Como a Petrobras afeta a relação de Bolsonaro com o mercado

Indicadores tiveram queda expressiva após presidente reclamar da política de preços da estatal e anunciar mudança no comando da petrolífera

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Mesmo antes que a segunda-feira (22) começasse, investidores e economistas previam uma forte queda no mercado financeiro ao longo do dia. A deterioração dos indicadores, que se confirmou, entrou no radar de analistas depois que o Ministério de Minas e Energia anunciou, na noite de sexta-feira (19), a indicação do general da reserva Joaquim Silva e Luna para o cargo de presidente da Petrobras.

Luna deve suceder Roberto Castello Branco no cargo, sendo que a escolha precisa ser aprovada pelo conselho de administração da empresa. Castello Branco vinha sendo elogiado pela equipe de Paulo Guedes, ministro da Economia, mas criticado pelo presidente da República, Jair Bolsonaro.

O anúncio da troca ocorre num contexto de aumento do preço dos combustíveis – na quinta-feira (18), um dia antes de a mudança vir à tona, a Petrobras anunciou a quarta alta consecutiva no preço da gasolina nas refinarias e a terceira alta do diesel apenas em 2021. Em nota, a empresa disse que “o alinhamento dos preços ao mercado internacional” é necessário para garantir o suprimento do mercado sem risco de desabastecimento.

A alta nos preços é fortemente criticada pelos caminhoneiros, que reclamam dos seguidos aumentos do óleo diesel. A categoria, em sua maioria, é apoiadora do presidente da República.

No dia do aumento, Bolsonaro afirmou durante sua live semanal que o valor era “excessivo” e antecipou que “alguma coisa” iria acontecer, sem detalhar. Já no sábado (20), depois do anúncio da troca de gestão na petrolífera, Bolsonaro disse que a formação de preço dos combustíveis no Brasil é uma “caixa preta” e que “a gasolina, o combustível, poderia ser no mínimo 15% mais barato, se todos os órgãos estivessem funcionando.”

Depois de provocar mudanças no comando da Petrobras, Bolsonaro disse nesta segunda-feira (22) que não pretende interferir nos preços da empresa, mas questionou os últimos aumentos. No sábado (20), o presidente disse que pretende “meter o dedo na energia elétrica”. As indicações do presidente sinalizam para um viés intervencionista, contrariando seu discurso de campanha de uma cartilha liberal.

A reação e as menções ao governo Dilma

A interferência do presidente na composição da direção da Petrobras provocou reações no mercado e gerou o temor de que a empresa abandone critérios de mercado para a definição do preço dos combustíveis.

Na segunda-feira (22), primeiro dia em que a bolsa operou depois do anúncio, o Ibovespa, principal índice acionário do país, fechou em queda de 4,87%, a 112.667,70 pontos. As ações da Petrobras tiveram uma queda superior a 20%. Bancos e casas de investimento recomendaram vender os papéis da estatal de petróleo.

Não há mais como defender; Rebaixamos para VENDA”, foi o título de uma nota da XP Investimentos sobre ações da empresa. Depois do episódio, segundo o portal infomoney, economistas passaram a revisar projeções para PIB, inflação e dólar para 2021.

A notícia também repercutiu mal entre investidores estrangeiros, e o episódio levou a comparações com o governo Dilma Rousseff. A ex-presidente foi alvo de críticas pela política de preços da Petrobras durante seu primeiro mandato, quando os valores eram usados para segurar a inflação e como medida de incentivo à economia, gerando prejuízo bilionário para o caixa da estatal. Em 2015, depois de anos de represamento artificial dos preços dos combustíveis, o aumento dos preços controlados foi um dos fatores que levaram a inflação a disparar.

Já sob o governo Michel Temer, vice que assumiu com o impeachment da petista em 2016, a política de preços da Petrobras passou a se pautar nas cotações internacionais do petróleo e do dólar. De início, os preços chegaram a variar quase que diariamente, seguindo a flutuação do mercado internacional. Em 2018, depois da greve dos caminhoneiros e de uma interferência do governo para fazer acordos, esses reajustes passaram a ser quinzenais. Já em 2019, sob Bolsonaro, eles deixaram de ter prazo pré-estabelecido.

