O projeto de diários pessoais criado na pandemia

Pensada por pesquisadores de universidades americanas, plataforma reúne mais de 6.500 relatos sobre temas como o isolamento social e o contexto político no entorno da crise sanitária

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    O “Pandemic Journaling Project” (projeto de diários da pandemia, em tradução livre) reúne textos, áudios e fotos produzidos por pessoas comuns que contam experiências vividas desde o início da pandemia do novo coronavírus, declarada em março de 2020 pela OMS (Organização Mundial da Saúde).

    O projeto, criado por pesquisadores da Universidade de Connecticut e da Universidade Brown, nos Estados Unidos, acumulou mais de 6.500 relatos de 750 pessoas desde seu lançamento, no primeiro semestre de 2020. Os diários, disponíveis em inglês e em espanhol, tratam de temas como o isolamento social e o contexto político da pandemia.

    Os pesquisadores responsáveis pelo projeto consideram os diários uma fonte única para entender os impactos subjetivos da covid-19 sobre as pessoas comuns e a sociedade. Em relatos como esses, é possível encontrar informações sobre o cotidiano na pandemia difíceis de traçar em outros tipos de pesquisa, segundo eles.

    “Este momento é como qualquer outro minuto do dia, da semana, do mês. É como se ele fosse eterno. [...] Ele já dura há tanto tempo e não tem nenhum fim à vista, nenhuma mudança”

    Mulher de 30 anos

    em relato para o projeto “Pandemic Journaling Project”

    A plataforma surgiu com o objetivo de registrar as memórias de pessoas anônimas durante a pandemia. “Normalmente, a história é escrita apenas pelos poderosos. Quando a história da covid-19 for contada, vamos garantir que isso não aconteça”, afirma o projeto em texto de apresentação do site.

    Os participantes do projeto incluem pessoas de diferentes idades, origens e profissões. Em sua maioria, são mulheres. Embora a plataforma tenha diários de pessoas de mais de 20 países, a maior parte é de moradores dos EUA e do México, segundo reportagem do jornal The New York Times.

    Todos os diários são produzidos de forma voluntária. O projeto aceita relatos de qualquer pessoa: basta se cadastrar na plataforma. De tempos em tempos, os pesquisadores da iniciativa enviam perguntas aos participantes sobre a pandemia, e eles escolhem se irão responder com textos, áudios ou fotografias.

    Os diários podem ou não ser divulgados para o público, dependendo da escolha dos participantes. Caso alguém não queira disponibilizar seus relatos, eles ficarão restritos aos pesquisadores do projeto, que estão usando o material para estudo. Os diários divulgados, mesmo assim, sempre escondem nomes, imagens ou outro tipo de informação que possa identificar quem os escreve, segundo a plataforma.

    “Não posso deixar de pensar em alguém que conheço que é muito vulnerável a qualquer patógeno. Um músico talentoso que se isola porque não quer pegar covid-19, mas está morrendo por dentro devido à solidão. […] A pandemia nos atacou exatamente onde somos mais humanos; ele tentou nos roubar a conexão que temos uns com os outros”

    Mulher de 60 anos

    em relato para o projeto “Pandemic Journaling Project”

    Em análise preliminar, os pesquisadores identificaram temas comuns nos relatos dos participantes: eles demonstram preocupação com a pandemia e sentem ao mesmo tempo gratidão e culpa por sua situação. É também comum o sentimento de preocupação com familiares. Em outros casos, os participantes se dizem angustiados com outros problemas além da pandemia, como o racismo e a mudança climática.

    Além de contribuir para estudos sobre a pandemia, os relatos do “Pandemic Journaling Project” beneficiam os participantes do projeto, segundo os pesquisadores. A escrita criativa tem efeito terapêutico, porque permite que as pessoas se expressem quando ainda não conseguem falar de suas emoções com outras pessoas.

    Outros projetos buscam documentar as memórias individuais vividas na pandemia, inclusive no Brasil. Entre eles está a iniciativa “A palavra no agora”, do Museu da Língua Portuguesa, e o trabalho “Cartografias da memória”, idealizado por artistas e pesquisadores. O Museu da Pessoa criou, no início da pandemia, o “Diário para o futuro”, mas encerrou o projeto meses depois.

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