Qual o quadro da covid nos países onde a vacinação avança

Lugares como Israel, Reino Unido e EUA percebem efeitos positivos da imunização nos números de novos casos, internações e mortes na pandemia 

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Dados de países que começaram a vacinação contra a covid-19 ainda em dezembro e já imunizaram uma parcela expressiva da população mostram que a estratégia pode ter impacto significativo na pandemia do novo coronavírus, ao reduzir os casos de infecção, hospitalizações e mortes pela doença.

O maior exemplo disso tem sido Israel, que conseguiu pôr em prática uma bem-sucedida campanha de vacinação. Até o final de março, o país espera ter aplicado as duas doses necessárias da vacina da Pfizer/BioNTech em metade da população, de 9,3 milhões de pessoas.

O país, que começou sua campanha em 20 de dezembro, era o mais avançado até a quarta-feira (17), segundo dados compilados pelo site Our World in Data, ligado à Universidade de Oxford. Com 6,76 milhões de vacinas aplicadas, já havia imunizado 47% da população com uma dose, e 31% com duas. Os imunizantes já haviam chegado a mais de 80% das pessoas com mais de 60 anos e estavam disponíveis para qualquer um com mais de 16 anos.

Muito do sucesso do país é creditado ao esforço do governo israelense em garantir o acesso às vacinas. Israel pagou mais por elas (€ 23 a dose, contra os € 12 gastos pela União Europeia), aceitou se responsabilizar pelo produto (os países da Europa exigem que a responsabilidade por algum efeito adverso grave seja da empresa) e concordou em fornecer todos os dados da vacinação para a fabricante. A empresa garantiu, em troca, o fornecimento das doses até que 95% dos israelenses sejam imunizados.

Depois de Israel, Reino Unido (23%), Bahrein (15%), Chile (12%) e Estados Unidos (11,8%) aparecem como os países que mais conseguiram proteger seus habitantes do vírus. Em comparação, o Brasil só conseguiu alcançar 2,5% de sua população com um mês de campanha. O desempenho está muito aquém do esperado devido ao histórico do país e se deve principalmente à falta de doses suficientes.

Os efeitos em Israel

Informações divulgadas pela empresa israelense de seguros de saúde Maccabi, uma das quatro que operam no país, mostram que a vacina da Pfizer tem sido extremamente eficaz, confirmando os achados nos ensaios clínicos realizados pela empresa.

Para chegar à conclusão, a seguradora analisou o desempenho do imunizante em 523 mil clientes que foram vacinados. Desse total, somente 544 reportaram infecções após a segunda dose, o que representa apenas 0,1%. Dos infectados, 15 foram hospitalizados, oito tiveram sintomas leves, três apresentaram um quadro moderado e apenas quatro foram casos graves, sendo que nenhum deles morreu.

A empresa comparou os resultados com um grupo de outros 628 mil clientes que não haviam recebido a vacina. Nesse grupo, 18.425 foram infectados, o que apontava para uma taxa de eficácia da vacina de 93%. Os dados do grupo usado como comparação não foram detalhados.

Na segunda-feira (15), a Clalit, maior empresa de seguros de saúde de Israel, também publicou seus dados confirmando a eficiência da imunização no país. Ela também comparou dois grupos de 600 mil pessoas. No grupo vacinado, houve uma redução de 94% nos casos sintomáticos de covid-19, e as pessoas tinham 92% menos chances de desenvolverem quadros graves da doença.

Um estudo anterior já havia demonstrado a redução de casos entre idosos com mais de 60 anos. Durante as seis primeiras semanas de vacinação no país, o número de infectados nesse grupo da população caiu 41% em relação às três semanas anteriores ao início da campanha. Houve também redução de 31% nas hospitalizações e 24% nos casos graves.

Por causa dos resultados, o país decidiu flexibilizar o lockdown a partir de 21 de fevereiro, com a reabertura de shoppings. Israel também estuda autorizar o funcionamento de academias e cinemas para quem tiver um comprovante de vacinação (um código de barras que poderá ser apresentado pelo celular).

Os dados no Reino Unido

Segundo país que mais vacinou sua população no mundo até a quarta-feira (17), o Reino Unido está perto de imunizar um quarto de seus habitantes. Os dados, por enquanto, indicam que a estratégia vem funcionando, embora efeitos mais fortes sejam esperados apenas para maio, segundo alguns especialistas.

Uma análise do jornal britânico The Guardian publicada na terça-feira (16) mostrou que as mortes por covid-19 entre pessoas com 80 anos ou mais caíram 62% desde 24 de janeiro, data a partir da qual um terço do grupo havia conquistado algum tipo de imunidade por terem tomado a primeira dose duas semanas antes.