O discurso liberalizante de Bolsonaro em debate

Embora tenha construído sua carreira política defendendo medidas estatizantes e ligadas ao corporativismo militar, Bolsonaro encampou a defesa da agenda econômica liberal na campanha eleitoral de 2018. Aliando seu nome ao de Paulo Guedes, que veio a ser ministro da Economia, o capitão reformado ganhou a simpatia de empresários e investidores, que defenderam sua candidatura no segundo turno contra o petista Fernando Haddad. De lá para cá, no entanto, o presidente contrariou a agenda prometida em diversas oportunidades.

Entre as prioridades colocadas no início do mandato – privatizações, reforma tributária e reforma da Previdência –, apenas a mudança na aposentadoria dos brasileiros foi levada a cabo nos dois primeiros anos de governo, numa articulação política comandada sobretudo pelo deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), então presidente da Câmara e desafeto político de Bolsonaro.

O ministério da Economia entregou uma proposta de reforma tributária apenas na segunda metade de 2020, e ela ainda não foi apreciada pelo Congresso. Ao jornal O Globo o atual presidente da Câmara, deputado Arthur Lira (PP-AL), disse no domingo (21) que “era muito mais fácil você ter a aprovação de reformas nos dois primeiros anos do mandato”, mas que o Legislativo iria colocar as reformas em pauta. As privatizações, outra prioridade do governo, tiveram avanço tímido até o início de 2021.

Ao longo da primeira metade do mandato, Bolsonaro também provocou a saída do governo de diversos quadros ligados ao mercado. Em 2019, após críticas do presidente, Joaquim Levy pediu demissão do BNDES. Em julho de 2020, foi a vez de Rubem Novaes pedir demissão do Banco do Brasil. Em agosto do mesmo ano, dois integrantes da equipe econômica ligados à pauta liberal anunciaram a saída do governo: os secretários especiais de Desestatização e Privatização, Salim Mattar, e o de Desburocratização, Gestão e Governo Digital, Paulo Uebel.

Em 2021, Bolsonaro chegou a determinar a demissão do atual presidente do Banco do Brasil, André Brandão, depois que ele anunciou um plano de demissão voluntária e fechamento de agências. Bolsonaro foi demovido da ideia por Paulo Guedes e pelo presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. Na interferência mais recente na Petrobras, porém, a voz contrária de Guedes não teve o mesmo peso.

A relação entre Bolsonaro e mercado sob análise

O Nexo ouviu dois especialistas que acompanham diariamente as movimentações do mercado sobre como a ingerência na Petrobras afeta o apoio a Bolsonaro

  • Alessandra Ribeiro, sócia diretora da Tendências Consultoria e responsável pela área de macroeconomia e análise setorial
  • Cristiano Noronha, cientista político e vice-presidente da consultoria Arko Advice

Qual é o espaço hoje da agenda liberal no governo Bolsonaro?

ALESSANDRA RIBEIRO Esses sinais de intervenção em empresas públicas estatais já estavam evidentes muito antes [do episódio desta sexta-feira]. Agora a coisa tomou uma outra proporção com a Petrobras e o sinal de que o presidente vai ‘meter o dedo’ na energia elétrica. É um contexto bastante preocupante porque mostra que a agenda liberal do Guedes, ou a agenda do time econômico, está cada vez mais sendo deixada de lado.

O presidente tem um objetivo muito claro, que é sua permanência no poder. [Bolsonaro já apontou que pretende disputar a eleição presidencial de 2022]. E para isso, além do discurso, está tentando usar os instrumentos econômicos. O presidente está passando por cima e o time econômico não está conseguindo segurar esse tipo de intervenção. É bastante crítico e, para o Paulo Guedes, fica uma situação muito difícil, porque ele defende uma agenda completamente oposta, e já há sinais de desgaste do time da agenda econômica, ainda mais à luz da pandemia. [A intervenção de agora] não deixa de ser um novo golpe para o ministro.

CRISTIANO NORONHA Acredito que a agenda de concessões e projetos de lei [liberais] não tem prejuízo, mas precisamos ver daqui para frente. A primeira coisa é aguardar como vai ser essa nova gestão da Petrobras, como a empresa vai definir preço e que tipo de decisão o presidente vai tomar em relação ao setor elétrico.

