A guinada na política sanitária de Boris Johnson

Premiê britânico abandonou postura negligente do início da pandemia e promove uma das vacinações mais rápidas do mundo

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O primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, anunciou nesta segunda-feira (22) que vai levantar paulatinamente, a partir do dia 8 de março, a atual fase do lockdown, que teve início no dia 4 de janeiro.

O anúncio é uma dupla vitória: ele traz alívio ao país no campo da saúde e coroa uma revanche do próprio Johnson no campo da política. O respiro ocorre bem na hora em que o Reino Unido (Inglaterra, Irlanda do Norte, País de Gales e Escócia) tenta reencontrar seu caminho após a conclusão do Brexit. A expressão refere-se ao desligamento da União Europeia, um movimento ousado que foi seguido de prognósticos sombrios sobre o futuro político e econômico não apenas de Johnson, mas do Reino Unido como um todo.

A pandemia golpeou os britânicos. No ranking mundial de mortos pela pandemia, o Reino Unido amarga a quinta posição. Eram quase 121 mil mortos pela covid-19 no país até 23 de fevereiro. Somados, os países do reino lideram as cifras negativas na Europa e, em todo o mundo, estão atrás apenas de EUA (500 mil mortos), Brasil (247 mil), México (180 mil) e Índia (156 mil).

Do ponto de vista sanitário, a distensão do lockdown anunciada por Johnson em cadeia de rádio e TV mostra que as restrições de mobilidade e a vacinação massiva funcionaram. A média móvel de casos de covid-19 no Reino Unido caiu 81% entre janeiro e fevereiro, e o país conseguiu vacinar 4,4 vezes mais que a média dos 27 membros da União Europeia. No Reino Unido, até terça-feira (23), a vacinação tinha alcançado pouco mais de 27% da população britânica, contra apenas 6% no conjunto da União Europeia.

Politicamente, o anúncio revela a capacidade de Johnson de se reinventar. Desde a descoberta do primeiro caso no país, em 29 de janeiro de 2019, o premiê britânico passou de uma postura desdenhosa em relação à pandemia à liderança europeia na vacinação, sem hesitar em decretar confinamentos e outras medidas inicialmente impopulares, mas que, com o passar do tempo, renderam frutos.

A opinião da população sobre Johnson e o Partido Conservador, ao qual ele pertence, melhorou. A avaliação negativa de premiê, que, em 6 de novembro, era de 50,6%, passou a 44,6% em 12 de fevereiro. A avaliação positiva subiu no mesmo período, de 35,2% para 40,1%. Em 22 de janeiro, o Partido Conservador passou à frente do rival Partido Trabalhista nas pesquisas de opinião – 41% dos britânicos votariam nos conservadores e 36,8% votariam nos trabalhistas. Nos três meses anteriores a esta pesquisa, de outubro a janeiro, as posições eram invertidas, com os traballhistas à frente dos conservadores.

O sonho da volta à normalidade

O anúncio do desconfinamento progressivo foi recebido como o primeiro sinal de uma possível volta à normalidade pré-pandêmica, o que ocorre graças a um investimento agressivo na vacinação dos britânicos.

O plano inclui retomada das aulas presenciais e autorização para encontros familiares que incluam parentes idosos. Numa segunda fase, programada para ter início em 29 de março, os encontros ao ar livre serão permitidos.

A ideia é que esse plano progressivo, que prevê reaberturas paulatinas e avaliações graduais em intervalos de cinco semanas, culmine, em 21 de junho, com algo próximo do que se poderia chamar de uma volta à realidade pré-pandêmica.

Essa não é a primeira reabertura que Johnson decreta no Reino Unido. Desde o registro do primeiro caso, em 29 de janeiro de 2020, o país abriu e fechou, muitas vezes de maneira descoordenada. Em setembro de 2020, o governo tentou uma estratégia de fechamento por região, de acordo com o risco de transmissão. Em novembro, foi implementado um primeiro lockdown nacional. Em seguida, houve um ensaio de reabertura perto das festas de final de ano. Contudo, a detecção de uma variante mais contagiosa do novo coronavírus e o aumento nas taxas de transmissão levaram o governo a fechar tudo de novo, num período excepcional que deve chegar ao fim no início de março, como anunciado pelo premiê.

