a decretar um terceiro lockdown no país. No sábado (20), o ministro reconheceu que algumas regiões, onde o vírus tem se espalhado com mais rapidez, podem ter que fechar.

Em outubro, a França já tinha tentado o toque de recolher das 21h às 6h. Inicialmente, mais da metade do país aderiu. No final do mês, a medida evoluiu para um lockdown em todo o país.

Num estudo publicado em novembro, pesquisadores franceses disseram que a medida reduziu a aceleração da pandemia, mas os efeitos mais fortes foram sentidos apenas entre as pessoas com 60 anos ou mais. Para os grupos de menor idade, apenas o lockdown teve impacto.

Um dos autores do trabalho, o professor da Universidade de Aix-Marseille, na França, Patrick Pintus, afirmou à TV canadense CBC que, por não ser um estudo controlado, os resultados indicavam uma correlação entre o toque de recolher e a desaceleração do contágio, mas não uma causa e efeito.

“Nossa interpretação é que, provavelmente, devido ao toque de recolher, houve muito menos interações entre os grupos de idosos em bares e restaurantes”, afirmou.

Fracasso da estratégia no Reino Unido

No Reino Unido, o toque de recolher foi adotado em setembro de 2020. Bares foram obrigados a fechar às 22h, mas, um mês depois, os casos de covid-19 continuaram crescendo. A situação forçou o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, a decretar um novo lockdown, que fechou todo o comércio não essencial e só permitiu que a população deixasse suas casas com justificativas.

Em entrevista ao site americano Vox.com, a professora de saúde pública Leana Wen, da Universidade George Washington, nos Estados Unidos, disse que o toque de recolher pode ter efeito limitado se a população não entender que precisa redobrar os cuidados durante o período em que a circulação está autorizada.

Para ela, o problema do Reino Unido pode ter sido que as pessoas aproveitaram as brechas na estratégia para viver suas vidas. “O problema é que as pessoas iam para casa levando os amigos para beberem juntos”, afirmou ao site.

Pesquisador sênior do Centro Johns Hopkins para Segurança da Saúde, nos Estados Unidos, Amesh Adalja disse à revista Forbes que os encontros privados em casa, entre amigos, realizados devido ao fechamento de restaurantes e bares, podem espalhar mais vírus do que as reuniões públicas. “Não acho que exista qualquer evidência forte que mostre que esse tipo de abordagem funcione”, afirmou o pesquisador, em outra entrevista, ao canal CBC.

Um estudo publicado em janeiro na revista Science com base nos dados de uma província chinesa que aderiu à estratégia no início do surto de covid-19 mostrou que a medida reduziu a transmissão do vírus dentro da comunidade, mas aumentou o risco de infecção dentro das casas.

Poucos dados sobre a eficácia

Ao jornal The New Times, o epidemiologista Jon Zelner, da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, afirmou que existem poucos dados científicos disponíveis para afirmar que os toques de recolher são eficazes. Segundo ele, medidas coercitivas raramente funcionam a longo prazo e acabam desgastando a confiança das pessoas para seguir as regras.

O melhor, de acordo com ele, seria que a população aceitasse e seguisse diretrizes como o distanciamento social e o uso de máscaras em vez de uma série de restrições como os toques de recolher. É o que acontece, por exemplo, no Japão, que tem baixa incidência de casos.

No Brasil, o médico e neurocientista Miguel Nicolelis, que coordenou o comitê científico de combate à covid-19 do Consórcio Nordeste, disse ao jornal Correio, da Bahia, que a restrição adotada no estado desde o dia 18 de fevereiro, no período das 22h às 5h, não irá funcionar.

“Onde o toque de recolher foi testado, provou não ser eficaz. Na Europa, todos os lugares que tiveram evoluíram para um lockdown logo depois. Isso é uma questão de dias. Essas medidas paliativas não têm efeito”, afirmou.

Em entrevista à rádio CBN, na quarta-feira (24), a microbiologista Natalia Pasternak, presidente do Instituto Questão de Ciência, disse que não faz sentido restringir a mobilidade da população num horário em que ela já é reduzida, como acontece depois das 22h. Para ela, faria mais efeito começar um toque de recolher a partir das 19h, por exemplo.

Seu argumento é parecido com o da professora Karin Michels, do departamento de epidemiologia da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, em entrevista à rede CBC. Para ela, iniciar a estratégia às 22h ainda permite muitos contatos sociais. Já às 20h poderia ter um efeito maior, como adotado pela cidade de Quebeque, no Canadá.

“Se tenho que estar em casa às 20h, tenho que começar mais cedo [a me preparar para sair]. Se quero ir à casa de alguém, talvez não tenha tanto tempo porque trabalho até as 17h ou as 18h. Acho que às 20h é mais eficaz. E dada a situação da pandemia, temos que encará-la e ser mais restritivos”, disse.

A desconfiança em São Paulo

Ao divulgar o “toque de restrições” no estado de São Paulo na quarta-feira (24), Doria negou que se tratasse de um toque de recolher, por não envolver proibições.

“Se fosse toque de recolher, nós não teríamos transporte coletivo depois das 23h, aplicativos não poderiam funcionar depois das 23h, táxis, postos de combustíveis, supermercados. Não há proibição para esses funcionamentos. Há restrições. O objetivo é evitar aglomerações. Este é o grande sentido do esforço que nós estamos fazendo”, afirmou.

Segundo a secretária de Desenvolvimento Econômico do estado, Patrícia Ellen, a medida tenta passar uma “mensagem pedagógica e simbólica para as pessoas”. “O que nós estamos fazendo com esse toque de restrições é exatamente também pedir a colaboração da população. Nós tínhamos circulação de pessoas. Há de certa forma o entendimento que, por exemplo, festas e aglomerações em casa podem”, afirmou.

A medida, ainda mais branda do que o toque de recolher, deve, porém, ter pouco efeito. Atualmente, o Plano São Paulo já impede que os serviços não essenciais funcionem após as 22h. Especialistas dizem que as altas nos casos e mortes estão associadas à mobilidade e não apenas às aglomerações em festas. Quando as pessoas param de circular, os números também caem.

Os governos, na visão dos cientistas, deveriam adotar um lockdown, pois há evidências de que funcionam. Países como o Reino Unido e Israel conjugaram a medida com uma campanha intensa de vacinação e conseguiram reduzir casos, mortes e internações, e já planejam a retomada das atividades para os próximos meses.

O lockdown adotado por Araraquara por um período de 60 horas foi o primeiro no Brasil com medidas mais rigorosas, a exemplo do que aconteceu em outros países. “Ironicamente, a maioria dos gestores parece ter colocado a economia como prioridade, mas com medidas paliativas eles só empurraram a crise, que pode durar mais tempo do que o esperado”, afirmou Nicolelis ao jornal Correio.

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