O tamanho do rombo da pandemia na economia europeia em 2020

Ritmo da atividade econômica na Europa acompanhou os estágios da crise sanitária. Principais países do bloco registraram tombos históricos

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A economia da zona do euro voltou a cair no último trimestre de 2020, conforme dado divulgado na terça-feira (16) pelo Eurostat, agência de estatísticas da União Europeia. Com a queda de 0,6% em relação ao terceiro trimestre, o PIB (Produto Interno Bruto) da região fechou 2020 com uma queda significativa.

6,8%

foi a queda do PIB da Zona do Euro em 2020, publicada pelo Eurostat na terça-feira (16)

NOVA QUEDA NO FIM DE 2020

Variação trimestral do PIB da zona do euro. Queda forte no início de 2020, recuperação no terceiro trimestre e nova queda no final do ano

A retração nos três últimos meses de 2020 marcou um passo para trás no processo de recuperação da economia europeia. Após duas quedas consecutivas nos dois primeiros trimestres do ano, o PIB havia dado sinais de forte recuperação no terceiro trimestre, registrando alta histórica. Mas no final do ano, a retomada perdeu fôlego e voltou a se transformar em uma retração.

A chegada da pandemia na Europa. E o efeito na economia

O andamento da economia na Europa em 2020 espelhou os estágios da pandemia na região – assim como ocorreu também em outros lugares do mundo.

Os primeiros registros oficiais de pessoas diagnosticadas com o novo coronavírus na Europa ocorreram ainda no final de janeiro de 2020. Naquele momento, a então epidemia de covid-19 tinha como epicentro a China – mas esse cenário rapidamente se alterou. Em março, a Europa passou a ser o epicentro da pandemia, com Itália, Espanha e França registrando os maiores avanços da doença.

O endurecimento da crise sanitária levou às primeiras medidas de isolamento social, fossem elas voluntárias – movidas pelo medo de contágio – ou impostas pelo poder público. Um trabalho de pesquisadores do Imperial College, de Londres, divulgado em junho daquele ano com base na análise de 11 países europeus, estimou que as medidas de isolamento salvaram cerca de 3,2 milhões de pessoas no continente até o início de maio.

A circulação restrita de pessoas paralisou parcialmente a atividade econômica europeia e levou a uma queda considerável do PIB já no primeiro trimestre do ano. A economia caiu 3,7% em relação ao último trimestre de 2019.

No segundo trimestre, sob medidas fortes de isolamento – em especial em abril –, países como França, Itália, Espanha e Alemanha observaram queda nos registros diários de casos de covid-19. Em paralelo, a economia registrou tombo histórico de 11,7%, refletindo a baixa circulação de pessoas. Em pouco tempo, por causa da severidade da recessão, cresceu a pressão para flexibilização das restrições e reabertura econômica.

O segundo semestre de 2020 e a nova onda de contágio

Já no começo de maio, a maioria dos países europeus havia iniciado o processo de retirada das medidas de confinamento. Com a volta de boa parte das atividades econômicas, o PIB voltou a crescer no terceiro trimestre, com alta histórica de 12,4% em relação ao período entre abril e junho.

A partir de agosto e setembro, a pandemia se agravou drasticamente nos diferentes países europeus – e o cenário sanitário piorou ainda mais em outubro e novembro.

Na União Europeia, o pico de casos diários em 2020 veio no início de novembro. A média móvel de 218 mil novas infecções diárias representou mais de sete vezes o pico da primeira onda, no início de abril, quando o número era de quase 30 mil novos casos por dia.

O pico das mortes por covid-19 na União Europeia, por sua vez, veio no final de novembro, com média de mais de 3.500 óbitos por dia. Devido à massificação de testes e ao aprimoramento no tratamento de casos graves da doença, o número de mortes cresceu menos que o número de casos.

Com a nova e mais forte onda de contágio, muitos países voltaram a adotar medidas de isolamento em outubro. Mas houve resistência à retomada das quarentenas, e as novas restrições impostas foram mais brandas que aquelas de meados do ano.

Isso não impediu a economia de sentir o choque negativo do novo avanço da doença e das medidas de restrição de circulação. A queda do PIB no último trimestre do ano foi puxada pelo setor de serviços, como hotéis e restaurantes, que viram o movimento voltar a cair com força.

As medidas econômicas do poder público na Europa

A atuação do poder público na Europa não se limitou à imposição e retirada de medidas de isolamento. Houve também aumento de gastos para combater a crise econômica.

Na Alemanha e na França, por exemplo, os governos assumiram o pagamento de parte da folha salarial de empresas para evitar demissões. Houve também programas de crédito público em diversos países para apoiar empresas em maior dificuldade. Isso sem contar o aumento das despesas com saúde, para atender às demandas trazidas pela pandemia.

A própria cúpula da União Europeia aprovou um pacote de socorro econômico aos países do bloco, com a criação de um fundo de € 750 bilhões (R$ 4,9 trilhões, pela cotação de 16 de fevereiro de 2020) à disposição dos países membros. Uma parte do dinheiro seria concedida em crédito, e a outra em doações que não precisam ser devolvidas.

Em média, os países da zona do euro gastaram cerca de 4% do PIB com pacotes de estímulo fiscal em 2020, segundo levantamento do Banco Central Europeu. O FMI, por sua vez, estima um gasto adicional de 3,8% do PIB da União Europeia – bloco com mais países que a zona do euro, já que nem todos os membros da União Europeia adotam o euro como moeda – para combater a pandemia.

Para efeito de comparação, os gastos do governo brasileiro para combater a crise da pandemia ultrapassaram 8% do PIB em 2020. A maior despesa foi o auxílio emergencial articulado pelo Congresso, que beneficiou diretamente mais de 67 milhões de brasileiros e impediu uma recessão ainda mais profunda no Brasil.

As perspectivas para 2021

A crise econômica da pandemia atingiu a Europa em um contexto já de baixo crescimento. Nos últimos anos da década de 2010, cresceu a desconfiança sobre a economia europeia, que registrava taxas muito baixas de crescimento e inflação próxima a zero.

A chegada do novo coronavírus transformou a estagnação em tombo. Nem mesmo a elevação dos gastos públicos evitou números historicamente ruins em 2020. Na Alemanha – principal economia do bloco –, o PIB caiu 5% em relação a 2019; na França, a queda foi de 8,3%; na Espanha, de 11%; e na Itália, de 8,9%. Todos esses números são recordes negativos no período pós-Segunda Guerra Mundial – ou seja, desde 1945.

A expectativa para o primeiro trimestre de 2021 é de nova queda na atividade econômica europeia. O principal motivo para essa perspectiva ruim é o quadro da pandemia no continente, com casos e mortes ainda em patamar alto – em especial em países do leste europeu. Há também preocupações ligadas à circulação de variantes mais contagiosas do vírus.

O ritmo lento da vacinação Europa – pelo menos na comparação com outras potências globais, como EUA e China – também ameaça o crescimento econômico em 2021. Enquanto a covid-19 não cede terreno, a orientação da própria União Europeia é que os países do bloco continuem expandindo gastos para evitar retrações ainda mais profundas em 2021.

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