Contaminado, premiê mudou de ideia

Johnson mudou de ideia sobre a pandemia ao longo dos meses. E essa mudança está relacionada em grande medida ao fato de ele mesmo ter contraído a doença. Um mês depois do registro do primeiro caso no Reino Unido, em 3 de março de 2020, o premiê britânico se jactava de apertar as mãos de pacientes contaminados com a covid-19 nos hospitais de Londres, sabendo que essas pessoas podiam transmitir o vírus.

Em 12 de março, também antes da internação, Johnson dizia: “Devo ser claro com os senhores e a população britânica: muitas famílias irão perder seus entes queridos antes do que pensavam.” O alerta foi entendido como um sinal de que o governo pretendia apostar todas as fichas na chamada “imunidade de rebanho”, uma expressão usada para designar o momento em que o número alto de pessoas contaminadas criaria um nível de imunidade elevado no conjunto da população.

A aparente aposta na estratégia da “imunidade de rebanho” durou pouco. Com os casos crescendo e o Reino Unido assumindo a liderança negativa na Europa, o premiê deu sinais de que pretendia calibrar sua opção. Em 23 de março, ele disse: “Dizendo de maneira simples: se muitas pessoas ficarem severamente doentes ao mesmo tempo, nosso sistema nacional de saúde não terá capacidade para lidar com isso. Mais pessoas morrerão – não apenas [por causa] do coronavírus, mas de outras doenças também.”

A guinada de Johnson se completou depois de 5 de abril de 2020, quando ele deu entrada no Hospital St. Thomas, em Londres, dez dias depois de ter recebido o diagnóstico positivo para covid-19. Johnson permaneceu sob os cuidados do sistema de saúde pública do Reino Unido, o NHS, uma espécie de SUS (Sistema Único de Saúde) britânico, e saiu da internação elogiando médicos e enfermeiros do país.

Quando ele foi internado, o vírus já tinha contaminado 1,2 milhão de pessoas no mundo, deixando um rastro de 69 mil mortos. Só no Reino Unido, os contaminados chegavam a 47.806, e os mortos, a 4.934 até aquela data.

Aposta precoce na vacina

Boris Johnson saiu pela porta do hospital St. Thomas menos incrédulo sobre o tamanho da ameaça que a pandemia representava e mais decidido a imunizar a própria população.

Johnson entrou com força na competição por contratos de aquisição dos imunizantes contra a covid-19, de maneira mais agressiva que seus pares europeus. Se sua postura inicialmente incrédula sobre a pandemia ecoava os discursos de outros líderes conservadores, entre os quais o americano Donald Trump, que àquela altura ainda presidia os EUA, o mesmo ocorreu em relação à aposta desinibida no que passou a ser chamado de “nacionalismo da vacina”.

A expressão se refere à corrida desenfreada dos governos para garantir a vacinação de sua própria população, a despeito do prejuízo que isso cause a nações menos favorecidas. No Reino Unido, assim como nos EUA, o altruísmo ficou em segundo plano. Mesmo que britânicos e americanos tenham feito aportes financeiros importantes à iniciativa multilateral Covax, por meio da qual a OMS (Organização Mundial da Saúde) pretende aumentar o acesso global aos imunizantes, a prioridade é, de longe, a vacinação da própria população.

Essa postura de Johnson causou problemas com os demais líderes europeus. A disputa pelos lotes de imunizantes tornou-se explícita na Europa, a tal ponto que, em 27 de janeiro de 2021, a Comissão Europeia ordenou uma investigação contra a farmacêutica anglo-sueca AstraZeneca, que produz a chamada vacina de Oxford.

As autoridades europeias estavam contrariadas com o fato de a empresa garantir o cumprimento de todos os contratos de fornecimento aos britânicos, enquanto anunciava ao bloco que não poderia honrar os contratos com o restante do continente. O lance mostrou a primeira vitória estratégica de Johnson contra a União Europeia após o Brexit, pois o premiê britânico fez investimentos massivos e precoces para assegurar o acesso às vacinas.

Johnson apostou em contratos futuros e investiu até mesmo na construção de fábricas de insumos quando sequer era certo que se chegaria à descoberta de um imunizante contra a covid-19.

Não existem prognósticos confiáveis que apontem para o fim da pandemia e para uma volta à normalidade. O que existem são projeções de retomada gradual, enquanto as mutações do vírus não se mostram resistentes aos imunizantes disponíveis. Mesmo nessa corrida de meta incerta, Johnson ganhou popularidade e conseguiu levar adiante seu plano de vacinação em massa.

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