Como países planejam a reabertura após avançar na vacinação

Com índices da covid-19 em queda, Israel e Inglaterra desenham cronogramas de reabertura de atividades que incluem encontros sociais, shows ao vivo e eventos esportivos

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Com campanhas de vacinação contra a covid-19 adiantadas, Israel e Inglaterra colocam em prática no fim de fevereiro planos para a retomada de diversas atividades, incluindo aquelas consideradas impensáveis há alguns meses. Entre as possibilidades apresentadas pelas autoridades das duas nações estão shows em lugares fechados, viagens internacionais, museus e até baladas.

Os dois países passaram por meses de medidas de lockdown bastante rígidas, depois de enfrentarem fortes repiques da doença entre os últimos meses de 2020 e o início de 2021. Agora experimentam reduções significativas em índices de novos casos e hospitalizações. Mesmo com a melhoria dos índices e o progresso da cobertura vacinal, no entanto, Israel e Inglaterra optaram por flexibilizações bastante cautelosas, realizadas em diversas etapas.

Para Paulo Petry, Mestre e doutor em Epidemiologia e professor da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), os dois países optaram por uma retomada cuidadosa pois ainda não contam com a totalidade da população vacinada.

O especialista disse ao Nexo que as vacinas também não conferem imunidade de 100%. Além disso, “esses governos, por recomendação dos cientistas, estão cautelosos, pois, por saberem desse percentual de vacinas aplicadas, muitas pessoas podem relaxar e tomar atitudes comportamentais inadequadas”.

Para Petry, embora não seja possível mensurar o papel do lockdown na redução de casos, “a verdade é que as duas medidas em conjunto tiveram um potencial bastante importante como redutores do impacto da pandemia”. Ele frisa que as medidas de confinamento em países europeus e Israel “foram muito severas, diferentemente do Brasil, onde fizemos de relativo distanciamento”.

Mesmo assim, as quarentenas trazem resultados positivos. Um estudo da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro divulgado em julho de 2020 mostrou que o isolamento social, mesmo com índices abaixo dos 50%, contribuiu para salvar vidas e impedir uma disseminação maior da covid-19 no Brasil. Segundo os pesquisadores, a cada 1% na taxa de isolamento (calculada por meio de dados de aparelhos de celular), a transmissão do vírus pode apresentar uma queda de 37% no número de novos contaminados.

As liberações em Israel

O país do Oriente Médio é líder mundial da vacinação contra a covid-19. Na terça-feira (23), mais da metade da população de 8,88 milhões já havia tomado pelo menos uma vacina. Os que tomaram as duas doses totalizaram 34,6% da população na mesma data.

52,4%

Porcentagem da população de Israel que recebeu pelo menos uma dose da vacina contra a covid-19 em 24 de fevereiro de 2020

5.634

Número de mortes por covid-19 em Israel na mesma data

O primeiro-ministro Binyamin Netanyahu afirmou no domingo (21) que espera que 95% dos israelenses com mais de 50 anos estejam vacinados até meados de março. Até agora, apenas doses do imunizante da empresa farmacêutica BioNTech-Pfizer vêm sendo aplicadas, embora o país tenha estoques também do produto da Moderna.

Um estudo preparado pelo ministério da Saúde israelense em conjunto com a Pfizer constatou que a vacina está barrando nove entre dez infecções no país. O documento, revelado por um jornalista israelense em 16 de fevereiro, diz que o país pode alcançar a imunidade coletiva já em março.

Uma reabertura cuidadosa vem sendo realizada no país. Em 7 de fevereiro, foram liberadas viagens individuais para distâncias de até um quilômetro de casa, visitas a parques nacionais e reservas ambientais e a abertura de negócios que não atendem o público, assim como empreendimentos de atendimento individual, como cabeleireiros e esteticistas.

Desde 21 de fevereiro, lojas, shopping centers, bibliotecas e museus podem voltar a funcionar, mas com distanciamento social e máscaras. Sinagogas, piscinas, academias e hotéis também podem receber o público, mas apenas aqueles que tiverem um certificado de vacinação, o chamado “passaporte verde”. O comprovante está disponível por meio de um aplicativo para quem já recebeu a segunda dose há mais de uma semana.

Eventos culturais e esportivos também podem retomar suas atividades para pessoas já vacinadas. Os shows e jogos, porém, tem de seguir uma porção de restrições. Estas incluem a presença de no máximo 300 pessoas em espaços internos e 500 em externos. O público deve permanecer sentado o tempo inteiro, sendo que dançar e comer segue proibido.

O país permanece em alerta contra eventuais ressurgimentos do vírus. Na quarta-feira (24), foi reportado um ligeiro aumento nas novas infecções em decorrência da retomada de atividades. Em uma semana, o número de casos novos foi de 3.500 por dia para 4.389. Na terça-feira, o governo aprovou o toque de recolher entre 20h30 e para o fim de semana do feriado do Purim (26 a 28 de fevereiro).

A retomada inglesa

O Reino Unido já conseguiu aplicar pelo menos uma dose de imunizante em um quarto da população. Já foram cerca de 18,5 milhões de vacinas dadas, incluindo doses da AstraZeneca, de Oxford, que teve sua eficácia questionada em pessoas com mais de 65 anos. O presidente da França, Emmanuel Macron, chegou a chamá-la de “quase ineficiente”.

26,4%

Porcentagem da população do Reino Unido que recebeu pelo menos uma dose da vacina contra a covid-19 em 22 de fevereiro de 2020

121.305

Número de mortes por covid-19 no Reino Unido em 23 de fevereiro

A média móvel de casos de covid-19 no Reino Unido caiu 81% entre janeiro e fevereiro, e o país conseguiu vacinar 4,4 vezes mais que a média dos 27 membros da União Europeia.

Na segunda-feira (22), o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, anunciou um plano de retomada de quatro passos, com cinco semanas de intervalo entre cada etapa. O plano vale inicialmente para a Inglaterra e não para os outros três países integrantes do Reino Unido, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte.

Na primeira etapa, escolas e faculdades podem abrir integralmente, encontros e exercícios podem ser realizados em lugar aberto com mais uma pessoa apenas e casamentos com até seis pessoas. Viagens são proibidas.

Já na quarta etapa, que não deve acontecer “antes de 21 de junho”, podem reabrir casas noturnas, contatos sociais e eventos públicos podem acontecer sem restrições e viagens internacionais são autorizadas. O governo assinala que todas essas atividades estão “sujeitas a revisão”.

Em 23 de fevereiro, o ministro da Saúde britânico, Matt Hancock, ressaltou que o sucesso do plano depende do esforço de cada pessoa, para que “atinjamos esses prazos e consigamos sair disso o mais cedo possível”. Segundo ele, pessoas poderão abraçar amigos e família a partir de 17 de maio, quando a maior parte dos grupos vulneráveis no país terá sido vacinada.

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