O preço do combustível, a Petrobras e o setor elétrico são setores que, no mundo político, parece existir um certo entendimento de que o governo pode intervir, de que são áreas estratégicas e que o governo de alguma forma tem que manter o controle, daí a resistência inclusive de essas empresas serem privatizadas. Uma coisa são essas empresas, outra coisa é a agenda de reformas, e acho que isso não muda.

[O espaço da agenda liberal no governo hoje] é de médio para alto. O novo marco [do saneamento] foi aprovado, a autonomia do Banco Central já teve a sanção marcada para quarta-feira, o próprio governo encaminhou um projeto de capitalização para permitir a privatização da Eletrobras, e tem incluído cada vez mais empresas no programa de PND [Programa Nacional de Desestatização]. A agenda [liberal] acho que a gente vai continuar caminhando.

O caso Petrobras é um ponto de virada na relação do mercado com Bolsonaro, lembrando que ele foi o candidato do mercado em 2018 contra o PT e que Dilma era criticada por interferir na Petrobras?

ALESSANDRA RIBEIRO Esse apoio [do mercado a Bolsonaro] já vem diminuindo há um tempo, tanto que vemos uma percepção de risco maior, isso se reflete nos preços de ativos, em câmbio descolado de comportamento de dólar. O mercado está cada vez menos confiante há um tempo. Esse episódio é mais um golpe.

Mas o mercado não vai ficar completamente contra o governo, não é o caso ainda. O mercado vai embutindo cada vez mais risco. Hoje, câmbio depreciando, juros futuros subindo. O mercado já está colocando mais risco nos preços, embutindo essas mudanças. Mas ainda não é que o mercado acha que ‘vamos virar uma Venezuela' e vai sair correndo. É mais uma paulada, e o mercado precifica esse risco.

CRISTIANO NORONHA [A relação com o mercado] sofreu um abalo muito grande, mas vai depender muito dos próximos passos. Eu não tenho a avaliação de que essa agenda [liberal sofreu um revés definitivo [com o caso Petrobras]. Foi uma intervenção pontual, muito provavelmente com o governo pressionado até pela questão da greve dos caminhoneiros. Mas não acho que isso vá se espalhar por todas as áreas de concessões que o governo tem que tocar, nem acho que vai contaminar a agenda de reformas no Congresso.

O mercado vai acompanhar com lupa as ações da próxima diretoria da Petrobras. Se ele [Joaquim Silva e Luna, indicado para dirigir a empresa] visivelmente tomar algumas decisões de não acompanhar o [preço do] combustível pelo [preço do] barril do petróleo lá fora, o mercado vai entender que houve uma guinada. Aí, onde o governo fizer algum tipo de ação, o mercado vai começar a duvidar também. Precisa separar as coisas. O governo pode ser liberal num determinado setor e intervencionista em outro, a gente convive com isso há algum tempo.

Bolsonaro ainda pode ser o candidato do mercado em 2022? Do que isso depende?

ALESSANDRA RIBEIRO Vai depender muito da corrida, de quem serão os competidores do Bolsonaro. se a gente tiver uma coalizão de centro-direita com uma agenda econômica interessante, positiva, na linha do que o mercado defende, podemos ter uma migração para esse nome de centro-direita. Agora, se a gente ficar no jogo entre direita e esquerda, ainda acho que o mercado tende, apesar de tudo, para Bolsonaro. E é o jogo que ele está tentando jogar - polarizar com a esquerda, porque sabe que ainda tem mais chance com um nome na esquerda do outro lado.

CRISTIANO NORONHA Isso vai depender das alternativas que estiverem do outro lado. O mercado vai sempre escolher uma preferência dependendo dos nomes colocados. O mercado quer saber o que vai acontecer e como ele pode ganhar mais dinheiro. Não é pela decisão de hoje que o mercado vai dizer 'não queremos mais o Bolsonaro'. O Brasil não é só a Petrobras. Para o mercado fazer sua opção, tem que ver como o Bolsonaro vai se comportar com a agenda fiscal, quais são os próximos passos na Petrobras, o que acontece no setor elétrico, se a agenda de privatizações anda ou não.

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