A queda foi maior do que em grupos com uma proporção menor de vacinados. Entre pessoas com idade entre 20 e 64 anos, a redução nas mortes foi de 47%. Já entre o público de 65 a 79, a taxa foi de 51%.

Ao jornal, o professor David Spiegelhalter, da Universidade de Cambridge, disse que o efeito entre os mais velhos indicava que a queda não poderia ser creditada apenas ao lockdown no país iniciado em 5 de janeiro.

“As mortes entre os maiores de 70 anos estão caindo mais rapidamente do que entre os grupos mais jovens, o que é muito animador e provavelmente foi influenciado pela vacinação. Houve uma queda abrupta nos surtos em instituições para idosos”, afirmou.

A pandemia nos Estados Unidos

Com 55,2 milhões de doses administradas desde dezembro, os Estados Unidos são o país que mais aplicou vacinas em números absolutos no mundo. Proporcionalmente, porém, apenas 11,8% da população foi imunizada com uma dose até a quarta-feira (17) — 4,5% receberam as duas doses.

Após registrar um pico de casos de covid-19 em 8 de janeiro, o país viu os indicadores despencarem, e a vacinação é considerada um dos motivos para isso — os outros são a adesão da população ao uso de máscaras e ao distanciamento social.

O número de novos casos diários, que chegou a 249 mil, caiu 63% até 14 de fevereiro. Nas duas semanas anteriores ao domingo (14), a queda foi de 39%. Em relação às mortes e às internações, a redução foi de 18% e 28%, respectivamente, no mesmo período.

O presidente Joe Biden havia prometido vacinar 1,5 milhão de americanos por dia em sua primeira semana no poder, mas o país já está conseguindo aplicar 1,7 milhão de doses diárias, segundo informações divulgadas pelo CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças) na quarta-feira (17). Ainda assim, a quantidade de imunizantes ofertada é considerada insuficiente para um país de 330 milhões de pessoas — no estado de Nova York, há fila de espera para a vacinação.

Especialistas estimam que os Estados Unidos precisem aplicar 3 milhões de doses por dia para que metade dos adultos seja imunizada com uma dose até abril — nesse ritmo, o país conseguiria atingir 100% da cobertura com uma dose em junho. Os dois laboratórios que fornecem vacinas para o país (Pfizer e Moderna) não têm conseguido entregar o número necessário de vacinas ao governo americano.

A situação do Brasil

Com um mês de vacinação, o Brasil só vacinou 5,3 milhões de pessoas com uma dose, o que representa 2,5% da população. Menos da metade das doses distribuídas aos estados havia sido aplicada até a quarta-feira (17). Nesse ritmo, a cobertura vacinal de toda a população só irá acontecer em 2024. O país fica atrás de vizinhos como o Chile, por exemplo, que já conseguiu vacinar 12% de sua população.

Com apenas duas vacinas disponíveis (Coronavac e Oxford/AstraZeneca), o governo federal não tem conseguido manter o abastecimento nos estados. Na quarta-feira (17), muitas cidades como Rio de Janeiro e Salvador suspenderam suas campanhas por falta de doses. Elas esperam o envio de mais vacinas para o final de fevereiro. Os imunizantes haviam acabado em cinco capitais e durariam apenas até domingo (21) em outras seis.

O efeito da vacinação, segundo os especialistas, vai depender da cobertura vacinal alcançada, da efetividade da vacina utilizada e da capacidade de transmissão do vírus (uma variante com maior poder de contágio, por exemplo, pode interferir nos indicadores).

Sem vacinas suficientes e com medidas frouxas de isolamento e distanciamento social, o país observa desde novembro um aumento de casos e mortes. Os números pioraram ainda mais em janeiro, depois das festas de fim de ano.

No domingo (14), por exemplo, o país registrou a maior média móvel de mortes desde que o vírus começou a circular. Foram 1.105 mortes por dia, calculadas com base nos sete dias anteriores.

Três dias antes, o Brasil havia registrado 1.452 mortes por covid-19 em apenas 24 horas. Foi a maior marca de 2021 e a terceira desde o início da pandemia, em março de 2020. O número só não foi maior do que os observados em 4 de junho (1.470) e 29 de julho (1.554).

Devido ao agravamento da situação, governadores cobraram do ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, um cronograma de entrega de vacinas e outras opções, como a vacina russa Sputnik V, que ainda não tem autorização para uso no país.

A suspensão nas campanhas de vacinação pelo país levou a Confederação Nacional de Municípios a pedir na terça-feira (16) que Pazuello seja substituído no cargo.

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